OPINIÃO

O ano que começou sangrento na Turquia

02/01/2017 14:55 -02 | Atualizado 02/01/2017 14:55 -02
ODD ANDERSEN via Getty Images
Members of several Islamic religious communities and associations lay down flowers in front of the Turkish embassy in Berlin on January 2, 2017, to pay tribute to the victims of the Reina night club attack in Istanbul. The Islamic State jihadist group on January 2, 2017 claimed the shooting rampage inside a glamorous Istanbul nightclub on New Year's night that killed 39 people, as police hunted the attacker who remains on the run. / AFP / Odd ANDERSEN (Photo credit should read ODD ANDERSEN/AFP/Getty Images)

Reina é certamente a boate mais famosa de Istambul, debruçada sobre o Bósforo, no lado europeu da cidade. Sempre passava por ela - seja de ônibus, táxi ou ferry - em meu caminho da minha hospedagem em Arnavutköy para os arquivos e museus de Sultanahmet e adjacências. O espaço chama atenção pela imponência, seja por terra ou mar, mas confesso que nunca me atraiu a ponto de ir lá pessoalmente, por ter mais interesse no lado mais histórico e cultural da Turquia. Gostava, porém, de saber que existia lugar cosmopolita e festivo como este na cidade, sempre lotado e alegre.

Pois na noite de ano novo, justamente pelo simbolismo do lugar, um terrorista ainda não identificado do chamado Estado Islâmico (EI), ali perpetrou mais um massacre. Diferente do TAK, grupo curdo responsável pelo atentado semanas atrás próximo ao estádio do Beşiktaş, cujo alvo era primordialmente policiais (embora tenha matado um tanto de transeuntes), o alvo do EI sistematicamente são civis, além de lugares com claro simbolismo e impacto econômico. Anteriormente fizeram ataques contra turistas em Sultanahmet e Taksim - áreas históricas e turísticas -, bem como no principal aeroporto da cidade.

Até o momento fala-se em 39 mortos e 65 feridos, sendo 25 dos que perderam a vida estrangeiros. Vale atentar para as nacionalidades destes últimos. Segundo a imprensa turca, há um canadense, um russo e dois indianos entre estes, a quase totalidade, porém, é de países muçulmanos. Sete sauditas, três libaneses, dois tunisianos, dois marroquinos, dois jordanianos, dois iraquianos, um sírio, um kuaitiano e uma também árabe-israelense (uso aqui essa definição, sem saber como a mesma se autodefinia, sendo relevante dizer que alguns árabes-israeleses, como a cineasta Suha Arraf, se identificam como palestinos). Vê-se com isso o quão atrativa Istambul se mostra para o mundo árabe-islâmico como um todo, como também, como as principais vítimas do chamado EI são os próprios muçulmanos.

Não resta dúvida, como bem reconheceu o presidente Recep Tayyip Erdoğan, que o ataque se relaciona com os acontecimentos na região, sobretudo na Síria. Como lembra o jornalista Murat Yektin no jornal Hurryiet, porém, vale atentar para dois pontos importantes, totalmente ligados a questões internas turcas.

O primeiro deles é que, apesar dos inúmeros alertas da possibilidade de atentados por parte do EI em locais como shopping centers, cinemas, restaurantes e boates de grandes cidades, como Istambul e Ancara, a inteligência, mais uma vez, falhou largamente. A possível razão para tanto tem a ver com o golpe frustrado em julho de 2016. O governo acusa do movimento Hizmet do mesmo e desde então vem perseguindo, demitindo, esvaziando os espaços que os integrantes deste grupo, liderado pelo imam Fethullah Gülen ocupavam. E a inteligência era núcleo importante destes. Com o afastamento de ativistas do Hizmet, o espaço vem sendo ocupado por profissionais inexperientes e, literalmente, novatos, pois têm pouquíssima idade.

O segundo ponto tem a ver com a retórica recente do Dyianet,o Diretório de Assuntos Religiosos da Turquia. Na última sexta-feira de 2016 o sermão distribuído por esta instituição a quase oitenta mil mesquitas no país criticava celebrações como Ano-Novo como não-islâmicas e não conectadas à tradições culturais turcas. Assim, apesar de o EI ter oficialmente reconhecido a autoria pelo atentado - embora o terrorista em si ainda não tenha sido capturado - ele em parte se liga à retórica recente do próprio governo do AKP.

O ano começou sangrento e triste nesta que é a meu ver a segunda cidade mais incrível do mundo (sim, sou uma carioca apaixonada pela terra natal). Seu papel de ponte entre Europa e Ásia, entre Islã e Cristianismo, entre produtores e consumidores de petróleo e de tantos refugiados do Oriente Médio, bem como seu histórico cosmopolitismo, vem sendo impactados por atentados de todo o tipo. Turismo, certamente, não rima com terrorismo.

*Após a publicação deste texto, a organização terrorista Estado Islâmico reivindicou a autoria do ataque. A facção, que assumiu outras ações contra a Turquia, divulgou uma nota afirmando que um "soldado heroico do califado atingiu uma das casas noturnas mais famosas em que os cristãos celebram seu feriado apóstata".

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