OPINIÃO

Ser ambulante, cozinheiro ou faxineiro deveria ser orgulho e não piada sobre 'se nada der certo'

Sem muito exagero, dá para dizer que essa cisão é a base da desigualdade social.

07/06/2017 18:11 -03 | Atualizado 07/06/2017 19:51 -03
REPRODUÇÃO/BOMBORS
Estudantes do IENH fazem festa "Se nada der certo" depreciando profissões.

Por Rodrigo Ratier

Se há um consenso sobre a atividade "Se nada der certo", da Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), é que, de fato, nada deu certo. Para quem não sabe, alunos da escola participaram de um recreio temático se vestindo de lixeiros, balconistas, cozinheiros. A repercussão, como era de se esperar, foi desastrosa.

A atividade foi um equívoco, qualquer que tenha sido sua intenção – "descontração", "integração", "trabalhar o cenário de não aprovação no vestibular", como consta na nota de esclarecimento da própria instituição. Não é o caso de reforçar a recriminação. Depois da reportagem do Huff Post, imagino que os idealizadores e participantes estejam genuinamente arrependidos. Para o IENH, vai ser doloroso fazer com que o recreio seja "tema de discussão e aprendizado em sala de aula", como diz o posicionamento oficial.

Mas é o que tem de ser feito. A autocrítica, aliás, também pode nos servir. Já se falou que o mais espantoso no episódio é a naturalidade com que determinadas profissões foram usadas como sinônimo de fracasso. Interrompa-se por um dia a coleta de lixo, a venda de produtos no varejo ou o preparo de alimentos. Aí, sim, veremos as coisas não darem certo...

Perceba que não estamos nem no terreno da ética, mas da lógica. Equiparar um lixeiro a um fracassado é uma relação, acima de tudo, falsa. Mas reconheçamos: é assim que boa parte da sociedade pensa, percebe, e classifica essa e outras profissões como coisa de "quem deu errado".

Trabalho intelectual versus manual: a base da desigualdade

Consciente ou inconscientemente, talvez nós mesmos façamos isso. Não é aceitável, mas é compreensível. A raiz desse pensamento tão prevalente é a divisão entre trabalho intelectual e manual. Uma divisão que, não custa lembrar, não tem nada de natural. Ao contrário. Surge em um determinado momento da história, a industrialização, e está na base das relações sociais atuais. Diferencia as possibilidades de poder entre "os que pensam" e "os que executam".

Sem muito exagero, dá para dizer que essa cisão é a base da desigualdade social.

Isso é mais verdadeiro quanto mais desigual a sociedade. Nos países em que a diferença salarial é menor, você pode ter vida digna sendo encanador, eletricista, diarista. De cara me lembrei da reportagem sobre uma brasileira na França. Ela dizia viver melhor por lá, trabalhando como balconista, do que por aqui, onde era engenheira.

Aqui é diferente. Nossa visão de mundo expressa essa diferença. Nossa escola também. Nem me refiro ao que ocorreu no IENH. Acho que é um exemplo pontual e – sou otimista – fora da curva. O fato é que o próprio sistema escolar funciona assim. Escolas de pior qualidade para os mais pobres, instituições de ponta aos mais ricos. Um roteiro conhecido. Não espanta que aos primeiros estejam reservadas as ocupações menos nobres, manuais e de baixa renda. Aos segundos, as profissões especializadas e os postos de poder. As exceções confirmam a regra não escrita, tristemente explicitada nas fantasias do recreio temático.

Trabalho de verdade é um só

"Está errado separar o que se chama trabalho manual do que se chama trabalho intelectual", nos ensina Paulo Freire no livro A Importância do Ato de Ler. Os trabalhadores das fábricas e das roças são intelectuais também. Usam suas mãos e a capacidade de pensar, pois o corpo humano é um corpo consciente. Conclui: "Vai chegar um dia em que ninguém trabalhará para estudar nem estudará para trabalhar, porque todos estudarão ao trabalhar".

Pode parecer uma defesa do ensino técnico, mas não é disso que se trata. A defesa é de um ensino integral, que conjugue formação cultural geral com o aprendizado sobre as profissões. Além de integral, precisa ser unitário, diz Freire. Ou seja, para todos. Só assim para evitar a formação de castas e grupos privilegiados.

Estamos a anos-luz dessa concepção de Educação. Freire nos fala de uma transformação profunda. Ela, porém, talvez possa começar com o exercício da empatia. Palavra que de tão usada já virou clichê...

Viver na pele, e não no discurso, a experiência do outro

Falar de empatia ajuda, mas não resolve. Não é coisa que se ensina em aula teórica. Acho que a capacidade de sentir as dores e os desafios dos outros vem sobretudo pelo contato e pela vivência:

A experiência de visitar uma escola bem diferente da sua. Contatos que visem romper as bolhas sociais em que crianças e jovens se inserem costumam ser reveladoras para eles. A conexão centro-periferia operada pelo coletivo A Banca é um bom exemplo;

Acompanhar o cotidiano dos funcionários da escola. Merendeiras, porteiros e bedéis são muitas vezes invisíveis aos olhos dos alunos. Ou maltratados. Colocar a turma para conhecer as funções de apoio ajuda a atribuir-lhes valor;

Viver na pele as atividades essenciais. Obviamente não estamos falando de trabalho infantil. Mas de por a mão na massa – sempre com supervisão e orientação – para entender a importância da limpeza, da cozinha, dos pequenos consertos. E do quanto de pensamento e criatividade essas atividades envolvem.

É o contato humano que mostra o trabalho como a mais humana das ações. Trabalhar é transformar o mundo. Uma escola conectada com seu meio social ajudará a formar gente capaz de questionar e combater a hierarquia de profissões. De entender a importância, a necessidade de valorização (inclusive material) e, por que não, a beleza da profissão de lixeiro. Em vez de fazer piada com ela, que no fundo é uma forma de naturalizar a desigualdade. E de reproduzi-la.

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