OPINIÃO

A escola integral vem ou não vem?

07/08/2015 18:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
ullstein bild via Getty Images
(GERMANY OUT) Germany Saxony-Anhalt Bernburg - Children are making a collage at the kindergarten of the Christian day-care centre 'Martinszentrum Bernburg' (Photo by Zöllner/ullstein bild via Getty Images)

Às vezes negamos até o mais evidente, a serviço já não sei de quê. A escola brasileira obstina-se em pensar a escola integral a partir da desintegração e não parece se dar conta. Começa mal sua abordagem do problema. Cai em flagrante contradição e olha para outro lado.

Desde que cheguei ao Brasil, há mais de três anos, assisto a uma série de discussões em âmbito escolar que não avançam. Uma delas é a da escola integral. Primeiro supus que era porque o debate estava amadurecendo e eu a havia alcançado no meio de seu próprio processo de desenvolvimento. Mas logo me dei conta de que não; de que estava desde sempre nesse mesmo ponto. É uma discussão travada, que nem avança, nem retrocede, inibe quase tudo e desculpa muitas coisas. Então, quando se quer começar a refletir sobre o novo marco de pensamento para a escola hoje, nunca falta quem aponte que já faz tempo que isso vem sendo discutido e que isso já foi discutido e que coloque você no lugar do retraído, do passado, do evidente - seja por ser verdadeiro ou falso. Quando quer assinalar a importância de um tema não abordado nas práticas, nunca falta aquele outro que diz e sente que já se caminhou muito nisso. E tem razão, só que tudo avançou a serviço do inútil e da resistência. Caminhou, mas não avançou.

Obviedade, mas a escola integral deve ser pensada e desenvolvida integralmente; senão, estamos negando-a, em vez de desenvolvê-la. O integral se contrapõe essencialmente a conceitos como complementos, fragmentos, subordinações ou agregados. Ou é um todo, ou o integral não é.

A escola integral é uma escola só; não integrada, senão integral. É uma escola pensada como um todo. E a escola brasileira está tão sujeita à sua própria história de escola "parcial" que não consegue se repensar a partir de uma nova integralidade. Apenas consegue agregar e incorporar, mas não consegue redefinir. Não consegue pensar integralmente, a rigor. Subordina o que chega ao que tem e acumula no pátio de trás. Constrói uma gramática ad hoc para incorporar, mas não se atreve a replanejar sua gramática para migrar a uma nova gramática integral a partir de sua definição. Quer dizer, a escola brasileira tem dado milhares de passinhos parciais, próprios de um processo em movimento, mas não foi capaz de dar o passo inicial e essencial; por isso, seus passinhos intermediários são mais a negação do integral que seu desenvolvimento. Falta marco; falta estrutura; faltam coragem e vontade para alojar a mudança onde a mudança requer ser alojada para fazer sentido. Falta gesto fundador de mudança.

Esta discussão me lembra outra, paralela e semelhante, que não está restrita à escola brasileira, ainda que a abarque. Refiro-me à discussão da integração das disciplinas. Na escola também dizemos que estamos nisso, mas, a rigor, o que temos feito desde quase sempre - porque sempre dizemos que estamos nisso - é acumular disciplinas, conectar com outras e fazer costuras ocasionais. Ignoramos ou queremos ignorar que, quando se trata de integração, a única atitude válida é modificar o ponto de partida. Não se trata de ir desde as disciplinas até uma integração, senão do contrário; partir de uma integração para chegar logo a uma participação disciplinar. E esse passo a escola não dá. E não dá pelas mesmas razões pelas quais a escola brasileira não dá seu passo até a escola integral: porque supõe ingressar em uma nova configuração estrutural que modifica quase tudo.

A escola integral que a escola brasileira discute debilita um dos grandes argumentos que a mesma escola elabora para justificar sua impotência diante de certos desafios: que precisa de tempo. A escola integral expande seu tempo e redefine sua estruturação. Não é mais tempo complementar, é mais tempo escolar geral. É outra escola, redefinida para empreender outros desafios.

Não estou dizendo que a escola brasileira não empreenda o passo porque lhe custe abandonar seus argumentos de resistência, mas talvez seja isso. Às vezes, este tipo de coisas dá medo. Os argumentos de justificativa nos protegem, ainda que nos atrofiem. Se fôssemos capazes de aceitar como próprio o chamado de chegar a uma escola integral, então se abriria um mundo novo para a escola brasileira. É uma manobra que reinstala boa parte dos mais importantes debates que atravessam ou deveriam atravessar a escola hoje: competências, habilidades não cognitivas, empreendedorismo, programação, processos construtivos de conhecimento, tempos, ritmos e inteligências pessoais etc., etc. Não digo que as coisas se resolvem de uma vez por nos abrirmos ao trabalho integral, mas, sim, digo que se alteram substancialmente as coordenadas em que estão alicerçados esses debates.

A escola integral é uma escola maior, para todos os alunos. O contrário do que hoje em dia muitas escolas brasileiras chamam de tempo integral na escola. É verdade que em outros países já existe a escola integral; e que essa escola não é necessariamente melhor, nem muito menos resolveu os problemas fundamentais que enfrentamos como instituição. Não digo que o caráter integral da escola seja "a" solução; digo que, para a escola brasileira, sua integralidade é um grande desafio e uma grande oportunidade para se repensar e se redefinir. Para a escola mexicana - por exemplo - pelo contrário, essa tensão de mudança que o integral traz no Brasil, não o traz para elas. No México, para que a escola se repense a partir de sua base, devemos apelar a outras discussões, recorrer a outras apelações que a comovam e a sacudam como o conceito de escola integral faz com a escola no Brasil. O valor dos conceitos com capacidade de comoção é relativo ao curso histórico dessas escolas e seus debates.

Para entrar em processo de mudança, devemos trabalhar sobre algum conceito central que comova a instituição, que a assombre e a tire do eixo; que a desestabilize e a ponha em movimento, aberta e valente. Um conceito, em suma, que a ponha para trabalhar; para se construir e crescer.

Naturalmente, depois desta reflexão de ordem geral vem outra, a que nos leva a discutir com que dinâmica, com quais objetivos e com quais recursos configuramos essa nova escola integral. Mas insisto - pela última vez - que não se trata de um processo intelectual acumulativo, de agregar tempo e conteúdo ao recipiente da escola de hoje. A passagem à escola integral brasileira serve para redefinir o que entendemos por uma escola hoje no Brasil.

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