OPINIÃO

Um ritual na frente do espelho

03/07/2014 16:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Conduzo um Blog, um Instagram e uma Fanpage no Facebook, e nelas eu discuto: padrões de beleza, autoaceitação e amor próprio.

Recentemente eu recebi um comentário de uma menina chamada Clarissa (não se fazem necessárias maiores identificações):

"Queria conseguir me ver assim no espelho, feliz. Mas não dá. Sempre fui feia. Sempre ouvi me dizerem que sou feia. Ouvi dizer que não ficavam comigo pq os amigos iam zoar. Que eu era legal, mas tinham vergonha. Doeu e dói até hj. Por mais que digam que sou bonita, não consigo acreditar. Não vejo isso."

Fiquei pensando na dor da Clarissa.

Nem interessa sabermos se ela é "feia" ou "bonita". Além de ser uma questão absolutamente subjetiva, que não tem definição, o fato é uma verdade para ela. Se é uma verdade para ela e faz sofrer, então é verdade suficiente.

Existe até uma doença chamada transtorno dismórfico corporal. Nela, a pessoa se vê com uma aparência monstruosa, horrenda, repugnante. E isso causa muito sofrimento.

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("O Patinho Feio", Estúdios Disney - 1939)

Para não deixar o discurso tão distante da Clarissa, eu vou dar o meu testemunho.

Nunca fui ridicularizada especificamente por causa de minha aparência, mas já me senti um patinho feio. Incompreendida. Deixada de lado. Tratada feito uma aberração.

O problema não é eu ser feia (nunca parei para pensar se isso afeta a minha vida...) o problema... Sou eu.

Eu tenho um comportamento muito excêntrico, mas assim: de verdade. Tenho uma escala de valores não compatível com os valores ocidentais contemporâneos. Coisas supostamente fascinantes não me fascinam e o que eu deveria querer eu não quero. Além de tudo, sou sim, uma pessoa "estranha". É um jeito curioso de ser. Eu sou muito distraída, falo quando não devo e tenho uma risada um tanto peculiar.

Já fui ridicularizada, já fui abandonada, já fui traída, já me "passaram a perna", já me deram apelidos, me imitaram, riram, falaram mal, torceram contra mim. Bastante. Desde pequena. Desde a escola. Até hoje.

Atualmente, eu tenho um Blog para discutir tais questões e recebi um adendo na vida: haters. São pessoas que me escrevem comentários, e-mails e recados escandalosamente maldosos. Me ameaçando, me xingando de mil nomes, dizendo que meu trabalho é um lixo, dizendo que me odeiam.

Pois sim, tem gente que me odeia no espaço real e virtual. Que me conhece e que não me conhece. Que tenta ferir só pelo esporte de ferir.

O que fazer?

Primeira coisa de tudo, eu não vou dizer que "eles têm recalque", nem que "um dia verão minha vitória" nem que "calarei todos os que me difamaram". Isso é besteira. Essas pessoas não se importam comigo, não me respeitam e não vão parar.

Cartola dizia que "o mundo é um moinho". Já eu, acho que é um potente trator gigante com rodas dentadas de aço e ISO 9001.

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("O Velho Moinho", Estúdios Disney - 1937)

Recebi um comentário cruel ontem. Recebi outro hoje. Não foi o último. Muita gente do meu convívio continua me achando uma imbecil. Tem, sim, muita gente que ri de mim e meu caminho continuará sendo um espinheiro.

Amigos? Temos muitos na hora da farra e da festa. Nos momentos críticos, podemos contar com os nossos familiares e os poucos que decidiram permanecer ao nosso lado.

Compreendido isso, eu decidi ser: minha melhor amiga, meu suporte e meu alento. Porque ninguém mais pode fazer isso por mim.

Precisei me afastar de ambientes que não condiziam com meu perfil, pessoas que me machucavam, gente que me menosprezava. Precisei virar as costas para muita coisa e acreditar no que eu estava fazendo. Sim: o famoso "tiro no escuro" ou "salto de fé".

Para me dar suporte, eu tenho um ritual para fazer na frente do espelho. Não tem nada a ver com passar rímel nem medir a altura certa do rosto para passar blush.

Eu me posiciono na frente do espelho, olho dentro dos meus olhos e digo:

- Eu te amo. Eu te amo de verdade. Eu te amo de qualquer jeito.

"De qualquer jeito", eu disse.

É muito fácil me amar quando eu estou demais e não há problemas. Quando eu me sinto bela, tranquila, feliz e livre de problemas. Não é disso que se trata. O que eu faço é mais ou menos assim:

Você está descabelada... e eu te amo mesmo assim.

Você falou quando não devia de novo...e eu te amo mesmo assim.

Você foi muito mal na prova de cálculo... e eu te amo mesmo assim.

Você arrumou mais uma encrenca na internet... e eu te amo mesmo assim.

Que olheiras terríveis...e eu te amo mesmo assim.

Você errou a sequência de dança.... e eu te amo mesmo assim.

Você "descarregou" em quem não merecia... e eu te amo mesmo assim.

Falaram mal de você de novo.... e eu te amo mesmo assim.

Não tá fácil te aturar hoje...e eu te amo mesmo assim.

Menina, você é muito esquisita...e eu te amo mesmo assim.

Perceba, Clarissa, que eu não digo "Você é linda". Eu digo: Eu te amo.

Porque amor próprio não tem relação com ser linda, poderosa, invencível. Tem relação com entender quem é você. Compreender e aceitar essa pessoa. Todo mundo tem altos e baixos, qualidades e defeitos.

Amar-se não tem a menor relação com o quanto você é bonita ou com o que os outros falam de você.

Na falta de gentileza no mundo, escolha ser a sua melhor amiga. Na falta de palavras doces, diga para você mesma as palavras que você precisa ouvir.

Além disso, eu danço. Eu gosto de dançar. Quando eu danço, é o meu momento, que ninguém me tira. Dançar é um conjunto de sensações corporais que para mim são como terapia. Não interessa se eu faço bonito, feio, certo ou errado. Eu não sou perfeita e também não sou a melhor bailarina do mundo... Mas isso já não me importa. E essa é a melhor lição que já aprendi. Nas palavras do meu professor de Jazz, "se joga!"... Era uma coisa que eu não sabia fazer. Faço cada dia um pouco mais. Estou ganhando uma gota de confiança de cada vez. E assim sou feliz (obrigada, Juliano!).

Sempre leio vários comentários no meu Blog dizendo que "nutricionista tem que dar o exemplo". Acontece que exemplo não é um corpinho bonito, milhares de seguidores, fama. O exemplo está na conduta. Pois então. Se eu estou dizendo "não recue"...eu não vou recuar. Se eu estou dizendo "não se renda"...eu não vou me render.

E se eu estou dizendo "ame-se"...Sim, vou me amar.

E eu faço assim: dançando e me incentivando!

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