OPINIÃO

Tem um japonês atrás de mim

16/12/2015 20:20 -02 | Atualizado 29/01/2017 13:39 -02
Montagem/Facebook/Estadão Conteúdo

Ah, Chico Buarque! Nosso bardo dos sambinhas, nosso Dylan da Rouanet!

O que seria do País sem sua poética e seus olhos verdes? Como protestar sem teus acordes dissonantes? Seria por demais injusto. É muita gente pra pouco samba. De que adianta ver a banda passar se ela não canta coisas de amor?

Mas não nos desesperemos. Chico haveria de deixar pistas pelo caminho, artesão das palavras que é. E não demandaria muita pesquisa.

Em Bye Bye Brasil, o gênio da MPB corrige essa triste distorção, brindando a geração 2015 com toda sua verve poética. Na canção, o japonês universal que estava atrás do eu lírico deixou de ser metáfora para ganhar corpo - literalmente - na figura de Newton Ishii, o já hypado "japonês da PF".

É a história se repetindo, primeiro como farsa e depois como tragédia, para os guerrilheiros do pixuleco. Paciência.

Apelar para Chico Buarque é recurso fundamental da militância de esquerda. Serve tanto de signatário ilustre para manifestos governistas quanto a playlist previsível de festinhas de DCE. E não é pra menos...

Nosso partido da boquinha premiou familiares do artista com verbas milionárias via Lei Rouanet, empregou sua irmã no Ministério da Cultura e financiou traduções para o coreano do seu livro "Leite Derramado".

Ainda assim, soaria deselegante afirmar que o poeta dedica tamanha fidelidade ao Partido simplesmente por conta do l'argent.. Nada disso.

Chico realmente acredita no PT. É um tipo de crença quase religiosa, similar àquela compartilhada por Saramago com o regime dos irmãos Castro em Cuba.

Não existem dilemas profanos e metáforas para o petrolão. O mensalão é mero detalhe no processo histórico.

Cabe ao malandro sentar na mesa do café, tomar um gole de cachaça, achar graça, e dar no pé. A conta? Pedala.

Deixa que a gente paga. Somos os eternos pagadores da conta dos caprichos intelectuais de gente como Chico e seus colegas dos anos 60.

E, tal qual as vítimas que Saramago ignorava, devemos permanecer calados e impassíveis diante dos percalços do PT.

Não mais. O japonês de Chico agora nos pertence. A rua agora nos pertence.

Chico e seus milhares malandros cantados em verso e prosa serão apenas metáfora do que temiam ser. Basta olhar para o lado.

Seu amigo Lula já é metáfora do Pixuleco. Décadas de construção de narrativa jogadas no lixo da História por conta de um boneco desengonçado vestido de presidiário. Que tristeza, Chico!

Entendo, portanto, parte de seu desprezo. Não seremos cantados em seus versos, tampouco acalentados por sua música. Deixa estar.

Você não gosta do Kim,

mas sua filha gosta.

* Artigo de Renan Santos, 31, coordenador nacional do MBL

Manifesto de artistas pró-Dilma

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: