OPINIÃO

A autoridade bem construída se chama carisma

04/06/2015 10:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:19 -02
reprodução

O professor tinha faltado. Teve um problema inesperado. Ela assumiu a classe; não sei se por vontade ou por imposição, mas assumiu. Eram seis meninas, de sete anos em média. Aula de jazz. Véspera de Natal. Já tinha passado o grande espetáculo no teatro; a academia estava terminando o ano, era a última semana de aulas.

Começou sem atuações excessivas. Avisou às meninas que Daniel havia sofrido um acidente com o carro dele, mas nada grave, para ficarem tranquilas - esclareceu com toda naturalidade. Tomou seu tempo. Estava pensando no que fazer... As meninas brincavam por ali. Nada inocente, já nessa idade.

Preparavam o boicote. Organizavam o fracasso. Não tinham muita vontade de nada.

Ajustou a música com seu telefone e tomou a frente da sala. Não era imponente. Parou de frente, olhando para as meninas, sem música. Iniciou o aquecimento. Sem concessões e sem pirotecnias. Não parecia preocupá-la o que me preocupava, que era que as meninas aceitassem sua liderança. Ombros, quadril, braços... E de novo, vai! Seguiam-na com apatia três ou quatro delas; as outras meninas estavam em outro registro. Ela continuou, como se soubesse o que viria; como se a confiança a sustentasse.

Derivou suavemente do aquecimento uma base coreográfica simples, sem espalhafatos. Tudo sem música; apenas sobre os ruídos do trabalho. Ombro, ombro, sobe, desce, direita e, de novo, ombro... (Mais de uma vez as meninas lhe perguntaram - com um tom inquisitivo pré-adolescente - se retomariam a coreografia que vinham trabalhando, e ela respondeu que no final). Ela de frente para o espelho; ela de frente para as meninas. Olhava para elas e as levava, mas nunca usou da repreensão. Não as enfrentou. A que mais tarde entrou na dinâmica, mais tarde entrou; soube esperá-las. Simplesmente.

Ombro, ombro... Cada vez com mais rigor, com mais ritmo, mais intensamente. Aos poucos as coisas iam ficando sérias. Vai, vai, vai. Agora com música, e soltou. Colocou a música e passou novamente o ombro, ombro, sobe... Em velocidade, com vigor. Notou-se que algumas meninas fizeram um primeiro leve click. Ela sabia.

Parou a música, a seco. Ao trabalho de novo. Vai: ombro, ombro... E agora, braço, braço, pulso para cima, o outro, fecho e já, com quebra de pescoço lá atrás... Isso. Mais sensual! Bem feminino!

Vai de novo. Outra vez. E outra.

Foi formando-as, pouco a pouco. Três na primeira fila, abertas. Outras duas em segunda fila e as outras duas fecham por trás. Não lhe importaram as líderes, as lindas, as mais não sei o quê ou as muito mais não sei quanto; as que foram. Três adiante, logo duas e duas, e passar de novo. Vai, vai, vai.

Ela mostra, de costas, de frente, e logo corrige. Pouco, mas olha para elas. Seu olhar treinado precisa de muito mais. Troca as meninas de lugar, seguindo um critério que não explicita. Música de novo, para uma passagem completa. Você para cá e você para lá. E começar de novo.

Já domina, totalmente. Acabaram-se as digressões, as dispersões, as engenhosidades. Desmontou-se o boicote como se jamais tivesse existido. E ela tão fresca. As meninas não sabem nem seu nome, nem ela o das meninas. Não precisa. Vai, vai, vai e vai! Mais sensual! Bem feminino.

A coreografia já tem sete passos, compassados. Ombro, ombro, sobe... Braço, braço e, de novo, giro, vou... Volto, giro de novo, braço, outro braço, mãos juntas e vai. E de novo. E a que erra, ela corrige na seguinte, sozinha, com ela ao lado.

Música por 15 segundos, passo a passo, e de novo ao trabalho. Vai e vai. Seu domínio é total. Ela, desconhecida, governa sem autoritarismos. Leva e conduz, com discrição. As meninas vão aparecendo, uma de cada vez. Mas alinhadas ao trabalho, não reivindicadas no boicote. Outra maneira de confirmar-se; uma maneira muito melhor de constituir-se.

Ela sabe que tem mais uma carta, matadora. Mas está tão cômoda a esta altura da aula que poderá usar para desfrutar, porque já não tem nada a acomodar. Não há mais mensagens. Ela, a professora improvisada, a substituta, a sem carisma, discreta e focada construiu uma aula muito boa. As meninas trabalham (era véspera de Natal - lembram? - quando já ninguém queria fazer muito) com base em uma coreografia que não conhecem, logo depois de ter estado em outra durante um ano inteiro. A música não é ocasional, o esforço e a concentração, permanentes. Ela domina, mas não se impõe. Não permite, mas não proíbe. Arrasa, suave. Impulsiona. As meninas apareceram, cada uma com seu ritmo.

