OPINIÃO

Masterchef Júnior: Vamos interromper o bullying?

21/10/2015 18:17 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Divulgação/Band

Você tem 11 anos? Não, né? Se tiver, por favor deixe pra ler esse texto, pelo menos, daqui a uns quatro. É com os adultos que quero conversar agora.

Há quem se horrorize com um reality show que tem crianças como participantes. Confesso que, sabendo que seriam os mesmos jurados da versão adulta, fiquei meio tenso com o anúncio de que haveria um MasterChef Brasil Júnior, porque uma grosseria de Paola, Jacquin e Fogaça com os pequenos seriam suficientes pra eu querer mover um abaixo-assinado pedindo pra tirar o programa do ar.

Mas já na coletiva de estreia, a direção anunciava que eles iriam pegar leve, e pegaram. Estão numa versão "fofa", como são os realitys gêmeos de fora do país. Na versão adulta, foi o grande fenômeno televisivo do país, acompanhado por mim com fanatismo e a segunda tela no Twitter, a comentar cada segundo. Amo. E a estreia do programa com crianças, ontem, correspondeu à expectativa de momentos impagáveis, ternura, lições de generosidade e foi muito bom.

Ocorre que expor crianças tem seu preço, e quem paga não são a emissora de televisão, nem eu, nem você.

Logo que um dos pequenos participantes deu seus primeiros depoimentos, uma série de comentários jocosos tomaram conta das redes sociais. Não vou citar o nome da criança, pra não ampliar ainda mais a descabida ofensa coletiva. "É de humanas", "criança viada", "aloka", memes com o rosto e um gesto dela já apregoando a quem provavelmente ainda nem iniciou sua vida sexual e já ganha rótulo sexualizado. Ainda que já tenha iniciado, isso não vem ao caso pra ninguém. Teve celebridade de internet assumidamente gay que o "adotou", dizendo que tratava-se de ser seu filho. Não, cara: isso não é carinhoso. É ofensivo. Simplesmente por ele ser uma criança, por não ter ainda nenhuma conectividade com o mundo a partir de sua orientação sexual, e principalmente, por não ser obrigado a ganhar um rótulo tão jovem.

Quem escreve na internet, em geral, se esquece que tem gente do outro lado, lendo. Crianças, hoje, usam as redes sociais. Se não a criança a que me refiro aqui e todas as crianças de 11 anos do Brasil, nas redes estão os primos de 14 anos. Os colegas de escola de 14 anos. Os amigos dos pais, adultos. Assim começa e se alimenta o ciclo do bullying. Estranho é ver quem combata a homofobia e que tenha história parecida na infância servindo para alimentar este ciclo, por ter se tornado famosinho de internet. A diferença é que o bullying que essa pessoa tenha porventura sofrido provavelmente ocorreu em sua escola e bairro... Agora, a conjunção de televisão + redes sociais redimensionam o círculo de ofensas que essa criança terá de pagar. Sozinha, provavelmente.

Então, amiguinho e amiguinha: por mais que possa parecer super engraçado gongar uma criança expressiva que está num reality, a verdade é que não só não é engraçado, como é trágico. E mais: ao contrário do que você queira, essa criança pode crescer e descobrir, no momento adequado de experimentação sexual, que sua orientação é hetero. Nada, nem eu e nem você, podem fazer isso mudar. Nem devemos. Sequer temos qualquer coisa a ver com isso. Depende só dele, bem como ele pode descobrir que sua orientação é homossexual, bissexual, isso pouco importa. O que nós podemos fazer é evitar que tudo isso se transforme em sofrimento pra ele.

Talvez pior do que isso, só mesmo um comentário de outro famosinho babaca que insinuava pedofilia - a possibilidade de relacionar-se com uma das crianças por ser linda. Por ele, abriu-se o armário de uma série de potenciais pedófilos na rede, endossando que "dependia da criança", que "naquela idade já aprontava"... É melhor vir logo o meteoro mesmo. E sobre isso, a Carol Patrocínio já disse tudo aqui.

Torço muito pra que o MasterChef Júnior seja um sucesso, para que as crianças encarem os desafios com a leveza da infância, para que se divirtam e para que continuemos a nos emocionar com suas peripécias. Torço, mais ainda, pra que esta seja uma oportunidade de discussão sobre a infância que queremos.

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