OPINIