OPINIÃO

'Ainda não entendi a mensagem'

27/01/2014 19:23 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Divulgação

Sempre fui um pai preocupado quando meus filhos saiam à noite, ficava inquieto, não dormia direito, sempre preocupado com alguma coisa que acontece a eles, um acidente, uma briga, uma agressão ou outra coisa. Era algo que sempre me acompanhou e tive que aprender a conviver.

Naquela noite de 27 de janeiro, fui acordado por minha esposa, dizendo que a Jéssica estava ao telefone falando que a Kiss havia pegado fogo. Levantei e atendi o telefone e minha filha gritava "Pai, a Kiss pegou fogo e eu não acho o mano". Tentei acalmá-la e saí ligeiro de carro, pois moro a poucas quadras. Isso era em torno de 3h15.

Em minutos, cheguei onde o trânsito estava bloqueado e me deparei com uma cena só vista em filmes de catástrofes. Subi a Rua dos Andradas a pé e encontrei minha filha no meio do caminho desesperada, aos gritos. Abracei-a e fomos até a frente da boate: bombeiros, ambulâncias, pessoas corriam de um lado para o outro, gente sendo carregada, uma cena que até hoje está marcada na mente e na alma.

A partir daquela madrugada a nossa vida mudou, e como não mudaria? Receber a notícia que um filho amado, com uma alma gigante, um sorriso encantador, um abraço inesquecível e umapersonalidade marcante, que na sua vida foi amigo, solidário e amoroso já não estava mais junto a nós, que não voltaria para casa, foi como que a terra se abrindo aos nossos pés.

A pessoa com quem mais briguei e blasfemei naquela noite foi com Deus. Por quê? Para que isso aconteceu comigo, com minha família? Por que o meu filho? Essas foram as perguntas que permaneceram por um longo período martelando nossos corações.

Mas foi na segunda-feira, logo após chegarmos do enterro do Vinícius, a partir de uma conversa com minha filha Jéssica (uma guerreira), que alguma coisa começou a acontecer em nossas vidas. Ela, corajosa, ao chegarmos em casa foi arrumar algumas coisas do mano no quarto que sempre dividiram desde que nasceram, e me chamou para um conversa. Entre as coisas que me disse, uma marcou a nossa retomada da vida: "Pai, nós temos dois caminhos a seguir, ou abrimos um buraco, nos enterramos juntos e ficamos brigando com Deus, com as pessoas e o mano não volta mais, ou levantamos, seguimos em frente com a mesma coragem que ele teve naquela noite".

Nossa, isso mexeu comigo. Pois se minha filha, que estava junto na boate e sempre fez tudo para e pelo irmão, mostrava força e coragem, eu não poderia fraquejar. Então nos unimos em família e resolvemos enfrentar esta nova etapa da vida, pois a história que o Vinícius havia escrito não nos permitia agir de outra forma. Lembro que, questionado por um dos tantos repórteres que nos procuraram sobre quais as mudanças que esperava a partir da tragédia, eu respondi que a grande mudança era nas pessoas e das pessoas. Pois se isso não ocorrer não adiantam leis, decretos, normas.

Somamo-nos à luta pela justiça, mas sem vingança. Recebemos milhares de abraços, fomos fortalecidos por incontáveis amigos que nunca nos abandonaram. Reaproximamo-nos de Deus e aumentamos nossa fé, pois entendemos que aqui não é o final de tudo. E, principalmente, nos espelhamos na história de vida do Vinícius, que, com gestos simples e singelos como sorrisos, abraços e amizade, conquistou e continua a conquistar milhares de amigos. Naquela noite, com outros tantos, não desistiu e voltou para dentro daquela boate tantas vezes quando pode e ajudou muitas pessoas até perder as forças.

Se ele não desistiu, nós também não desistiríamos. E seguimos em frente, mudando um pouco a cada dia, procurando com ações positivas e construtivas ajudar a quem precisar. Não abrimos mão de buscar justiça, mas justiça limpa, clara e racional, pois sabemos que as leis são feitas por homens e nós somos passíveis de falhas, as mesmas que levaram meu filho naquela noite. Se essa justiça vai ser plena ainda não sei, temos que esperar o enceramento do caso, o julgamento, mas uma coisa me incomoda: desde o início de tudo, a meu ver, não existiu uma lógica linear na investigação.

Sendo o mais racional possível que o emocional me permite, essa tragédia teve poucos culpados e muitos responsáveis. O sistema falhou, e falhou no município, no estado e na União, muitas pessoas se promoveram com tudo isso, muitas coisas foram ditas sem pensar, muitas ações não auxiliaram em nada.

Ainda não entendi ou descobri a mensagem que este acontecimento nos deixou. Preciso, quem sabe, ter um coração mais puro e uma alma mais leve para um dia entender, mas não tenho dúvidas que uma mensagem existe. Enquanto isso não ocorre, eu fico com a mensagem e lição que meu filho me deixou: "Eu não desisti, eu fiz a minha parte e tenho certeza que vai fazer a tua, pai".

E como ele sempre nos falava nos momentos mais duros, difíceis e críticos: "Ahh... Muleke! O Show não pode parar!"