OPINIÃO

Educação e tecnologia

27/03/2015 14:55 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
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Essa relação poderia ser fecunda se não fosse traumática.

Estamos nessa encruzilhada e deveríamos sair dela. Vejamos o assunto por meio de quatro premissas.

Somos fãs de aprender fazendo, não é verdade? É claro, posto que isso, hoje e de forma evidente, é uma máxima sobre a qual há consenso. E também um grande apelo.

Porém, quanto à forma pela qual a tecnologia entra ou não entra na escola, o primeiro que dizemos é que devemos ir devagar; que temos de ir devagar porque não sabemos nem por onde...

Devagar, no nosso vocabulário, quer dizer, pensar primeiro e depois, bem depois, talvez, dependendo do caso, agir. É uma reflexão que emoldura a ação, mas que, por fim, acaba por detê-la. Postergar o fazer até que nossa ponderação nos permita. Assim dizemos e, então, esperamos por nós...

Ponto, parágrafo. Primeira premissa.

Ficamos esperando, enquanto a sociedade todinha se digitaliza - sem pensar nisso e até sem perceber, para o bem e para o mal - e avança e pega o ritmo. E o ritmo é valor. E faz e aprende com seu fazer e continua fazendo e aprendendo, num círculo, se não completamente virtuoso, seguramente produtivo.

Mas, na escola, não. Fomos congelados por um artifício. Um sofisma mantém-nos confinados. Justamente nós estamos prostrados pelo sofisma!

Eu acho que é o contrário. Eu sei que é o contrário. Devemos começar, agora mesmo, a fazer para, então, poder começar a aprender alguma coisa. Quero dizer que devemos começar sem haver aprendido.

A tecnologia deve começar a agir na escola e, com isso, aprenderemos algo do significado que a tecnologia terá na escola. O aprendizado como consequência da ação. Como se pode ver, a encruzilhada é crucial.

Ponto, parágrafo. Segunda premissa.

Na educação e na escola, almejamos também outro falso movimento, que chamamos - para simplificar - de escolarização do digital. Queríamos que essa trama social espetacularmente aberta do mundo web na escola "se comportasse", ou seja, se submetesse às regras históricas e fizesse somente o que a escola deseja que ela faça, da forma que a escola deseja que faça. Que o digital, na escola, perceba que está numa escola... E então, não. O digital é indomável e mexe-se, livra-se e começa a entrar pelas frestas, isto é, pelos descuidos da escola, nos bolsos das crianças. Essa é uma equação ruim, porque se enche de ímpeto conspirador e, depois, sabe-se lá o que vai acontecer...

O digital - assim como a adolescência - não aceita regras que neguem o jeito de ele ser. Trata-se de digitalizar a escola, e não o contrário. E o digital vem do jeito que vem.

Ponto, parágrafo. Terceira premissa.

O digital não é um objeto de estudo. Não é estudado em si mesmo. Nem sequer é uma competência. É uma atmosfera que atravessa os processos e as práticas sociais (no caso, o da aprendizagem). Atravessa e altera-os, como qualquer boa atmosfera. Porém, enquanto isso, nós queremos "estudar" o digital, aprender o digital, reduzi-lo a um processo racional e organizado. Gesto escolar exagerado, que não entende que não é possível, nem necessário, aprender a respirar a atmosfera digital - que simplesmente tem de ser respirada. É exatamente o que todos já fazemos - mesmo que a escola negue e o faça relativamente bem, além de tudo. Inconscientemente.

O digital é um novo meio ambiente, onde se desenvolvem as práticas sociais do século XXI e onde elas são redefinidas mais uma vez. Isso é o que a escola não recria em seu interior. Por isso, ela está estranha. A comunidade escolar não respira digitalmente. Nas escolas, falta o digital como o ar no cume do Pico da Neblina. À medida que vamos aproximando-nos das escolas, sentimos -como nas narinas -essa rarefação.

Ponto, parágrafo. Quarta premissa.

O digital em si não tem valor. Vale o que vale pela sua repercussão nas condutas e laços sociais. Essa é a manifestação socialmente relevante do digital. Isso é inegável e irredutível. E tem repercussão redesenhando os comportamentos e pondo em dúvida as crenças fundamentais da sociedade moderna. Isto é, chega fundo. Alguns aparelhos são capazes de fazer isso? Sim e não. É um tecido monumental de aparelhos interconectados e de pessoas interconectadas por meio desses aparelhos, que acabam criando cosmovisões, inventando mundos no mundo, refazendo-nos. Assim, poderoso, é como eu vejo. E assim, literário. Assim, desestabilizador para a escola e para a educação.

Mas a escola e a educação são como são. Nós, os educadores, somos como somos e resistimos. Estamos presos a velhos litígios e lutamos com velhos monstros. Mediante gigantescos gestos de ponderação, ponderamos. Ponderamos em múltiplos foros, na mídia, em cada oportunidade: "A educação não cairá na armadilha. A escola não degenerará", e ajeitamos os óculos...

Mas eu acho que não é assim. A escola e a sociedade XXI precisam de nós, mas de outra maneira.

Precisam para que nós demos os primeiros passos, que indiquemos o caminho para frente, para fazer acontecer, para que exista uma ação e, a partir dessa ação, todos nós - sim, todos! -, de uma vez por todas, aprendamos e possamos escolher, outra vez, nessa vertigem moderna que nos alucina, o melhor caminho novo a ser percorrido.