OPINIÃO

O que eu vi no metrô me levou lágrimas aos olhos

05/02/2016 15:19 -02 | Atualizado 29/01/2017 13:39 -02

Por Renan Santos, 31, empresário e coordenador nacional do MBL.

"Quinta Feira, fim de tarde, linha amarela do metrô. Uma família se acomoda num dos vagões quando o filho menor, aparentando 10 anos, se encanta com uma linda transexual que lia um livro logo à sua frente.

O menino, tomado pela curiosidade, pergunta para o pai se poderia vestir roupas de menina. Achei gracioso. Uma garota ao meu lado também.

O pai, porém, repreende seu filho, dizendo que ele deveria "agir como homem". E que se "voltasse a olhar para esses monstros, iria tomar uma surra". Todos ao redor silenciam. A transexual, constrangida, abaixa a cabeça e levanta-se para descer na próxima estação. Não era ali sua parada, mas sentia-se culpada pelo sofrimento causado ao menino.

Foi quando um senhor, aparentando uns 70 anos de idade, retira os seus sapatos, sua calça e, lentamente, entrega toda sua indumentária a uma adolescente que estava logo ao meu lado. A jovem, por sua vez, sem balbuciar uma palavra sequer, faz o mesmo.

O que vi dali em diante me levou lágrimas aos olhos.

Todos os homens e mulheres do vagão trocaram de roupas e, independente de idade e tipo físico, vestiram-se fora dos padrões de gênero.

Advogado trocava seu terno e gravata pelo vestido rendado de uma professora; uma gorda empoderada vestia o macacão vermelho de um metalúrgico; e eu, ainda que com alguma dificuldade, me enfiava na calça strech branca de uma ciclista ali presente.

O pai, envergonhado, fingia não entender o que estava acontecendo. Mas seu filho, com os olhos brilhando, voltava a sorrir. Éramos todos lindos transexuais compartilhando da mesma alegria, no mesmo vagão.

Ao final, tentei localizar a moça e seu livro em meio a multidão. Mas não consegui. Era impossível identifica-la.

O único que destoava era aquele homem, casmurro, sentado no canto do vagão.

Ao contrário de todos nós, ele se vestia de preconceito."

Fim.

Espera. Fim? Não, não vá embora.

Compartilhe esse texto nas redes sociais e torça para que ele seja postado em algum blog da esquerda paz e amor. Mais: Monte uma página de facebook do Arnaldo Jabor (ou Pedro Bial, se preferir) e atribua o texto a ele. Sempre funciona.

O importante é causar frisson por dois ou três dias e fazer-nos esquecer da miséria de uma esquerda que já não consegue entregar nada de novo (e viável) no debate político do país. E é por aí que as coisas vão.

Estudei na faculdade de direito da USP, a gloriosa San Fran, nos idos de 2003 a 2007. A esquerda que enfrentava ali era outra. Haviam absurdos? Sim, haviam. Mas o debate político era mais qualificado. Bons tempos de uma esquerda que debatia questões materiais, modelos de representação política e direitos humanos com embasamento teórico na tradição marxista.

A ausência de respostas para a crise sistêmica do welfare state europeu - bem como os "desvios de rota" da "excessivamente democrática" Venezuela - deixaram a esquerda numa irreversível rota de colisão com a realidade. Meu colega Ricardo Almeida já abordou isso em um artigo pregresso. Restou a ela, como tábua de salvação, universalizar as microfissuras nas relações de poder existentes em qualquer sociedade humana.

Assim, o debate à esquerda restringe-se a uma histeria politicamente correta sem qualquer freio. Contrariando Guy Debord - ídolo da turminha de 68 - alimentam-se dos aspectos mais imbecilizantes da "sociedade do espetáculo" para regurgitar de volta factoides políticos da mesma estatura intelectual de um editorial de revistas de fofoca.

É nessa mediocridade que prosperam os Jeans Wyllys, os "blogueiros power-rangers" e as fanfics de esquerda.

Num país envolto na maior crise econômica desde a década de 30; na maior crise política desde a redemocratização; e no maior escândalo de corrupção da sua história, pequenas frivolidades de internet travestidas de "combate ao preconceito" são o retrato claro de que precisamos de novas alternativas ao funesto mainstream político de nossas redações de jornal e cadeiras de parlamento.

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