OPINIÃO

Não foi só por doze meses!

18/02/2016 20:07 -02 | Atualizado 29/01/2017 13:39 -02
ASSOCIATED PRESS
Demonstrators with posters written in Portuguese "Out Dilma and Impeachment" take part in protest for the impeachment of Brazil’s President Dilma Rousseff, in the center of Brasilia, Brazil, Sunday, Dec. 13, 2015. Dozens of cities are staging protests across Brazil asking Congress to impeach President Dilma Rousseff. Hundreds have gathered Sunday in cities such as Brasilia, Rio de Janeiro and Sao Paulo wearing Brazil's national soccer jersey. They are holding banners that criticize the president and her Workers' Party for a massive corruption scandal at the state-run oil company. (AP Photo/Eraldo Peres)

*por Rafael Lima, empreendedor e membro do Movimento Brasil Livre

Primavera Árabe, Guerra na Síria e Revolução na Ucrânia. Frente a esses severos conflitos que vêm estremecendo o mundo há cinco anos, o fato de o Brasil ter ido às ruas em 2015 poderia parecer irrelevante.

Poderia, mas não foi. As manifestações pró-impeachment de março, abril e agosto foram as maiores da história de nosso país e, no ano, foram as maiores do mundo.

Outra curiosidade é que os nossos protestos em verde-e-amarelo guardam uma importante semelhança com os movimentos na Tunísia, Líbia, Egito, Síria e Ucrânia: foram amplificados pela classe média jovem, articulados pela internet e contrários a governos centralizadores e corruptos.

Infelizmente, a paz e tranquilidade nas manifestações não estão entre as semelhanças. O desenrolar destas outras manifestações resultou em guerra civil, inflada por motivações étnico-religiosas.

Neste início do século XXI, o poder está ficando cada vez mais fácil de se confrontar e mais difícil de se consolidar - esse é o recado do venezuelano Moisés Naím, no seu livro O Fim do Poder.

Naim descreveu assim o que ele chama de "micropoderes":

"Insurgentes, novos partidos políticos com propostas alternativas, jovens empresas inovadoras, hackers, ativistas sociais, novas mídias, massas sem líderes ou organização aparente que, de repente, tomam praças para protestar contra seu governo. Carismáticos que parecem ter 'surgido do nada' e conseguem entusiasmar milhões de seguidores são alguns dos exemplos dos muitos novos atores que estão fazendo tremer a velha ordem."

O autor, que foi editor-chefe da conceituada revista Foreign Policy, relaciona o surgimento destes "micropoderes" a uma série de "revoluções" que vêm se desenrolando no planeta: A Revolução do Mais, A Revolução da Mobilidade e a Revolução da Mentalidade.

A primeira, a Revolução do Mais, ocorreu nos planos demográfico e econômico. "A produção econômica mundial aumentou cinco vezes desde 1950. A renda per capita é três vezes e meia superior a de então. Mais importante de tudo, há mais pessoas: 2 bilhões a mais do que havia há apenas duas décadas atrás."

Com mais nações participando do sistema de trocas voluntárias - vulgo mercado mundial -, os últimos trinta anos têm sido de maior prosperidade e acesso do que nas décadas anteriores.

Dados históricos comprovam, basta visitar o site Gapminder. E no Brasil não foi diferente. Pelo mesmo período, acompanhamos todo o processo econômico para a formação de uma nova classe média - também chamada de "Classe C". Impaciente, conectada e que hoje sente no bolso os efeitos do atual (des)governo. Criou-se assim um motor para transformações políticas.

Um motor que acelerou na estrada da "Revolução da Mobilidade" - onde pessoas, mercadorias e informação se deslocam rapidamente pelo mundo inteiro, a um custo cada dia mais baixo - graças ao desenvolvimento tecnológico e aos ganhos de escala.

