OPINIÃO

Drag hype queen

29/09/2014 19:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02
Lily Scott/Festa Recalque

É interessante observar algumas mudanças nos conceitos, preconceitos e na formação da opinião com o advento da internet. No caso, me refiro às discussões de gênero e expressões da sexualidade.

Vou explicar: acontece no Brasil um fenômeno chamado Ru Paul's Drag Race, um reality show norte americano, nos moldes de "American Next Top Model" em que as participantes disputam a cada temporada um prêmio em dinheiro, um contrato com uma marca de maquiagens e o título de maior drag Queen dos Estados Unidos. No Brasil, o reality chegou a ser exibido em horário nobre pelo VH1, mas devido à rejeição do público na época e aos baixos índices de audiência, o programa foi sendo aos poucos jogado para as madrugadas até deixar definitivamente a grade do canal.

Graças à pirataria e aos torrents da vida, um público muito fiel continuou a acompanhar o programa e, timidamente, deu início a uma mudança na imagem de travestis e drag queens. E agora, no line up da Netflix, podemos constatar o sucesso do programa. Claro que este não é um mérito apenas do reality em si, afinal, Ru Paul's Drag Race chega paralelamente às discussões sobre a sexualidade no Brasil, mas é nítido perceber como a imagem da drag Queen foi "glamourizada".

Tenho 22 anos e só de noitadas tenho 8. Lembro-me muito bem de quando as baladas de travesti e as próprias travestis eram marginalizadas. As boates eram consideradas inferiores pelo preço, localização e principalmente pelo público formado não só por travestis, mas pelos gays chamados pejorativamente de "bichinhas pão-com-ovo" (gays economicamente desfavorecidos), "poc-poc" (afeminados) e "caminhoneiras" (lésbicas masculinas). Até pouquíssimos anos, era preciso talvez muita coragem para se vestir de mulher, adotar um nome artístico e subir num palco para fazer performances. O preconceito contra essas pessoas estava dentro da própria comunidade gay. Travesti, que só era legal em vídeo de barraco em delegacia, hoje é hype.

RuPaul, Carmen Carrera, Alaska Thunderfuck, Bianca Del Rio e muitas outras drag queens caíram no gosto do público, viraram memes, ganharam fãs, gravam músicas e se apresentam no mundo todo. E o Brasil entrou na rota desses shows. No último sábado (27), em São Paulo, mais uma participante do reality se apresentou com status de diva pop no Brasil. Manila Luzon lotou a festa Recalque, no Cine Jóia, e além da apresentação impecável da artista, o mais legal foi ver barbudos em cima de salto alto, fortões dançando até o chão sem medo de serem felizes e heterossexuais fãs do programa, o que mostra que RuPaul's Drag race não está mais restrito a um só público. Teve gente que despencou de outros estados do Brasil só para ver Manila Luzon.

Exibido nos Estados Unidos através do canal pago "Logo.TV" (direcionado ao público LGBT) o programa registra a cada temporada um crescimento da audiência entre famílias e heterossexuais. O incremento desse novo perfil telespectador levou a "Logo.TV" a "diversificar sua programação e focar no mainstream", de acordo a imprensa americana especializada. Segundo o idealizador RuPaul, o programa tem um papel importante para as famílias dos participantes, pois elas veem através da tela que o trabalho desempenhado por estes artistas é sério e que isso tem ajudado na aceitação dos LGBT dentro de casa. Além disso, segundo ele, outro papel importante é o da reaproximação das famílias dos participantes que se separaram por não aceitarem ou não entenderem sobre a cultura drag queen.

Há poucos dias eu não fazia ideia de quem era Manila Luzon porque não acompanho RuPaul's. Não por falta de interesse, mas por falta de disciplina para acompanhar séries e realities. Agora este fenômeno deixa de ser de nicho e começa a ganhar mais notoriedade: estão previstas novas apresentações de outras participantes por aqui e até uma versão brasileira do programa na internet. Vistos os constantes progressos no que diz respeito aos gays na televisão - e nos debates sobre sexualidade na sociedade- daqui para a consolidação em uma grande emissora será questão de tempo. Deixa só a TV acordar para isso. Se você, como eu, ainda não viu, na Netflix tem tudo. RuPaul's Drag Race veio pra ficar, a audiência está em constante crescimento e certamente você ainda vai ouvir falar muito sobre. E, aos poucos, preconceitos vão sendo quebrados.

Vai ter gay na TV sim, e se reclamar, vai ter drag queen também.

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