OPINIÃO

De Sarajevo a Bagdá: ligações entre o EIIL e a Primeira Guerra

07/07/2014 16:50 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
Reuters

No último dia 30, o grupo Estado Islâmico do Iraque e Levante (EIIL) anunciou a criação de um califado islâmico em uma área que abrange o norte da Síria e parte do leste do Iraque, chegando às portas de Bagdá. Dois dias antes o mundo lembrou do assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando, ocorrido em Sarajevo 100 anos antes, o estopim da Primeira Guerra Mundial.

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Mesmo que um século inteiro os separe, os dois fatos estão diretamente ligados. O Estado Islâmico - como está sendo denominado o território comandado pelo EIIL - restabelece uma noção de organização que remete ao Império Otomano, o último dos califados, abolido em 1924 pelo líder turco Ataturk. Uma consequência direta do fim da Primeira Guerra e posterior loteamento da região em zonas de influência ocidental, principalmente britânica e francesa.

A propósito da efeméride, o Wall Street Journal (WSJ) publicou um interessante especial sobre os 100 legados do conflito. Um deles é o fim do Império Otomano. "Do Sudão à Geórgia e do Iraque à Grécia, o colapso do império proporcionou o surgimento de novos países, instaurou novos líderes em outros e impulsionou conflitos que ainda estão entre nós", diz um trecho do texto do WSJ.

O rosto mais recente desses conflitos é a ascensão do EIIL e sua tentativa de reunificar o mundo árabe. Aproveitando-se da fragilidade do governo iraquiano e o desmantelamento do Estado sírio após três anos de conflito, a milícia (que já vem sendo considerada um exército) comandada por Abu Bakr al-Baghdadi tomou cidades importantes e preocupa lideranças ocidentais.

Durante a semana, dois textos que fazem a relação entre o EIIL e o estopim da Primeira Guerra me chamaram a atenção, um publicado no site da Foreign Policy, uma das mais respeitadas publicações de análise política internacional, e o outro na revista New Yorker. Ambos não só juntam os pontos da história, ligando os fatos de 1914 e de 2014, como também ressaltam a possibilidade de que a ofensiva extremista possa ser o estopim de um conflito maior na região.

Como foi o assassinato de Francisco Ferdinando.

Na New Yorker, o jornalista John Cassidy traça um paralelo entre os acontecimentos subsequentes ao assassinato do arquiduque em Sarajevo e os movimentos geopolíticos e militares que vêm ocorrendo desde a invasão do Iraque pelos Estados Unidos em 2003, consequência do 11/9.

Evidentemente, Cassidy não compara a Primeira Guerra com a guerra no Iraque, mas chama a atenção para um aspecto interessante a ser observado. Antes e mesmo imediatamente depois da morte de Ferdinando, poucos apostariam que milhões de pessoas morreriam em um conflito que envolveu todo o planeta nos anos subsequentes. Em algum momento, diz o jornalista, os especialistas da época se esqueceram do caráter imprevisível das guerras modernas:

Quando a situação complicou nos Bálcãs com o assassinato do arquiduque, segundo a tese de 1961 do historiador alemão Fritz Fischer, os alemães aproveitaram a situação para fins próprios, desejando que eles pudessem enfrentar França e Rússia mantendo a Inglaterra fora do conflito.

Mas o plano não deu certo, diz Cassidy. E todos sabemos o que aconteceu. Atualmente, para ele, vivemos uma situação análoga, guardadas as proporções:

Durante os anos 90, com a queda do império soviético e o aparente desaparecimento da ameaça nuclear, a noção que tinha-se sobre conflitos no século XIX voltou a predominar em partes de Washington. Então, depois do 11/9, o governo dos Estados Unidos decidiu demonstrar sua força militar e reconfigurar sua situação estratégica. Algumas almas iludidas disseram que as tropas americanas seriam recebidas com festa em Bagdá e que das cinzas do regime de Saddam seria construída uma democracia modelo.

Mas essas expectativas duraram pouco. Depois de dez anos em território iraquiano, os Estados Unidos saíram do país deixando para trás uma democracia frágil e sectária, que hoje se vê ameaçada pelo EIIL e seu califado. Este, por sua vez, não parece querer apenas um mundo árabe unificado sustentado por leis medievais, mas também buscar a revanche pela traição sofrida em um conflito de 100 anos atrás. Algo que coloca o Ocidente novamente em alerta.

Por enquanto os Estados Unidos vêm procurando observar o conflito de fora. Mas a linha vermelha pode ser cruzada se os militantes do EIIL resolverem atacar a Jordânia, um dos principais aliados de Washington no Oriente Médio. Essa é a tese de David Rothkopf, em artigo publicado na Foreign Policy. Caso aconteça isso, até mesmo o Congresso americano, "o campeão da inércia", deve pressionar o governo Obama a tomar uma atitude, forçando uma intervenção.

Até lá, os esforços devem ser diplomáticos, envolvendo países que possuem seus próprios interesses, como Irã e Rússia, já que ambos vêm auxiliando o Iraque contra o EIIL. Uma tarefa para Obama e seu secretário de Defesa, John Kerry.

Diz Rothkopf:

Não vai ser fácil. O risco de fracasso é alto. Os ganhos políticos em casa provavelmente serão baixos. Será necessário um tipo de postura política multilateral que funciona bem no discurso, mas que é muito difícil de acontecer na prática.

Mas às vezes vale a pena tomar decisões difíceis porque os custos de não fazer nada ou quase nada são muito altos.

Caso contrário, Rothkopf acredita que uma nova Sarajevo pode estar em algum lugar na Jordânia.

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