OPINIÃO

Fellini

09/10/2014 19:53 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02
ASSOCIATED PRESS
Federico Fellini the foaming of a close-up of Italian movie and stage star Anna Magnani he Rome in 1970. He is been on the set of the movie “Roma” which he is directing. (AP Photo)

Federico Fellini, o grande gênio italiano, decidiu homenagear seu amigo Nino Rota, autor das notáveis trilhas sonoras de seus e de outros filmes, compositor de mão cheia, músico eficiente e contemporâneo, e realizou uma pequena produção feita pela RAI, denominada Ensaio de Orquestra. A pretensão felliniana era colocar na relação entre um conjunto musical e seu regente toda a angústia e a esquizofrenia da sociedade moderna, pontuada pela autoridade, e às vezes pelo autoritarismo do maestro, além da subserviência ou da reação dos músicos.

Um dos momentos mais marcantes do filme é quando, depois de uma insubordinação generalizada, o maestro é deposto e em seu lugar colocado um metrônomo gigante. Afinal, eficiente na marcação do andamento, o monstrengo tecnológico ainda tem o mérito de não reclamar dos músicos, ou de fazer ensaios que se tornam insuportáveis pela busca da perfeição.

É claro que não dá certo.

Alguns maestros, na maioria das vezes acometidos de súbito ataque de humildade, e no afã de mostrar a competência de seus conjuntos musicais, tem o hábito de depor a batuta na estante e se acomodar confortavelmente nas cadeiras da plateia. É uma destas bobagens recorrentes, muito comuns em sinfonias do período barroco, mais precisamente de Mozart ou Haydn, quando os músicos podem se guiar tranquilamente pelo ritmo ditado pelo primeiro violino. Não há registros de algum valente que tenha feito isso com Stravinsky ou com Hindemith.

O regente moderno, como se concebe hoje, capaz de conduzir um conjunto musical nas minucias do andamento ou da dinâmica, surgiu apenas em meados do século XIX. Mendelssohn foi um grande regente, Lizst também, ainda que a maioria dos grandes compositores do período não se arriscasse nos púlpitos.

No século XX, alguns grandes regentes passaram a emprestar sua personalidade às orquestras de tal forma, que não raro se confundiam. Stokowsky e a Sinfônica do Ar, Arturo Toscanini e a NBC, Bruno Walter e a Columbia, Ormandy e a Filadelfia, Beecham e a Royal Orchestra, Karajan e a Berlim, Ernest Ansermet e a Suisse Romande. Mengelbert e a Concertgebown., Fricsay e a RIAS, Solti e a Chicago, Bernstein e a Nova York, Dudamel e a Simon Bolivar e assim por diante.

A relação entre o maestro e a orquestra, pelo menos até onde se tem notícia, nunca chegou ao exagero felliniano, mas quase. Toscanini era um tirano que às vezes ensaiava a NBC por 16 horas. Karajan exigia um tratamento como se fosse um deus. Ferenc Fricsay tinha o hábito de usar da ironia. Uma de suas frases célebres começava em tom amistoso e terminava aos gritos: "Senhores, vocês estão apenas tocando as notas. Não estão reproduzindo a música".

O mitológico Wilhelm Furtwängler, diretor da Viena e da Berlim, ícone da propaganda nazista, escondia os músicos judeus da Gestapo. Fazia ensaios rigorosíssimos, mas não falava muito, apenas olhava fixamente para os músicos o que provocava o empedramento de uma estante inteira. Thomas Beecham, o célebre maestro inglês, não gostava de ensaios eloquentes. Quando precisava corrigir alguma coisa, usava de uma ironia tão fina, que dizem, era pior que um soco direto no queixo. "O piccolo é um instrumento marcante na orquestração, exige perícia, grande habilidade e precisão seja no acompanhamento, como no solo, o senhor não acha" - perguntava com os olhos fixos no instrumentista.

John Neschling é um dos mais importantes regentes da atualidade, não só em São Paulo e no Brasil, como em todo o mundo. Além de interprete competente, sua leitura de Respighi é celebrada no mundo todo. É meticuloso, de gestual contido mas eficiente, ele tem uma característica rara, mesmo entre os gigantes: a capacidade de formar as orquestras, de lhes emprestar personalidade. Em pouco menos de 18 meses, o seu trabalho à frente da Orquestra Sinfônica Municipal revelou uma orquestra esplendorosa, capaz de navegar com bravura diante de partituras de Richard Strauss, Benjamin Britten ou Gustav Mahler. Sentir-se completamente à vontade diante de Verdi ou de esbanjar talento numa performance impressionante para a Salomé.

Leopold Stokowsky era assim. Capaz de pegar um conjunto ajambrado em Los Angeles ou em Nova York e transformá-lo em uma orquestra capaz de atender a seus rompantes e suas minúcias. Mas, o exemplo de Neschling é outro. É o caso de Willelm Mengelbert, que pegou a Concertgebown de Amsterdam, uma orquestrinha de segunda ou terceira categoria e transformou-a em pouco tempo numa das maiores de todo o mundo.

Não é um trabalho fácil. Fellini mostra isso. Não é fácil dizer para um músico experiente que a sua postura na estante está interferindo no resultado do seu instrumento. Ou que aquela sequencia melódica que ele toca há mais de uma década está errada; que o andamento exigido é outro.

É preciso exercitar a liderança e saber que ela será o tempo todo confrontada com a competência. Esta situação explica porque gigantes do século XX dificilmente são substituídos. Um novo Lorin Mazel ou outro Cláudio Abbado, não existem. Formar orquestras é mais que isso ;emprestar a própria personalidade para uma partitura requer dedicação e genialidade. É isso, ou então reger orquestras formadas por outros maestros, conquistar os louros, até que uma máquina demolidora destrua a sala de concerto e tudo recomece dos frangalhos do passado. Como Fellini profetizou.

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