OPINIÃO

"Sergio não morre", lembra sobrinho de Vieira de Mello ao homenagear trabalhadores humanitários da ONU e de todo o mundo

"Eles estavam entre os mais brilhantes e competentes servidores da organização, que dedicaram suas vidas para a construção de um mundo melhor."

19/08/2017 13:56 -03 | Atualizado 19/08/2017 14:00 -03
ONU
"Sergio nasceu junto (no mesmo ano) com a Declaração dos Direitos Humanos, no ano de 1948, e dedicou sua carreira a dar sentido a cada um dos seus 30 artigos."

As Nações Unidas marcam em 19 de agosto o Dia Mundial Humanitário. A data foi escolhida em tributo aos funcionários mortos no atentado a bomba à sede da ONU em Bagdá, capital do Iraque, em 2003.

No ataque terrorista, perderam a vida o então alto comissário para Direitos Humanos da ONU, o brasileiro Sergio Vieira de Mello, e outros 21 funcionários.

Naquela manhã de inverno no Brasil, o único sobrinho de Sergio, André Simões, estava no trabalho quando começaram a entrar os primeiros flashes de notícias. As TVs a cabo internacionais noticiavam um ataque terrorista à ONU, em Bagdá.

André, o neto mais velho da mãe de Sergio - a embaixatriz Gilda Vieira de Mello -, telefonou imediatamente para a residência da avó e pediu às pessoas na casa que desligassem todos os aparelhos de rádio e TV e que tirassem o telefone do gancho. Com a confusão inicial sobre informações desencontradas, ele não queria que a mãe ficasse sabendo pela TV da gravidade da situação em que estava envolvido seu filho.

Foram horas e horas de agonia e incerteza que André jamais havia imaginado presenciar. "A nossa vida mudou para sempre naquele 19 de agosto. A partir daquela data, passei a contemplar a vida de outra forma, de uma maneira mais espiritualizada", explicou André Simões, que era também afilhado de Sergio Vieira de Mello.

Hotel Canal

As redes de TV internacionais com acesso ao Hotel Canal, em Bagdá, informavam que o chefe da Missão da ONU no País havia sobrevivido e que conversava com um guarda norte-americano à espera do resgate.

Davam conta de que Sergio perguntava pela gravidade do ocorrido e pelos colegas, que estava ferido, mas lúcido.

Na sede da ONU em Nova Iorque e outras partes do mundo, a esperança era de que ele e outros presos nos escombros da explosão pudessem sobreviver.

Mas após algumas horas, a esperança chegava ao fim, como lembra André: "Eu recebi uma ligação do Ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, dizendo que o Sergio havia falecido. E eu disse: Como assim? Sergio não morre. Era o que eu pensava. E não morreu mesmo, ele continua vivo".

Mergulhos

André Simões lembra que o tio o chamava de "rapaz". Ele jamais teve cerimônias, só se referia a Vieira de Mello como "tio Sergio" na frente de estranhos. "Lá em casa, era sempre Sergio. Ele era amigo. Eu tenho saudades dos mergulhos na Praia do Arpoador e depois da feijoada na casa da vovó".

Sergio tinha apenas 18 anos de idade quando batizou André. A amizade entre os dois era sólida, bonita, ainda que não se vissem com a frequência desejada.

Um dia, ele perguntou ao tio-padrinho, que já havia trabalhado em várias áreas de conflito e risco incluindo, onde fez os primeiros contatos com integrantes do Khmer Vermelho.

"Sergio, por que você se arrisca tanto indo para esses lugares tão perigosos?" E a resposta do trabalhador humanitário por excelência veio sem titubear: "Porque é lá que as pessoas precisam de mim."

E André lembra que a frase contundente era acompanhada de um largo sorriso e alegria contagiante. Sergio amava cada segundo do que fazia.

Com Vieira de Mello naquele 19 de agosto de 2003, partiram mais outros 21 funcionários das Nações Unidas. Eles estavam entre os mais brilhantes e competentes servidores da organização, que dedicaram suas vidas para a construção de um mundo melhor e à própria humanidade.

Para homenageá-los e para celebrar a dedicação de todos os trabalhadores humanitários do globo neste Dia Mundial, André Simões preparou o seguinte texto a pedido da ONU News:

Leia na íntegra a declaração de André Simões, sobrinho e afilhado de Sergio Vieira de Mello:

"Rio de Janeiro, 19 de Agosto de 2017.

Quatorze anos se passaram desde o dia que tudo mudou em nossas vidas. A bomba que explodiu o escritório da ONU em Bagdá no dia 19 de agosto de 2003 interrompeu cedo demais o trabalho do meu tio Sergio, aos 55 anos, e de seus 21 colegas mais brilhantes.

Deixou 168 feridos pelo solo e milhões de vulneráveis pelo mundo. Sua equipe se sacrificou pelos valores da Paz, da Dignidade Humana e da Reconciliação entre povos.

Sergio era meu tio e padrinho. Era padrinho meu e de milhares de pessoas que cruzaram o seu caminho de várias maneiras.

E em toda reflexão por um mundo melhor inspirada por ele.

Na ONU, suas equipes, suas missões sempre buscaram minimizar o sofrimento dos vulneráveis.

O trabalhador humanitário, herói da paz, anônimo, arriscando sua vida por pessoas que nunca viu e muitas vezes nem sua língua falam, é motivo de orgulho.

Sergio nasceu junto (no mesmo ano) com a Declaração dos Direitos Humanos, no ano de 1948, e dedicou sua carreira a dar sentido a cada um dos seus 30 artigos.

Não foi o ideal, mas conseguiu transmitir o que ele queria: a promoção do diálogo para solução do conflito como linha de pensamento Sergio Vieira de Mello."

E neste Dia Mundial, a ONU lembra que os civis vivendo em áreas de conflito assim como os trabalhadores humanitários e os valores da Humanidade não são um alvo. #NotaTarget.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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