OPINIÃO

O pior inimigo do PT

27/12/2015 11:56 -02 | Atualizado 29/01/2017 13:39 -02
Daniel Teixeira/Estadão Conteúdo

*Artigo escrito por Ricardo Almeida, 27, professor e coordenador estadual do MBL-Bahia

Hollywood sempre teve uma queda por filmes de conspiração. Típico de tais películas é que, por trás de um inimigo óbvio, esteja escondido outro adversário mais sorrateiro. Revela-se, assim, a certa altura da narrativa, o inimigo maior, em ato de calculada surpresa.

Esquerdistas brasileiros não gostam de Hollywood, mas também acalentam conspirologias. Uma das teorias especialmente populares nos últimos meses envolve a análise econômica dos grupos pró-impeachment. Creem-nos financiados por potestades tremendas: a CIA, os irmãos Koch, George Soros, talvez os reptilianos. Não lhes ocorre que os principais financiadores dos movimentos possam sair dos diminutos 93% da população que não aprovam o governo. Ou dos 70% que clamam pelo impeachment. Não, é preciso um plot mais sinistro. Faz sentido pensar que tanta gente possa dar um pouco de dinheiro para uma causa que tantos apoiam?

Porém, se o inimigo oculto do PT indubitavelmente não são potestades capitalistas, não é verdade que ele não haja encontrado a sua nêmesis. Quem é ela? Qual o grande inimigo que se opõe tenazmente aos sonhos da nomenklatura vermelha?

A realidade.

Sim, o adversário do PT é a realidade, senhora vetusta como o mundo que teima em frustrar os planos dos socialistas há mais de um século.

A realidade econômica, por exemplo, já lhe desferiu bons golpes. Com a funesta nomeação de Nelson Barbosa, chancelada em discurso estatólatra do líder do governo, o PT continuará apanhando. O cenário de fortalecimento do dólar em relação ao ouro, deterioração do câmbio e retração firme do PIB parece bastante sólido. Já as soluções especuladas para os problemas, presumivelmente, vão aprofundar o dirigismo estatal, bem como manterão os mesmos vícios da Nova Matriz Econômica. "Nada de novo sob sol", diz o Eclesiastes; o PT parece seguir o adágio bíblico. Prova disso é que, após encontro com investidores, o novo Ministro da Fazenda, em seu primeiro ato relevante à frente da pasta, conseguiu promissor resultado: gerou insatisfação com seu discurso e fez o dólar bater além de R$4,00. Tudo conspiração da realidade econômica, essa malvada.

Na esfera política, a situação parece estar melhor. O golpe jurídico do STF, que derrubou a eleição vitoriosa, anunciaria bons augúrios para o futuro do governo. Mas, será mesmo?

A manobra dos ministros da suprema corte forneceu poder extraordinário a Renan Calheiros. Na qualidade de presidente do Senado, tem ele fatia considerável dos votos da casa. Uma posição antigovernista que tomasse implicaria, de modo quase inevitável, o prosseguimento do impeachment por maioria simples naquela casa, sua votação na Câmara (possível vitória por 2/3 dos votos), com a consequente retorno para o Senado fortalecido. Por isso, o partido dos trabalhadores precisa evitar o processo que pode vir a desencadear estas consequências.

No cenário pós-STF, temos um único nó, Renan Calheiros, cuja situação política, caso se deteriore, deverá desenlaçá-lo. Com efeito, cumprida a hipótese, ele abandonaria o governo, já que o enxerga como seguro, motivo pelo qual o garante.

Como não há indícios de que o PT exerça controle superior sobre a operação Lava-Jato e, como decididamente a pressão popular lhe é contrária, mostra-se frágil a posição do senador. A despeito das aparências triunfalistas após a decisão do Supremo (com direito à Deputada Jandira Feghali postando gif de dancinha do Yoda no Facebook), a situação do governo não ficou mais confortável.

Ela continua muito desconfortável, embora não imediatamente irreversível. Foi como um descanso no campo minado. Ninguém sensato tentaria sobreviver a uma disputa política dependendo completamente de Renan Calheiros. Você colocaria sua vida nas mãos dele? Pois é, se a resposta é "não" (o que eu espero, a não ser que você seja um suicida), podemos imaginar o desespero do PT ao colocar nas ágeis mãos do alagoano a salvaguarda da presidência. A realidade política lança um olhar incômodo.

A chave da dificuldade do PT encontra-se numa expressão - alienação da realidade. O PT busca controlar a economia e a política, dentre outros meios, mediante o domínio dos movimentos populares e da circulação de ideias. De modo geral, a esquerda despendeu grande esforço em obter a hegemonia no Brasil. Assim, foi para muitos rematada surpresa a velocidade com que se rompeu um monopólio de décadas nas ruas. Mas, a surpresa maior reside em que, apesar dos eventuais percalços e de certa dose de estóico sacrifício exigida, esse processo foi relativamente fácil. A ambiguidade estrutural do petismo, com o consequente desagrado para a militância, ajudou a aceleração do que vinha em curso. Curso natural dos acontecimentos, vale dizer, cujo caráter radica em um estrato muito profundo da subjetividade humana e de sua relação com o processo histórico, que evolve classicamente durante projetos de dominação excessiva.

Anne Applebaum, em seu notável estudo sobre o sistema prisional soviético, Gulag, mostrou um dado curioso. Ela mostrou que eram mascaradas as estatísticas, assim como escondido o altíssimo coeficiente de corrupção. As informações abrangiam desde o que fora produzido em cada unidade do Gulag, o que fora consumido, a quantidade de trabalho administrada, de prisioneiros etc. Fica claro, através do confronto entre depoimentos e registros oficiais, que as autoridades centrais soviéticas, embora parecessem possuir um detalhado conhecimento de como funcionava o sistema, desconheciam a íntima realidade do Gulag. Havia, pois, um paradoxo constitutivo, que resumiríamos em uma fórmula: quanto maior é o controle, menor é o controle.

Evidentemente, essa sentença não sugere linearidade nem anuncia que seja impossível a um governo atormentar suas populações ou reduzi-las ao servilismo. Não obstante, ao avançar sobre as liberdades políticas, civis e econômicas, o projeto de dominação exige cada vez mais controle, o qual, por sua vez, abre cada vez mais fissuras; por efeito reverso, essa fraqueza convida sua negação dialética.

O PT não é um partido totalitário, nem o Brasil, uma URSS dos trópicos. Porém, ao ajudar a montar o teatro bolivariano do socialismo latino - mais avançado na Venezuela desde Chávez, cuja presidência rendeu-lhe elogios de Istvan Meszaros - o Brasil fatalmente emulou traços totalitários. E é daí onde surgem, paradoxalmente, as mais fundas raízes da dificuldade de lidar, primeiro, com a realidade econômica e, segundo, com a política e a intelectual (muito mais permeáveis à sanha petista e, todavia, ainda assim, imprevisíveis o suficiente). Elas se movem à revelia dos seus planos ideais, o que torna inútil tentar silenciar as vozes de uma oposição ideológica que conhece o significado da palavra liberdade.

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