OPINIÃO

A Grécia merece tratamento melhor

03/07/2015 14:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02
LOIC VENANCE via Getty Images
A protester holds a Greek flag as she takes part in a rally in support of the people of Greece at the 'Place de la Bastille' in Paris on July 2, 2015, as Greeks prepare to vote in a referendum on bailout conditions on July 5. AFP PHOTO / LOIC VENANCE (Photo credit should read LOIC VENANCE/AFP/Getty Images)

Na noite da segunda-feira, 22 de junho, no mais alto escalão político europeu, uma atitude predominante tecnocrática continuava a pesar sobre a ansiosamente aguardada cúpula de líderes europeus em Bruxelas. Reunidos com urgência, supostamente para ajudar a solucionar a crise de crédito da Grécia, os presentes compartilham a responsabilidade pelo fato de a Grécia continuar equilibrada à beira do abismo - fato que já está causando instabilidade financeira mais ampla, após o fechamento dos bancos gregos por uma semana que se seguiu à imposição repentina de controles de capital.

As discussões interrompidas entre os ministros financeiros do grupo do euro foram retomadas posteriormente. Elas terminaram na quinta-feira, 25 de junho, sem que se tivesse chegado a um acordo, não obstante a insistência da chanceler alemã na necessidade de uma solução de meio-termo antes da abertura dos mercados na segunda-feira, 29 de junho. A premissa era que os gregos sitiados pudessem concordar, talvez em mais ou menos uma semana, com o masoquismo implícito nas medidas draconianas adicionais exigidas pela UE para liberar recursos emergenciais dos quais a Grécia necessita com urgência no momento.

As coisas acabaram se complicando ainda mais no fim de semana diante da iniciativa inesperada do primeiro-ministro grego, que buscou e obteve a aprovação do Parlamento para a realização de um referendo na Grécia no domingo, 5 de julho. Aparentemente sem se incomodar em suspender as responsabilidades executivas constitucionais do governo, e isso em um momento de negociações críticas com seus credores.

De maneira a causar perplexidade, ele em vez disso pediu à população grega como um todo que dê uma resposta à questão técnica altamente complexa das exigências múltiplas e (reconhecidamente) excessivas feitas pelos credores da Grécia para que voltem a prestar assistência financeira emergencial ao país. Algo que representantes especializados de ambas as partes não conseguiram ainda resolver após cinco meses de discussões intermináveis, incluindo recriminações desnecessárias. E, ainda pior, sem qualquer mediação devida em vista por enquanto.

Todos esses procedimentos ignoram os acontecimentos clássicos da história europeia moderna. Como, por exemplo, o pronunciamento de valor eterno feito por Charles de Gaulle após a Segunda Guerra Mundial, endossado pelos líderes políticos europeus da época, incluindo sir Winston Churchill e até Joseph Stalin, quando De Gaulle declarou solenemente diante da Assembleia Nacional francesa: "Saúdo com respeito absoluto a luta monumental da Grécia e suas conquistas heroicas na Segunda Guerra Mundial, que criaram direitos singulares e inalienáveis para o povo grego na Europa".

De fato, a própria sobrevivência da Europa deve muito à Grécia. Também em períodos anteriores houve ocasiões de enorme coragem e sacrifício por parte da população grega. Houve outros momentos determinantes da grandiosa contribuição da Grécia para o desenvolvimento e a defesa da cultura europeia e da civilização ocidental. Nas batalhas das Termópilas e de Maratona, os gregos, mesmo tremendamente superados em número por seus inimigos, repeliram grandes exércitos invasores do Oriente que se preparavam para conquistar o continente inteiro, sujeitando a Europa a seu domínio brutal. É uma mensagem que encerra lições para a Europa até hoje.

Carentes de visão naquela crucial primeira noite em Bruxelas, os líderes europeus simplesmente fantasiaram a dívida soberana grega como sendo da ordem de mais de €320 bilhões, em vez de acordar no momento certo uma redução considerável para refletir os maciços prejuízos econômicos, financeiros e sociais impostos à Grécia há anos pela mal estudada política europeia de austeridade cega, política essa que é falha em seu traçado e sua execução. Prejuízos esses que continuam a enfraquecer a implementação das reformas estruturais sérias necessárias hoje para conduzir a economia grega a um caminho de crescimento sustentável.

E assim, com a ausência contínua da necessária correção da dívida soberana grega, o medo de um default da Grécia continua a crescer. O país já está saindo do programa de socorro, e, portanto, não terá mais acesso à parte remanescente do pacote de €16,3 bilhões. Assim, um default duplo agora é provável.

Primeiro, sobre o pagamento da dívida de €1,6 bilhão devida no momento ao FMI (que vai parar automaticamente de financiar a Grécia), e em seguida de uma prestação de €472 milhões de um empréstimo concedido ao Estado grego pelo Banco da Grécia em 1994. E, sem um novo acordo de socorro, a Grécia tampouco terá como pagar €3,5 bilhões devidos ao Banco Central Europeu em 20 de julho por suas aquisições de títulos do governo grego.

Com suas medidas novas e mais rígidas, com a intransigência sempre dominante no primeiro plano, a UE continua a exigir cortes ainda mais amplos nos gastos públicos, nas pensões e nos salários. Esses cortes, se forem adotados, só poderão afundar a economia grega em uma recessão ainda mais profunda, graças à queda da demanda agregada no sistema, exacerbada por um conjunto de juros ainda mais altos previstos na taxação direta e indireta.

Em suma, a Grécia foi forçada por seus credores a fazer sacrifícios imensos. Sacrifícios que provavelmente vão continuar em nível intensificado. E esses sacrifícios não estão sendo feitos para salvar a Europa (ou seus valores), nem para assegurar sua sobrevivência. Não - os sacrifícios servem para garantir a sobrevivência dos mal concebidos dispositivos da moeda única da zona do euro e para poupar o FMI de constrangimento sério.

Ademais, a Grécia e seus aliados na Segunda Guerra Mundial renunciaram voluntariamente a seus direitos amplamente comprovados de ressarcimento por parte da Alemanha devido aos danos impostos a ela pela Alemanha na guerra - um ato inspirador de "perdão de dívida". Hoje, ao invés disso, espera-se da Grécia que ela, em circunstâncias completamente alteradas, "perdoe" os prejuízos impostos a ela justamente por seus credores oficiais.

Assim, já não é prudente que a União Europeia, uma superpotência atualmente no limbo, em circunstâncias ainda caracterizadas por uma recessão, continue a atormentar o povo grego, em sua estratégica periferia sul, em vez de oferecer a todos nós uma chance real de desencadear a prosperidade tanto na Grécia quanto no restante da Europa. Especialmente no contexto promissor dos esforços intensificados e amplamente reconhecidos feitos pelo governo dos Estados Unidos nos últimos meses para acalmar a hostilidade e os confrontos internos desnecessários na zona do euro.

Nicos E. Devletoglou, professor emérito de Economia na Universidade de Atenas, é autor dos livros Academia in Anarchy: An Economic Diagnosis (Basic Books), em co-autoria com o Nobel de Economia James Buchanan, e Consumer Behaviour: An Experiment in Analytical Economics (Harper and Row).

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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