OPINIÃO

O que achei do filme "O Homem Duplicado"

15/05/2014 11:03 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02

Dirigido por Denis Villeneuve (Os Suspeitos), "O Homem Duplicado" (2014) é baseado na obra homônima de José Saramago, lançada em 2002. Trazendo nomes como Jake Gyllenhaal (Os Suspeitos), Mélanie Laurent (Bastardos Inglórios), Sarah Gadon e ninguém menos que Isabella Rossellini, o filme tem como tema principal a questão da perda de identidade numa sociedade que cultiva a individualidade. A estreia nos cinemas está marcada para o dia 19 de junho, mas você já pode conferir os detalhes do longa.

No filme, Jake Gyllenhaal interpreta Adam Bell, um professor de história que leva uma vida monótona e solitária, apesar de namorar a bela Mary (Mélanie Laurent). Enquanto assiste a um filme, Adam percebe que um dos atores é idêntico a ele. Um pouco assustado e ao mesmo tempo curioso, o professor vai atrás desse "outro ele" e descobre tratar-se de Anthony Claire, um ator de pouco destaque e casado. Depois de se encontrarem e perceberem que são assustadoramente iguais (os dois possuem até a mesma cicatriz na barriga!), os rapazes desenvolvem sentimentos opostos: Adam fica atordoado e Anthony parece sentir-se afrontado com a descoberta. A partir daí, a vida dos dois "Jakes" vira de cabeça para baixo e os questionamentos sobre as identidades de cada um começam.

Assim como os atores, nós, espectadores, ficamos o filme todo caçando respostas. Eu mesma fiquei naquela expectativa de descobrir o que estava acontecendo, prestando atenção nos mínimos detalhes com medo de perder alguma coisa e não entender o final. Mas só depois, refletindo sobre o filme e sobre a obra de Saramago, me veio a resposta: não podemos encarar o longa como um filme de suspense ou algo do tipo, ele tem como objetivo mostrar o impacto que a perda de identidade gera nas pessoas no mundo em que vivemos. Algumas atitudes dos personagens, principalmente de Anthony, nos fazem perceber isso. A relação dele com a esposa parece ser conturbada. Depois que ele recebe uma ligação de Adam, Helen desconfia tratar-se do marido de alguma amante e pergunta: "Você voltou a sair com ela?". A frase dá a entender que o ator já havia traído a esposa uma vez, e a forma como ele responde mostra o quanto sente que sua liberdade está sendo ameaçada estando casado e, ainda por cima, prestes a ter um filho. Uma outra identidade seria a desculpa que ele precisava para fugir dessa realidade.

Essa possibilidade mexe com a cabeça de Anthony, levando o personagem a fazer coisas que não posso dizer o que são, mas que me deixaram com muita raiva. Por outro lado, o professor não consegue ficar em paz com a ideia de ter um sósia seu andando por aí e aceita uma proposta louca do ator, com a promessa de que ele sairia de sua vida para sempre. Assim como em "Ensaio sobre a Cegueira" (2008), inspirado no livro homônimo, o céu sempre nublado e as imagens de concreto para todos os lados transmitem uma sensação de solidão e desamparo, bem como o clichê "sentir-se sozinho na multidão".

Repleto de metáforas visuais (aranhas e tal) que causam certa estranheza na gente, trilha sonora pesada e cenas escuras, o filme de Denis Villeneuve nos deixa confusos do começo ao fim. Mas essa seria a ideia, tanto que o diretor chegou a dizer em uma entrevista que não explicaria o final do filme justamente porque queria que o público tirasse suas próprias conclusões. ;)

Trailer do filme:

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