OPINIÃO

A ressaca, as eleições e a resiliência do Rio

31/10/2016 13:45 -02
YASUYOSHI CHIBA via Getty Images
Rio de Janeiro's Mayoral candidate Evangelical senator Marcelo Crivella, from Brazilian Republican Party (PRB), is pictured before debating with opponent Marcelo Freixo, from the leftist Socialism and Freedom Party (PSOL), at TV Bandeirantes ahead of the second round of Rio de Janeiro's Mayoral election in Rio, Brazil, on October 7, 2016. / AFP / YASUYOSHI CHIBA (Photo credit should read YASUYOSHI CHIBA/AFP/Getty Images)

Eu sonhava em pegar sol e jogar um vôlei no posto 12 da praia do Leblon. Recém-chegada de uma semana de trabalho na Londres cinzenta, eu não sabia o que havia acontecido no Rio nos últimos dias. Recebi em áudio um recado do meu treinador avisando que a maré estava contra os meus planos.

"A ressaca subiu e acabou com a praia do Leblon inteira. Acabou com a areia, com todas as estacas. Os treinos estão suspensos até segunda ordem. Vamos ficar uns 10 dias sem campo. O alerta da Marinha é que a ressaca vai continuar até amanhã. Vamos aguardar o mar recuar", comentou Rafael, o treinador da minha rede.

Precisei checar com os meus próprios olhos.

Andei até a praia. Vi ondas grandes. Vi pouca faixa de areia. Vi quiosques cercados por faixas da Defesa Civil e até o novíssimo quiosque do bar do Riba detonado. Vi as estacas da nossa rede de vôlei transformadas em tocos de uns 20 centímetros. Vi montes de mais de 2 metros de areia colocados no que antes eram calçadas e funcionários limpando as ruas para a passagem dos carros.

Sem drama. É pura realidade. É a total impossibilidade de usufruir da cidade.

Essa ressaca -- que foi sentida não só no Rio de Janeiro mas também em vários outros pontos do litoral brasileiro -- é uma demonstração do que se pode esperar em tempos de degelo das calotas polares e aumento da temperatura dos oceanos. Em função das emissões de gases de efeito estufa, esses fenômenos têm se acelerado e a força dos mares cresce com eles. Em todos os cantos do planeta, ainda que de maneira desigual.

Tem quem pense que é papo furado esse negócio do mar crescer tanto assim. Afinal, ressaca a gente sempre viu ou ouviu falar.

A diferença agora é que, a cada milímetro de mar elevado em função do aquecimento global e de outros fatores, as ressacas ganham mais potência.

Um estudo encomendado pela Presidência da República em 2013, parte do programa Brasil 2040 e realizado pelo Instituto Tecnológico da Aeronática (ITA), mapeou as zonas em risco alto de ressaca, inundação e deslizamento. Apenas no Rio, o patrimônio imobiliário sob alto risco foi estimado em R$ 124 bilhões. E além de 1500 metros de possível avanço do mar na linha da praia da Zona Sul, também a Linha Vermelha, ainda que longe da orla, poderia alagar com frequência maior devido ao efeito de "barragem" que o mar mais alto exerce sobre os canais que a rodovia cruza.

Não se trata de ficção científica nem de alarmismo inconsequente. Essas projeções alertam para a necessidade de uma visão de longo prazo que considere os impactos da mudança do clima sobre a cidade, sobre seus cartões postais e sobre a nossa vida cotidiana nela.

Em tempos de novo prefeito eleito no Rio de Janeiro, espero que, no mínimo, o novo gestor municipal tome conhecimento desses estudos e os utilize em abordagens de planejamento de curto, médio e longo prazos. Mas mais do que pensar, terá de investir e responder de modo visível e coletivo aos novos riscos impostos à cidade. Ou corremos o risco de não ter mais praia no Leblon e nem em Copacabana. E tampouco transitar nas vias existentes na cidade.

Portanto, caro sr. prefeito Marcelo Crivella, resiliência tem de entrar nas suas ações e investimentos. Hoje. Amanhã. E também depois.

LEIA MAIS:

- Esquerda é a maior derrotada das eleições municipais de 2016

- O que vem adoecendo a economia brasileira nos últimos tempos?

Também no HuffPost Brasil:

Crivella ou Freixo? O segundo turno das Eleições 2016 no Rio