Por aqui, vimos aeroportos lotados por brasileiros de diversos níveis de renda que viajaram aos quatro cantos. Eles trouxeram para dentro de casa as impressões dos lugares visitados, e se questionaram "Por que o meu Brasil é assim?". Nesse novo cenário, a gente ouviu aquelas histórias do filho que foi pro exterior a trabalho, que fez mais dinheiro e mandou remessas para a família. Ou da filha, que viajou a estudos, e contou via Skype para pai e mãe "Aqui nesse país tudo funciona!"

Skype, Facebook, Twitter, Instagram: o recheio dos gadgets de todo mundo. A manchete da BBC comprova que "com empurrão da classe média, os smartphones dominam mais de 90% do mercado de celulares no Brasil".

Agora, há sempre um celular para gravar (e editar) o deslize do político, a ação da polícia e a conduta do professor. Em segundos o upload é feito para a rede social. Em minutos ele é compartilhado para centenas de milhares de cidadãos - cada um com uma opinião engatilhada.

Dados os efeitos da Revolução do Mais e da Revolução da Mobilidade, àqueles que estão no Poder resta o dilema:

Como exercer uma coerção eficaz quando o uso da força passa a ter um custo político alto?

Como reafirmar a autoridade quando a vida das pessoas é mais plena e elas têm voz?

Buscando uma solução, os governantes aprenderam rápido que o poder é exercido por 4 canais:

Da força: pela coerção e uso de armas, exército, polícia;

Da recompensa: onde se oferece uma vantagem em troca de um favor;

Da mensagem: pelas estripulias da linguagem e da propaganda;

Do código: porque a moral manda, ou a tradição, religião e cultura.

A "Revolução da Mentalidade", à qual Moises Naim se refere, abrange as profundas mudanças de valores, padrões e normas pelo mundo. Apoiados na Revolução do Mais e na Revolução da Mobilidade, os jovens deram vazão à ânsia por questionar a autoridade, a tradição e a desafiar o poder. Isso vem trazendo consequências importantes no que tange liberdades civis em países islâmicos, por exemplo. Como a luta por educação para as mulheres - cujo símbolo é a jovem ganhadora do Nobel da Paz, Malala Yousafzai.

No Ocidente, porém, a história tem sido outra. Aqui, se a planície sabe usar o Twitter, o Planalto também sabe. E esse nosso governo, desde quando chegou ao poder já entendia que a tarefa de governar, organizar, mobilizar, influenciar, persuadir, disciplinar ou reprimir um grande número de pessoas com um padrão de vida melhor requer outros métodos. Cientes de que um povo sem cultura sólida torna-se vulnerável a modismos intelectuais e confunde opiniões com fatos, planejaram o seguinte para se manter no comando:

Não usar a força, pois o custo político é oneroso;

Investir nas recompensas, porque pão e mortadela é barato;

Capilarizar a mensagem, com propaganda em todos os meios de comunicação possíveis;

Destruir os códigos, pois a tradição republicana é a maior ameaça a quem busca a hegemonia.

Percebendo isso e cansados de uma elite política que corrói instituições e se põe acima da lei, nós brasileiros não fomos às ruas para revolucionar - pois de ideais revolucionários a América Latina já está cheia. A mensagem deste 2015 foi a de Preservação: da nossa Constituição e da ideia de República - que foi construída a duras penas.

Fomos para alertar que avanços tecnológicos, informação desenfreada e dinheiro não são capazes de criar novos Hobbes, Lockes, Rousseaus, Voltaires ou Kants; e que portanto, as sociedades contemporâneas que vêm tomando decisões políticas irresponsáveis acabam encontrando mais empobrecimento, anarquia e violência.

2015 vai ficar na história como o ano em que uma gurizada brilhante mostrou aos poderosos que o pulso ainda pulsa e organizou gigantescas manifestações, causando um rebuliço na política brasileira.

Numa década em que o mundo tem visto jovens conectados destruindo governos, os mesmos vão provar que também são capazes de construi-los.

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