OPINIÃO

O jeitinho brasileiro e o jeitão de Dilma

Vamos ser um grande país, feito de gente grande, se, e somente se, tratarmos os outros como gostaríamos que fôssemos tratados.

08/04/2017 23:04 -03 | Atualizado 09/04/2017 22:10 -03
Rafael Marchante / Reuters
Ex-presidente, Dilma Rousseff ressaltou o cargo que ocupou para ultrapassar o limite de tempo previsto para sua fala.

Escrevo esse post direto da Brazil Conference, evento realizado por alunos brasileiros das universidades de Harvard e MIT, em Cambridge, nos Estados Unidos, entre 7 e 8 de abril. Entre os debates, um deles foi sobre o "jeitinho brasileiro" entre o renomado professor Michael Sandel e o Ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso. Para mim, um gesto emblemático para alimentar essa discussão foi dado pela ex-presidente da República, Dilma Rousseff, em uma sessão que ocorreu antes da deles.

Dilma seria entrevistada pela Professora Frances Hagopian. Tomou a palavra em um púlpito para considerações iniciais. Ela se mostrava preparada e equilibrada em sua fala. Apresentava sua visão da conjuntura e do imbróglio em que esteve envolvida. Até que um dos organizadores foi avisá-la de que o tempo disponível para sua fala havia estourado.

Dilma bradou que havia sido presidente de um país e que não podiam ter chamado ela para falar o que tem a falar em meia hora. Muito menos em 10 minutos. Falou o quanto quis e deixou a Professora Hagopian a ver navios. Também afetou o tempo dos demais painéis já que o seu se estendeu além do esperado.

O tom de tratamento do jeitinho costuma ser negativo, como se nossa maneira de "se virar" fosse apenas negativa. Eu adoro o nosso jeitinho. Acho que ele representa nossa capacidade brasileira de "se virar", de improvisar, de melhorar as coisas de forma criativa. Mas, em muitos casos, como esse que cito aqui, o jeitinho é um desserviço a essa mesma capacidade de fazer as coisas acontecerem. Quando associado à famosa "carteirada", o jeitinho vira um vício, em que cada um faz o que quer e como quer, sem se importar com o impacto coletivo de suas ações.

Dilma poderia ter se virado no tempo combinado com os organizadores do evento. Ela podia ter transmitido a mesma mensagem num tempo menor do que o dado. Dilma poderia ainda ter usado o aviso recebido em seu próprio favor, mostrando que ali era era mais uma dos presentes.

O jeitão de Dilma serviu para submeter palestrantes, moderadores e participantes ao seu tempo, às suas preferências e à sua visão de mundo. Fez-me refletir sobre como Dilma representou bem o desrespeito ao tempo dos outros. O desrespeito às instituições e àqueles que tem nas mãos a tarefa de fazer um evento grandioso acontecer. Por que todos nós, palestrantes, moderadores e participantes, fizemos nossa parte, mas ela não? Pensava ela estar dialogando com súditos? Considera-se amiga do rei?

Pois a beleza da Brazil Conference é justamente conectar pessoas diferentes e ter Luizas Trajano, Luciano Hucks, Deltans Dallagnol, Wagners Moura, Gilberto Gils e Fernando Haddads conversando como reles mortais entre jovens estudantes e muitos profissionais. Aqui, todo mundo pode ser amigo do rei. E isso não vai lhe conferir vantagens de qualquer natureza.

Que tal migrar para um Brasil em que prevalecem as regras do jogo, até para que a gente possa confiar mais nos outros e com isso baixar os custos associados à desconfiança (tema da palestra com o Prof. Rigobon)?

Vamos ser um grande país, feito de gente grande, se, e somente se, nos desdobramos para respeitar o nosso tempo e o tempo alheio. Se, e somente se, tratarmos os outros como gostaríamos que fôssemos tratado. Se, e somente se, pudermos escutar além de falar. Se, e somente se, considerarmos que ninguém está acima das regras.

Sandel e Barroso fizeram uma discussão de altíssimo nível, cumprindo com o tempo disponível e combinado. Fica a dica, para todos nós, de fazer bem com o que se tem, do jeito que tem que ser.

O vídeo aqui:

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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