OPINIÃO

O recomeço do Último Cine Drive-In: A delicadeza da Brasília genuína

25/08/2015 17:26 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Montagem/Divulgação

Este texto é, na verdade, um convite a quem ainda não conhece Brasília. Venham, por favor. É, também, uma carta de agradecimento a Iberê Carvalho, um dos novos e bons cineastas desta cidade.

Mas terei de incorrer a outro bom cineasta made in Brasília: José Eduardo Belmonte. Na introdução do filme Mobília em Casa, Belmonte traz as imagens de uma triste enquete sobre a capital, feita em outras capitais.

A pergunta a cariocas, paulistanos e outros tantos é: "você moraria em Brasília?". Todos responderam negativamente, resumindo a cidade a frieza da falta de esquinas e a corrupção.

Desconhecem o skyline maravilhoso e disponível 24 horas por dia, traçado pelo arquiteto para consumir 80 por cento de nosso campo de visão, deixando os outros 20 inferiores à urbanidade.

Desconhecem a gente que faz festa no apê por hábito, desconhecem o Beirute e desconhecem o Paranoá. Não têm culpa, no entanto: a mostra de Brasília presente nos jornais e tevê é injusta com tudo isso, resumindo-a a outra cidade, chamada Esplanada dos Ministérios - onde se vive mais ou menos como na Disneylândia.

Até que Iberê Carvalho fizesse um filme sobre, talvez parcela significativa dos habitantes da cidade e a grande maioria dos brasileiros não saberiam que, encravado num pedacinho do Autódromo de Brasília, habita o último cine drive-in do país.

Com uma tela gigante (mais de 300 metros quadrados) e dispondo aquele skyline de cenário. Com 500 vagas disponíveis para carros de até cinco pessoas. Talvez a maior sala de cinema do país em capacidade de público (não sei). É sério: você não tem noção da vibe que é assistir a um filme ali, podendo beber cerveja, fumar um cigarro, relaxar com seu(ua) parceiro(a) - se é que você me entende...

Acontece que, vira e mexe, tentam fechar esse lugar. Os motivos são diversos; o último foi a tentativa do governo de reformar o autódromo. Há também bur(r)ocracia aos montes: aquele documento que falta à família que administra o local desde sempre.

Ou aquela pressão do "se não rodar filme, vamos fechar", ainda que sem nenhum carro no pátio, nos tempos mais difíceis.

A mobilização em torno da gravação do filme, no entanto, levou o público de volta ao local, e ainda redespertou o interesse de muitos em cultivar um pedaço de Brasília que cultiva sua identidade.

No filme, pai e filho (este sem nome de santo, e sim de Marlombrando) se mobilizam para a última sessão do Cine Drive-In. Othon Bastos e Breno Nina dão vida a eles. Se eu falar mais, perde a graça, tamanha a delicadeza do Iberê ao contar essa história.

A noite da última quarta-feira (19) foi a da realização de um sonho retratado na telona. Com a pré-estreia marcada às 20h, quem chegou depois de 19h20 não conseguiu uma vaga. Meu caso e dos dois amigos com quem fui, cariocas de opinião diversa às do início deste texto.

Após quase uma hora de fila, o portão se fechou na nossa vez: lotação esgotada, "mas pode entrar a pé e ver o filme". Ufa. E, como nós, muitos outros.

Há toda uma graça particular em ver no Cine Drive-In um filme ambientado no Cine Drive-In. É ver um filme de dentro de seu cenário. É se emocionar com uma ficção tão documental. É se entreter com o plus de uma estrela cadente aparecer no alto da tela, como que a compor a obra. É, sobretudo, reavivar os ânimos daquele espaço.

Portanto, obrigado Iberê. Não tenho dúvida de que quem experimenta aquela sensação de estar num lugar tão particular vai voltar. E obrigado por fazer, na tela grande, justiça a esta cidade injustiçada na tela pequena.

Sobre a parte do convite a quem ainda não conhece Brasília: antes, veja O Último Cine Drive-In. Você vai ter vontade de conhecê-lo. Pra isso, tem que vir aqui.

Aí, os anexos dele são incríveis: toda sexta à noite anda rolando música ao ar livre na Praça do Cruzeiro (pertinho). De dia, tem a praça de alimentação da Torre de TV (pertinho), onde você pode subir no mezanino e tomar um café e, mais um pouco, ver a cidade toda do alto.

De lá, vai concluir que a capital do seu País é bem mais interessante, amigável e bela do que já tenha ouvido falar.

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