OPINIÃO

O dia em que a justiça venceu o medo

O ex-presidente Lula foi condenado a 9 anos e meio de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro.

13/07/2017 11:52 -03 | Atualizado 13/07/2017 11:52 -03
Cris Faga/CON via Getty Images
Centenas protestaram na Avenida Paulista, em São Paulo, em comemoração à condenação de Lula por Sérgio Moro.

* Por Rogerio Chequer

Uma quarta-feira ficará guardada na História nacional e, em especial, nos corações de milhões de brasileiros. Quem nasceu e mora no Brasil se acostumou a viver na crença de que a Justiça não era para todos. E que, em nosso país, existiam cidadãos de classe especial cuja impunidade face a quaisquer crimes cometidos era conhecida e até lendária. O jeitinho brasileiro, em escala industrial, gerou prejuízos em muitos aspectos. Em especial à nossa autoestima.

Desde o começo das atividades públicas da Operação Lava Jato, em março de 2014, convivemos diariamente com a angústia da possibilidade de que ela venha a ser desmontada. E a cada dia novas notícias pipocam, confundindo a todos.

Apenas para citar algumas: seria a nova procuradora-geral a favor ou contra a Lava Jato? A troca de um delegado da Polícia Federal será boa ou não para a operação? O dinheiro para os passaportes acabou mesmo ou há uma motivação política para a PF retaliar o governo? Aécio Neves está trabalhando contra a Lava Jato? Estará o ministro Gilmar Mendes a defender abertamente Michel Temer e portanto, a atacar a operação? Porque alguns ministros do STF são contra a prisão após decisão em segunda instância?

Em condições normais de temperatura e pressão, seria adequado assumir que cada uma das instituições brasileiras está cumprindo o seu papel, para o bem do País. Mas ainda temos medo constante de que os cidadãos de "primeira classe" estejam subordinando o Estado e suas instituições a seus desejos e necessidades. Este é um medo que só tem quem é cidadão comum, gente como a gente. Não os privilegiados com o foro também privilegiado.

Muito embora estejamos assistindo ao desmonte sucessivo de grandes esquemas generalizados de corrupção, dentre eles alguns que chegamos a duvidar possam ser tão grandes, a perspectiva de que uma virada de mesa possa interromper esta caminhada é sempre presente – e crível. A descrença e o ceticismo tomaram conta do brasileiro comum, e o medo de que estejamos em um caminho sem volta assola toda uma geração. Afinal, quem teria interesse e coragem para mudar todo o sistema?

Quando as evidências expressivas e inegáveis de crimes cometidos pelo PT - liderados por Lula, José Dirceu e outros tantos - são negadas por grupos que displicentemente afirmam serem falsas essas acusações e difamam abertamente procuradores e juízes, o medo de que algo possa atrapalhar a Justiça fica à espreita.

Mais do que saquear o País, Lula tramou contra a própria democracia, buscando a perenização do seu projeto de poder e a aproximação com Estados claramente ditatoriais, como Venezuela e Irã. E nada é tão eficiente contra a Justiça do que a falta da democracia.

Entretanto, a despeito de ameaças, difamações e pressões, Sérgio Moro e a força-tarefa da Lava Jato seguem fazendo seu trabalho. E, em uma decisão, renova a esperança de todos na existência de um bom caminho para o Brasil.

Nove anos e meio de prisão, foi a condenação de Lula. Nem muito nem pouco, simplesmente o tempo que, simbolicamente, remove décadas de desesperança de gerações de brasileiros. Muitos dos quais não estão hoje aqui presentes para saborear a mudança de rumo que o Brasil atravessa.

Em 2002, Duda Mendonça cunhou uma mentira de proporções descomunais, quando colocou na campanha de Lula o mote "A esperança venceu o medo".

Em 12 de julho de 2017, a Justiça venceu o medo.

*Rogerio Chequer é porta-voz do Movimento Vem pra rua

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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