OPINIÃO

Vai Pra Cuba - checked

04/08/2015 17:54 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
The Washington Post via Getty Images
HAVANA, - JANUARY 21: The beautiful Capitol building in Havana Cuba is undergoing a major renovation. More than 300 workers are laboring to have parts of the building open very soon. It is pictured during sunset on January 23, 2015. (Photo by Sarah L. Voisin/The Washington Post via Getty Images)

Frase das mais repetidas nos últimos tempos foi "vai pra Cuba!", pra toda e qualquer pessoa que passasse perto de uma manifestação coxinha. Pouco importa se a pessoa a qual os gritos se referiam fosse ou não de esquerda - bastava estar com uma camiseta vermelha ou um batom fashion. Aconselhado pelos gritos espumosos e antes da invasão ianque que se aproxima, arrisquei-me a dar um pulo na ilha.

Em 12 dias fazendo turismo e convivendo com os cubanos, o que mais pude pensar foi no quão agradecido eu estava por atender à gritaria da coxinholândia. A primeira coisa que me incorreu foi a aula de história do professor Francisco, na sétima série, lá em Alfenas (MG): o mundo, ali, era dividido em três. O primeiro era formado pelas nações industrializadas e que conseguiram resolver as desigualdades sociais. O segundo, pelas nações socialistas, que resolveram as desigualdades, mas cuja industrialização estava freada sob o controle estatal (a chamada economia planificada). E o terceiro, nós, nações em processo de industrialização e ainda com fortes desigualdades.

Desta feita, amiguinhos, resta-me a dúvida: será que essa galera acredita mesmo que mandar alguém ir pra Cuba seria alguma espécie de "castigo"? Bom, essa divisão regional já está ultrapassada, era válida nos tempos de Guerra Fria, mas de certa forma ainda reflete o nosso caso, a nossa adoração à brasileira aos Estados Unidos e a nossa prepotência pouco calcada na história ao referir-se a outrem sem que se busque informações além do senso comum.

Cuba é um país maravilhoso, de praias incríveis, povo alegre e musical, boa comida e paz. Sim, paz. No que se refere à criminalidade, à sensação de segurança, saiba: é tranquilaço andar por las calles a qualquer hora do dia ou da night. Inclusive com uma câmera top no pescoço. Inclusive com iPhone à mostra. Paz também que se refere à situação política do país, que não vive uma crise política. Há uma demanda clara por acesso à tecnologia e aos bens de consumo que eles conhecem de todo o mundo que os visita, mas não há uma enorme pressão pelo fim do regime.

Aí você questiona: ah, mas isso não é por causa do controle do Estado? Te respondo que toda unanimidade é burra e, claro, há por certo um catatau de gente querendo mais é a entrada desenfreada dos Iphones e a queda de Fidel e companhia. Há milhares de cubanos que fugiram da ilha de bote e aportaram nos Estados Unidos, ganhando a cidadania automática. Há, óbvio. Mas não, queridinho, crise política não há. A Revolução Cubana teve enorme apoio popular e já dura pelo menos três gerações nascidas sob o regime. De povo tomando o poder eles entendem mais do que nós, relaxa.

"Ah, mas falta liberdade em Cuba". Provavelmente falta mais que aqui. Mas eu vi, com estes olhos que a terra há de comer, uma manifestação das mães de branco na Quinta Avenida - é, tem Quinta Avenida em Havana. Contra o regime. Sem que qualquer viatura policial as acompanhasse. Sem a presença de um policial sequer. E te pergunto, em resposta: "na nossa ditadura de direita, brasileira, isso seria possível?".

Há um pensamento conspiracionista incrível na nossa terra brasilis que dá conta que estamos a caminho de uma revolução comunista, e então nos tornaremos uma nova Cuba. Nem nos meus melhores sonhos eu conseguiria visualizar algo semelhante... Em Cuba a educação é obrigatória dos primeiros anos da escola ao ensino superior. No Malecón, o calçadão que acompanha a orla de Havana, havia um espaço semelhante a um clube. Perguntei ao cubano o que seria aquilo. "Um centro de lazer para os estudantes adolescentes, já que estão de férias". Sim, é garantido o lazer também. Lazer por lazer, pra que o jovem não pense em pichar um muro ou gastar o precioso tempo da adolescência com o ócio da desesperança, como ocorre com nossos jovens. Não vejo o Estado se preparando para sermos assim por aqui... Quem dera.

Eu nem preciso falar da saúde por lá, preciso?

A todos os cubanos com quem pude conversar, perguntava (quase que preenchendo um formulário mental) se estava feliz com a reaproximação dos Estados Unidos. Todos disseram que sim. Todos disseram estar ansiosos por acesso à tecnologia e quererem melhorias salariais. A ressalva mais enfática veio do último taxista, aquele que nos levou do hotel para o aeroporto: "se pensam que farão daqui o quintal deles, estão enganados. Serão muito bem recebidos, mas não deixaremos de ser cubanos".

Você, a essa altura, pode estar pensando que meu olhar de turista foi incapaz de detectar as falhas do sistema, os efeitos colaterais, as necessidades que aquele povo passa... Respondo que sim, os vi. A população, em geral, é pobre. Duas pessoas pediram-nos coisas como pasta de dente, shampoo, roupas... Acontece que, em nenhum dos casos, são itens que efetivamente faltem pra eles. São vontades de ter algo diferente do trivial. Coisa que só não acontece por lá por causa do embargo, que está prestes a acabar. Entretanto, o mínimo da dignidade e o arroz com feijão não faltam à mesa.

Sim, arroz com feijão. Arroz congri, pra ser mais exato: o prato típico dos cubanos é como um baião de dois, com a diferença de que o arroz é cozido no caldo do feijão. Mas não é só nisso que nos assemelhamos. Somos, nós e eles, os povos mais parecidos da América Latina. Os primeiros habitantes de lá seriam aborígenes indígenas da nossa Amazônia que migraram para o Caribe e ali se instalaram. E nosso processo miscigenatório foi muito parecido. Nossa musicalidade e alegria, nossas frutas e nossas bebidas (compare como se faz um mojito e uma caipirinha) são outros traços de semelhança.

A diferença é que, em nosso retorno ao Brasil, azuis de fome, fomos a um café na Avenida Paulista. Um homem na porta, sujo e em farrapos, esperava pela caridade de alguém pra ter algo pra comer e beber. Demos a ele um café e um pão de queijo. Ao retornar à mesa, minha esposa reflete alto: "o pior é me sentir mal por comer bem aqui. Lá eu comia bem e não sentia nada disso". É... Foi na mesma Paulista que uma das "ofensas" do "Vai Pra Cuba" ficaram mais conhecidas na internet. Foi no vão do Masp, contra o André Noblat. Eu não tenho dúvida de que aquele moço em condições tão indignas à espera de uma bebida quente e algo pra comer preferia estar em Cuba e não naquela avenida...

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