OPINIÃO

O racismo e hipocrisia dos progressistas brasileiros

07/03/2016 17:22 -03 | Atualizado 29/01/2017 13:39 -02

Eric Balbinus, estudante de Relações Internacionais e autor do blog O Reacionário, é coordenador do Movimento Brasil Livre - São Paulo.

Na cerimônia do Oscar, o ator Chris Rock fez uma série de colocações sobre a tão falada falta de representatividade na indústria do cinema americano, todas muito pertinentes.

E por mais que a mídia mainstream brasileira tenha distorcido o teor de suas palavras para dizer que ele concordava inteiramente com os artistas que boicotaram o evento, a verdade é que Chris Rock atacou o status quo de Hollywood, que se organiza justamente em torno do Partido Democrata (a esquerda americana).

O que ele fez foi apontar algumas contradições que tornam aquele pedaço dos Estados Unidos que se diz tão progressista em um dos maiores concentradores de hipocrisia per capita. Uma das frases em especial lembra muito a esquerda brasileira.

Quando Chris se refere aos "White liberals" (liberais no sentido americano, ou seja, esquerdistas), ele comenta sobre um encontro que teve com Barack Obama em um evento: "Presidente, sabe esse roteiristas, atores, produtores? Eles não contratam negros. E eles são os brancos mais legais do mundo. São liberais!"

É mesmo curioso notar que a esquerda americana é tão hipócrita quanto a versão brasileira. Me fez lembrar de alguns episódios da minha vida, principalmente depois que ingressei no Movimento Brasil Livre.

Como um dia desses em que eu panfletava com outros voluntários na Avenida Paulista, quando um sujeito que passava na rua nota a natureza da nossa ação e se põe a gritar: "Fascistas, Não vai ter Golpe!" e "Cadê o DNA do FHC?" Como se a argumentação não fosse absurda o suficiente, ele resolveu gritar já de longe: "Pior é ver um negro participando disso. Volta pra Casa Grande!"

Essa retórica de segregação não é novidade. Lembro que em um ato contra as pedaladas fiscais na Avenida Paulista, uma ciclo ativista me chamou de capitão do mato.

Outro senhor, com uma sugestiva camiseta com uma bike dentro de um coração, tentou agredir meu amigo. É assim que eles tentam encher a cidade de amor.

Pior ainda é quando alguém se pergunta como um negro pode ser de Direita. Mas a questão principal aqui é entender a mentalidade racista por trás dessas afirmações.

É inconcebível que em pleno 2016 ainda existam pessoas que entendam que o indivíduo negro tenha qualquer obrigação, que não pode ir onde bem entende, defender o que acha correto, que diferente dos outros cidadãos, ele deve saber qual é o seu lugar.

Se isso é dito por um negro ou por um branco, pouco importa. A afirmação reforça noções de segregação por etnia e classe social.

Quando um branco de classe média alta que cama a si próprio de "progressista" estranha a possibilidade de um indivíduo negro não concordar com ele, fica claro que o sujeito se vê como um indivíduo iluminado pertencente a uma elite intelectual que detêm todo o conhecimento da verdade.

Esse tipo sempre chama o contraditório de "senso comum", ou "opinião que reflete o discurso da grande mídia". Você, negro e periférico, não pode fazer nada por si próprio. Para conhecer a verdade, precisa de beber na fonte dos ideólogos que nunca pisaram em uma favela, que nunca pagaram as próprias contas, que nunca saíram dos limites de seu mundo sofisticado.

Como já ouvi de uma moça tempos atrás, ela poderia escolher entre ser de direita ou esquerda pois estava em uma posição privilegiada. Eu não. Nós, negros, somos como os "metecos" da antiga sociedade ateniense.

Mesmo sendo oficialmente livres, não desfrutamos dos mesmos direitos que os moradores da Polis. Não podemos opinar sobre a política, quanto menos defender posicionamentos ideológicos. Diferente dos sofisticados progressistas, não somos cidadãos.

E qual é o problema dos negros que concordam com essa argumentação rasa?

O problema é que estão afirmando nas entrelinhas que, de fato, o negro não pode fazer o que bem entende, que não pode pensar de acordo com a própria consciência.

Ele é um meio cidadão, que deve ser constrangido no caso de ousar defender posicionamentos liberais ou conservadores.

Certo estava aquele adesivo infame da campanha petista de 2014, com os dizeres; "Negro Consciente vota Dilma presidenta".

Pois é, só mesmo um negro alienado e que não sabe qual é o seu lugar ousa não conceder seu voto para a candidata que se elegeu com dinheiro desviado pelo maior esquema de corrupção de que se tem notícia.

Sim, os nossos "progressistas" se vendem como as melhores pessoas do mundo. Lutam por justiça social, amor e igualdade.

Mas é tudo superficial. Para eles, você não pode ousar discordar sem ser fascista ou pensar de acordo com o senso comum.

Se veem quase da mesma maneira que os brâmanes, enquanto entendem que todo o resto é paria.

Como nasceram em famílias abastadas, estudaram em colégios caros e na grande maioria das vezes não precisam trabalhar, arrogam para si o papel de patrulha do pensamento. Eles é que devem iluminar os caminhos dos inferiores rumo ao conhecimento.

É interessante que esses grupelhos chamem a todos de fascistas. Principalmente quando nos lembramos que os fascistas imaginavam que aquele trogloditismo travestido de ideologia deveria ser padrão humano, e que perseguiam os que discordavam da barbárie de suas ideias.

Hoje também temos grupos promovendo patrulha ideológica, mas hoje eles chamam seus adversários de fascistas.

Querem dizer o que o negro deve pensar porque não nos veem como seres humanos, mas sim como gado. N

ão nos veem como indivíduos, mas sim como uma massa de manobra à disposição de seu cabresto ideológico.

Por isso querem dizer qual é o lugar do negro, que bandeiras ele deve defender e até que tipo de música ele deve ouvir.

Meu amigo Paulo Cruz, filósofo e negro de respeito, cunhou uma frase que enterra qualquer objeção ao posicionamento do ideológico do negro: Lugar do negro é longe da senzala ideológica da esquerda.

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