OPINIÃO

A ferida brutal do 1º de outubro

Não, o que aconteceu na Catalunha no domingo não foi um referendo. Uma coisa é certa, porém: foi a maior vitória já alcançada pela causa pró-independência.

03/10/2017 12:20 -03 | Atualizado 03/10/2017 12:21 -03
EFE
Uma Europa horrorizada se pergunta o que está acontecendo na Espanha.

Não, o que aconteceu na Catalunha no domingo não foi um referendo. Foi uma representação de um referendo, de qualquer maneira: caótica em sua organização e enganosa em sua execução. Foi também preocupante sob muitos aspectos, especialmente no que diz respeito à proteção dos dados de milhões de catalães. Uma coisa é certa, porém: foi a maior vitória já alcançada pela causa pró-independência.

Isso se deu essencialmente porque milhares de catalães se engajaram com a votação: eles se organizaram e trabalharam em conjunto para convertê-la em realidade, não obstante a proibição judicial. Ocuparam escolas a partir da sexta-feira, esconderam urnas e cédulas de voto em suas casas, compartilharam informações para passar ao largo de obstáculos legais, acordaram cedo para chegar às escolas antes da polícia e então esperaram horas debaixo de chuva para votar ou para que outros pudessem votar. Mesmo muitos dos que duas semanas atrás eram contra o referendo participaram da votação. Alguns enfrentaram a polícia e foram espancados por isso. E essas imagens – de avós ensanguentadas, de jovens sendo arrastados pelo chão, de adolescentes apavorados – foram vistas em todo o mundo, um mundo que até agora ignorava completamente o desejo de independência dos catalães.

Agora uma Europa horrorizada se pergunta o que está acontecendo na Espanha, esse país conservador e estável que se recuperou da crise e vem crescendo em ritmo regular. O que aconteceu é algo sem precedentes: um governo legítimo lidera uma insurreição aberta e outro governo lança as forças da lei e da ordem contra cidadãos pacíficos. Isso nunca antes foi visto.

Tanto Carles Puigdemont quanto Mariano Rajoy, e seus respectivos governos, são diretamente responsáveis pelas imagens de violência vistas no domingo, que abriram uma ferida profunda em nossa coexistência. Puigdemont, por ter desrespeitado o Estado de direito que ele tem a obrigação de defender e ter corroborado a ficção de um referendo legal, contrariando todas as probabilidades, apesar de ele próprio não ter podido votar em seu local devido. Rajoy, por sua miopia ao confiar a contenção do tsunami independentista não à política, mas à polícia e ao Judiciário. Levar a Polícia Nacional e a Guarda Civil para tão perto dos locais de voto – o trabalho sujo que a polícia catalã se negou a fazer --, cientes da resistência civil que elas enfrentariam, foi uma insensatez. Mais de 700 civis e uma dúzia de policiais ficaram feridos.

Rajoy cumpriu o que prometeu: não houve referendo. Mas houve urnas e cédulas de voto, houve filas nas escolas, muitos jovens e muitíssimas pessoas mais velhas ficaram genuinamente emocionadas e dinamizadas com a ideia de votar. Foi um clima de desobediência civil e resistência festiva, e isso deveria ter sido a somatória do dia: os cidadãos expressando sua vontade em uma eleição tão simbolicamente poderosa quanto foi legalmente inválida. Na manhã do domingo, quando o governo catalão teve que substituir o processo de votação por um "censo universal" democraticamente falido, controlado por aplicativos, o referendo poderia ter acabado, e nós teríamos sido poupados da violência policial. Mas a teimosia do governo catalão em impor a aparência de legalidade encurralou o governo central, que demonstrou força e inabilidade política absoluta, em medidas iguais.

Ontem a causa da independência da Catalunha ganhou visibilidade internacional, apoiadores internacionais e possivelmente novos seguidores na Catalunha. Se Puigdemont convocar eleições regionais agora – e não existe outra saída possível --, tem chances de aumentar sua base de apoio ao projeto secessionista. Que ninguém se engane: também isso fez parte de seus cálculos. Mas o preço a pagar é altíssimo, tanto em termos de coexistência quanto de instituições desacreditadas. O diálogo entre Espanha e Catalunha que será essencial para avançarmos, juntos ou não, parece impossível enquanto os líderes políticos atuais permanecerem no poder. Depois de ter sido tão manipulada para proteger um ou outro deles, hoje a democracia sofreu uma derrota monumental.

Últimas notícias: e a derrocada continua. Convencido de que o que aconteceu no domingo foi um triunfo, Carles Puigdemont acaba de dar um passo que não permitirá recuo: ele vai transmitir o resultado da votação ao Parlamento catalão, para que a Catalunha possa ser declarada independente ainda esta semana. Uma semana frenética nos aguarda. As coisas só podem se agravar.

Este texto foi publicado originalmente pelo HuffPost Espanha e traduzido ao português.