OPINIÃO

"A massa, que foi pra rua reivindicar direitos básicos, virou massa de manobra"

22/10/2014 19:04 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
Reprodução/Youtube

Quando as manifestações do ano passado saíram de São Paulo e ganharam as ruas do Brasil, fui duramente criticado por alguns amigos e colegas em razão de um comentário que fiz no Facebook alertando para as possíveis consequências desastrosas que o desabafo de pessoas despolitizadas e pseudopolitizadas poderia causar. Nossa geração tinha - e talvez ainda tenha- uma necessidade de reproduzir algo semelhante ao movimento das "Diretas Já" ou a movimentação que culminou o impeachment de Collor. A diferença é que a geração dos nossos pais viveu as agruras da ditadura militar e o desespero para não passar de fome num período de hiperinflação que, graças a Deus, nós não temos ideia de como foi viver estes períodos. Se analisarmos estes três cenários distintamente, podemos concluir que nossa juventude está, mesmo com todos os problemas, numa situação muito mais confortável. Mas toquei em frente. Apaguei o post por causa comentários mais inflamados e passei a acompanhar o que acontecia no país no papel de observador. Mantive a mesma posição quando fui tomar pedrada e inalar spray de pimenta para cobrir estas manifestações.

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Foto: Reprodução/TV Folha/Youtube

Os movimentos responsáveis por convocar estudantes e cidadãos para as ruas, salvo por alguns grupos resistentes, perderam espaço para a classe média (que vale ressaltar, é recém-emergida) e seus discursos baseados no senso comum. Entre um post indignado no Facebook e uma #SelfiedeProtesto, os jovens se informaram minimamente sobre a situação do Brasil através de um superintensivo nas manchetes do noticiário, e repetiram discursos prontos e frases de efeito instantâneas, porque pensar dá muito trabalho. Cientes dos seus direitos, eles acharam que solução para todos os problemas estava em ir cobrar da presidente da República, entre outros assuntos, melhor qualidade da educação básica e mais eficiência na segurança pública - que a constituição determinou que são assuntos de responsabilidade dos estados. Em Belo Horizonte, por exemplo, ninguém foi bater na porta do Palácio Tiradentes para cobrar atitudes do governador de Minas, Antônio Anastasia (PSDB-MG), cria política de Aécio Neves, mas seguraram cartazes na Praça Sete pedindo a cabeça de Dilma Rousseff. Talvez porque Aécio Neves, este homem visionário, tenha mandado construir a nova sede do estado, numa rodovia a 20 quilômetros do centro da capital.

A mídia, por sua vez, enquanto criminalizava as manifestações, aproveitou para endossar a classe média, e se "isentar" quando se viu obrigada a chamar de vândalos apenas a "meia dúzia" de black blocs, por mais que a vontade fosse de colocar todo mundo no mesmo balaio. E, silenciosamente, começou a rascunhar a abordagem eleitoral deste ano.

A massa, que foi pra rua reivindicar direitos básicos, virou massa de manobra. A ressaca do maior ato cívico e democrático deste milênio, no Brasil, é uma baita crise de representatividade. Ninguém confia mais no Brasil e acredita naquele que tiver o discurso mais eloquente. Os reflexos dessa descrença vimos no primeiro turno, com a eleição recorde de conservadores. E estamos vendo agora na segunda etapa da corrida presidencial em que ambos candidatos se estapeiam no gel para garantir o voto dos "não representados" pela política nacional. Luiz Bacci, aposto, inveja tamanha Bacciaria na TV (obrigado, Stycer, pelo termo).

De repente, o Brasil pareceu pior do ano para o outro. Abrimos uma curva acentuada à direita, passamos a entender economia, PIB, inflação e Petrobrás e a bradar cifras por aí, mesmo que não saibamos quantas casas decimais elas têm. A culpa da corrupção, dos escândalos, de tudo é do PT e o anti-partidarismo atingiu níveis paranoicos. Água pode faltar, mas não pode faltar iogurte nas prateleiras. As ciclovias comunistas atrapalham o trânsito e ameaçam nossas clientes milionárias e o golpe bolivariano pode exilar grandes pensadores contemporâneos. A elite, que é elite mesmo, já fugiu do país com medo do golpe comunista. Classe média acha que é elite. Pobre tá virando classe média. E o pobre, de verdade, se vê chamado de vagabundo sustentado por esmola.

A verdade é que o neoliberalismo econômico e o autoritarismo político acenam como milagres para todos os problemas do Brasil. A nova política não é tão nova assim. Novamente, a culpa é do PT. A redução da desigualdade e o Estado Laico nunca estiveram tão ameaçados. A liberdade sexual e de imprensa também voltaram a ser ameaçadas. Deixamos de olhar para o próximo e aprendemos a só apontar o dedo. A meritocracia é vista com bons olhos por gente que nem sabe o que é isso. Nunca estivemos tão desinformados: com todas as informações a um Google de distância, insistimos em compartilhar factoides e memes políticos. Porque é legal, porque gera likes. Essa sobrevalorização das imagens que tentamos construir diariamente na internet, é representada pelo vazio dos nossos relacionamentos, das nossas ambições, dos nossos desejos e da nossa consciência. Nessas eleições e na nossa vida política, pelo vazio dos nossos discursos e do nosso voto de protesto.

Bônus: a TV Folha, numa liberdade editorial incrível, mais uma vez tirou sarro do sofrimento da classe média. Confesso que é difícil ranquear quais os melhores momentos desta reportagem. Talvez seja essa gigante rebelde, de 18 anos, que "não tem liberdade de expressão" e que certamente nunca ouviu falar do Dops. Ela é o retrato da juventude desinformada e por isso, ilustra este artigo.

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