Vai, uma vez mais. Ombro, ombro, sobe... E vai, vai, vai, giro, vai, de novo, venho, vai, braço, braço - aí - estiro, mãos juntas, vai, e abro a maquiagem, assim, e vai, passo pó do lado direito, agora do esquerdo, e fecho, assim, sensual, feminino. E agora, com música...

E foi uma festa. Uma grande festa de 30 segundos. Uma festa improvisada, imprevista, que se impôs à festa que havíamos tido 15 dias atrás no teatro, com aquela decolagem exagerada de trajes, músicas, públicos, fotos, vídeos, cenografias, cores, luzes... Esta foi uma verdadeira demonstração, não aquela.

Deveríamos aprender. A discreta se impôs à ostentatória. Ela encontrou o ponto; e o impôs, com convicção.

Não filmamos, porque não esperávamos. Ninguém esperava nada, por isso tudo aquilo como resultado.

Acabou a passagem final, fantástica, emocionante, carregada de sensualidade e a feminilidade que havia pedido e parou a música, com a mesma discrição de toda aula. Tinham sido 40 minutos, não mais. Ah, uma das meninas lhe pediu se poderiam passar a coreografia da apresentação, que ela desconhecia.

Agora sim, respondeu com naturalidade; havia se comprometido. Passaram-na e não valeu a pena. Era muito difícil competir. As próprias meninas não notaram. E acabou-se. Despediu-se e saiu, sem soberba.

E aí ficamos, extasiados e um pouco nostálgicos, havia acontecido algo. Minha esposa a cumprimentou, como tentando detê-la, não sabíamos nem como, nem para quê. Ela aceitou e agradeceu, mas ainda assim seguiu seu caminho. Ia para onde ia. O que foi?

Foram muitas coisas juntas, sem dúvidas. Coordenadas para o sucesso. E então, volta naturalidade, convicção, leveza, magistério dos bons. Ela entrou sabendo o que é preciso saber e ignorando o que não deve se constituir. Entrou exatamente ao contrário de como entram as professoras nas aulas das escolas, que sabem demais sobre o que deveriam deixar que se construísse e não sabem sobre o objetivo, o tom, o ritmo e o carisma, que é o que deveriam saber.

É justamente isso, creio. Inverteu tudo e conseguiu o que não se costuma conseguir. Não levou receitas, nem armou parafernálias, nem de controle, nem de sedução; tratou-as seriamente e lhes mostrou o árduo caminho do trabalho. Respeitou e liderou. Deu lugar para que aquilo que a sucedesse partisse delas, em seu espaço e seu estilo, mas que sucedesse. Foi discreta e progressiva. Deu-se tempo e jamais se apressou, ainda que tudo não tenha durado mais de 45 minutos. Foi genial.

Ela entrou suavemente, disposta a fracassar, mas não a conceder. E dedicada a trabalhar. Sua mensagem não tinha ambiguidades, e assim nitidamente a receberam as meninas, por mais que ninguém lhes tivesse dito nada. Não houve cumprimentos estereotipados, cenas de empatia pouco importantes; tampouco vi simpatias complacentes. Tudo funcionou sem isso. Deveria nos ensinar algo, verdade?

A escola, que é tão linda, simpática, suave, empática, contenciosa, infantil no geral e complacente quase sempre, não entende que a autoridade bem construída se chama carisma e engendra respeito dos bons. Mas, claro, precisa saber, de convicção e de tudo isso que ela tinha. Tampouco entende que as mensagens mais eficientes não precisam ser ditas.

O sucesso está ligado ao trabalho, nos disse constantemente, ainda que não falasse. A música chega quando a base está armada. A atitude é o que conta. Não faz falta ser melosa para levar um grupo de meninas de oito anos, ligadas à vaidade da aula. Não faz falta ser fantástica, nem histérica, nem bonita. Não era. E se impôs. Ainda que anônima, se impôs.

Não sei se vale a pena que continue. Sei que se passo do ponto nas interpretações, não faltará gente para começar a questioná-las, e eu quero discutir a experiência, não sua interpretação. Pode-se fazer isso, eu o vivi. Ela o fez, diante de mim e diante de mais de uma adversidade. E o fez em 45 minutos.

Minha filha - uma das meninas que receberam a aula - se lembra dela e do que aconteceu. Deixou uma marca, pontuou a vida de minha filha e - provavelmente - de suas colegas. Deixou rastro.

E foi-se, como devem ir os bons professores. Porque não são eles, senão elas, as meninas, o que importa.

Agradeço a ela. Ajudou-me a sentir que é possível.