OPINIÃO

Esse conto sobre os hemisférios

21/01/2016 12:28 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Jessica Peterson via Getty Images
Yellow and purple cauliflower, studio shot

Esse conto dos hemisférios cerebrais sempre me pareceu ridículo. Não acredito que o cérebro seja tão simples e tão funcional quanto os argumentos mais elementares do sentido comum mais gringo. Tudo o que nos agrada hoje em dia fica do lado esquerdo e tudo o que nos encantaria erradicar da face da Terra, do direito? Quando a natureza acaba se parecendo tanto com o que apregoam os divulgadores da moda, eu desconfio, não da natureza, senão da retraída manipulação divulgadora. A única coisa que me faz duvidar um pouco é que tenham deixado tudo de bom do lado esquerdo... Talvez tenha escapado essa conotação.

Dizem que no hemisfério esquerdo está o emocional e no direito, o racional, e para mim me parecem iguais. Não consigo distinguir um do outro. Olho para o órgão em imagens e laboratórios e não parece um órgão partido ao meio, e sim bem integrado. Mas desconfio ainda mais da tese quando vejo casos de lesões cerebrais mínimas que desencadeiam consequências múltiplas que nem os médicos mais experientes conseguem prever ou explicar com alguma segurança. Alguém que perde a habilidade de falar palavras esdrúxulas; alguém que sofre de falta de memória de curto prazo; outro que não consegue dormir nunca mais; outro ainda que não sabe mais fazer os mapas que fazia com tanta qualidade. E tudo por um coágulo menor que uma uva passa, ou um afundamento de dois centímetros ou apenas uma crise elétrica inespecífica em algum lugar impreciso. Nesses momentos, tudo parece muito mais complexo e mais parecido com o que imaginamos do que com o que nos falam os agentes divulgadores da neurociência.

Essa necessidade das inteligências pouco refinadas, de que tudo de abstrato se manifeste em concreto, nos leva a pensar que a emoção fica de um lado e as contas, de outro. E a mera separação entre emoção e razão parece simplória e ajuda muito pouco a pensar sobre a complexidade infinita da mente humana; imaginá-las, além de tudo, geometricamente diferenciadas soa pouco crível. Pensar não pode ser uma coisa de metade do cérebro e amar não pode ser da outra metade. Juro que os dois são necessários para as duas coisas; e muitas vezes nem percebemos. Amar alguém sempre compromete todo o cérebro e uma parte considerável do corpo. Como se, para correr, nos bastasse a perna direita e a esquerda só servisse para caminhar!

Mais de uma vez, encontrei alguém que tinha vontade e um background escolar estimulante e acabei perdendo no exato momento em que a pessoa encontrou essa teoria de plástico dos dois hemisférios, que a devolveu à superfície das questões como se fosse uma dessas boias de patinho para criancinhas com medo da água. Sinto-me mais cômodo no mundo de Freud, onde a subjetividade transcende a biologia e a dimensão simbólica da constituição subjetiva domina completamente a cena e define a linha de trabalho; um mundo onde a representação simbólica de meu pai é muito mais determinante em relação ao que sou do que o tamanho de minhas amídalas.

Quero uma escola construída sobre essa plataforma. Nem a genética me interessa especialmente em tudo isso. Muito menos a anatomia. Importam-me as configurações simbólicas, as estruturas de linguagem, as posições subjetivas. Não há lobotomia que reconduza um ditador e que o torne um democrata (nem vice-versa), por mais que possamos reduzir um lado e desenvolver o outro; essencialmente porque não é ditador pela geoanatomia que organiza o cérebro dele, senão pelo ponto negro na história de sua vida. Não há maneira de explicar o amor a meus filhos pela geografia do meu cérebro, nem de destruí-lo por uma intervenção nele. Não tendo à esquerda porque o hemisfério desse lado me cai melhor. Não há aneurisma que me faça esquecer que a amo, nem Alzheimer que...

Pergunto-me por que aparece agora a neurociência, quando já existia desde sempre a neurologia. Por acaso não é o mesmo? O que justifica essa emergência nova, senão uma simplificação mais política do que científica e bastante esotérica, seja dito de passagem? Assemelha-se a esses movimentos que já vimos de usar a forma científica para dar credibilidade a hipóteses de outra índole (porque o discurso científico é um grande mecanismo social de construção de "verdades políticas"; é um relato que persuade bem o senso comum).

Não creio - em suma - que a neurociência nos mostre o caminho. Creio - muito mais - que resulta tão simplificadora e tão grosseiramente concreta que, ao fim, convence de uma maneira que não leva a lugar nenhum; convence porque apaga. Chega às conversas com uma versão tão superficial que captura a atenção porque acalma, quer dizer, porque nos devolve às certezas dérmicas que estávamos perdendo. O problema é mais complexo do que a neurociência quer nos fazer ver. Como a neurolinguística, que quis fazer das relações interpessoais um jogo binário de damas e acabou dando no que deu.

Eu sei que, em educação, queríamos, nessas alturas, ver as coisas mais claras e entrar em acordo sobre um caminho nítido de trabalho e realização, mas não por isso devemos cair nas vãs tentações do saber vulgar. O problema é complexo e complexa deverá ser sua solução. Não nos apressemos, porque, muitas vezes, a pressa, em vez de acelerar, simplesmente nos perde. Para que a subjetividade plena, complexa e profunda volte às escolas, não devemos estimular adequadamente o lado esquerdo de ninguém, senão a dignidade de todos e a inteligência plena, ampla e indiscernível de cada um.

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