OPINIÃO

O que as empresas entendem por diversidade?

O problema das empresas que embarcaram na onda da diversidade está em criar soluções pautadas em propagandas.

19/04/2017 17:21 -03 | Atualizado 19/04/2017 18:42 -03

Poderíamos iniciar essa conversa dando alguns exemplos de empresas que começaram a entender a importância da diversidade. Talvez o exemplo do momento seja a Skol, com seu novo comercial, "Viva a Diferença", ou até mesmo suas latinhas que representam diferentes tons de pele. Isso pode ser um bom modelo para, nós, consumidores. Mas é só isso que as empresas entendem por diversidade?

O problema das empresas que embarcaram na onda da diversidade está em criar soluções pautadas em propagandas. Elas não estão atentas a outras searas como, por exemplo, a parte de recrutamento para composição do quadro de funcionários, sobretudo nos cargos de gestão. Infelizmente, as 500 maiores empresas brasileiras possuem 13,6% dos quadros executivos compostos por mulheres e 4,7% por negros. Isso nos mostra que diversidade só funciona na base da pirâmide.

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Fonte: Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Instituto Ethos

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Fonte: Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Instituto Ethos

Antes a justificativa das empresas para não contratarem pessoas negras era a ausência de qualificação profissional. E agora que, com as cotas raciais, a quantidade de jovens negros que ingressam no ensino superior em 2013 foram 50.937 e em 2014, 60.731, qual é a justificativa?

Fonte: Proporção de universitários negros | Pnad/2014

Mesmo contratando negros, unidade não significa diversidade. Queremos dizer que um único negro, uma única mulher, um único gay não fará sua empresa amiga das minorias. Reforçará o quão hipócrita sua empresa é.

Um outro ponto que merece destaque é o consumo e perfil dos clientes. De acordo com o Data Popular, 75% das pessoas que ascenderam para classe C, são negras. Por ano, a população negra consome em média 1 trilhão de reais. E, cada vez mais cedo, as pessoas passam a entender a estrutura racista e patriarcal da sociedade, reagindo as atitudes equivocadas das corporações, criando movimentos como "Não me vejo, não compro".

Talvez a solução para as empresas esteja nos treinamentos e consultorias. Mas temos um outro grande problema a respeito disso. As consultorias que tratam sobre a diversidade, não tem diversidade. Geralmente são homens falando da importância de ter mulheres, são brancos falando sobre os negros, são heterossexuais falando sobre os homossexuais. Há algum problema nisso? Pode ser que não. Mas a fórmula da vivência com os estudos trazem resultados maiores para o cliente. Falar apenas pela lente de um observador, trazem resultados limitados.

Sem contar que os curadores dos grandes eventos internos e externos das corporações vivem numa bolha e não conseguem dialogar com as diferentes searas e grupos da sociedade. Logo, afirmam não encontrar pessoas negras, mulheres, LGBTs e as demais "minorias sociais", para determinados eventos. Isso reflete na ausência de diversidade nos espaços. Para estourar essa bolha, é importante contratar pessoas com sensibilidade e propriedade para enxergar além dos muros que a cercam.

Diante disso, temos duas saídas para as empresas levarem a diversidade a sério: ou entendem a importância da inclusão como justiça social ou como valor competitivo. Não exercendo a diversidade em toda esfera da corporação ( recrutamento, remuneração, cargos, marketing etc), vão perder dinheiro em médio prazo.

Diversidade não é tema. Diversidade é cultura!

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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