OPINIÃO

O efeito Tropa de Elite

13/07/2015 12:18 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02

- Dá pra matar dois coelhos numa porrada só aqui, hein?!

- É 100%?

- Caveira, Capitão.

- Então senta o dedo nessa porra!

O diálogo entre o Capitão Nascimento e um atirador de precisão do BOPE no filme Tropa de Elite é bastante emblemático. Para quem não se lembra exatamente desse momento, ele acontece enquanto Nascimento e seu subordinado observam policiais militares e traficantes negociando propina. Para o capitão, PM que alivia para traficante também é bandido e, portanto, sua sentença está decretada.

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O fato de que "são os próprios bandidos pedem para morrer" não só é curioso, como parece ganhar adeptos. Casos recentes mostram que cidadãos, insuflados pela chama da impunidade, incorporam a persona do Capitão Nascimento a fim de querer exterminar os males da sociedade, personificados aqui pelo bandido, o corrupto, o assassino, o traficante ou qualquer outra figura que seja diferente da representação que eles próprios têm do "cidadão de bem". Uma espécie de efeito Tropa de Elite em que ser Capitão Nascimento é ser super-herói.

Mal sabem eles, porém, que no mesmo instante em que "sentam o dedo" para agredir, torturar e/ou matar um bandido, pela lei, tornam-se iguais a ele. Afinal, a regra é clara: tanto no caso de Tropa de Elite quanto, por exemplo, do rapaz morto e amarrado ao poste como um animal no Maranhão, não se trata de legítima defesa da vida e, sim, de vingança, tortura, crueldade. É a necessidade simbólica de expor em praça pública que a sociedade não aceita aquele comportamento e, assim, rechaçar a existência dessas pessoas. Aqueles que compartilham desse linchamento físico e moral, como lança à luz a filósofa Márcia Tiburi, são na realidade cúmplices de assassinato, jamais heróis.

O ponto é: vale mais compreender e atuar nas causas desses descaminhos ou simplesmente descumprir a Constituição Federal e "sentar o dedo nesses filhos da puta"? Particularmente, não conheço nenhum caso em que seguir a última opção livrou efetivamente quem quer que seja da criminalidade. Esse é, na verdade, o alicerce de uma espiral do crime.

Tal pensamento desumano segue por justificar uma série de mortes e desaparecimentos que tomam diariamente os noticiários. Quem não se lembra, por exemplo, do caso Amarildo? O documentário O Estopim faz questão de mantê-lo vivo: como pode a suspeita de tráfico ser a justificativa para o desaparecimento de um morador da Rocinha? Se a violência é realmente um problema de polícia, por que então casos como o do pedreiro morto são tão frequentes em comunidades "pacificadas" pelas UPPs?

Em um depoimento também emblemático, um dos moradores da Rocinha e funkeiro Mc Leonardo dá a letra: "enquanto UPP não for Unidade de Políticas Públicas, [em vez de Unidade de Polícia Pacificadora] nada melhora". Talvez seja esse o ponto: que tamanha barbárie, tanto do Estado como da própria população, sejam o estopim de um novo efeito que não o da tropa da elite.

Curiosamente, o funk de Mc Junior e Leonardo que encerra o documentário, também faz parte da trilha sonora de Tropa de Elite 2. Afinal, a continuação da saga do anti-herói Nascimento revela que "tá tudo errado/ difícil entender também/ tem gente plantando o mal/ querendo colher o bem".

Deve ser por isso que o segundo filme é tão melhor que o primeiro.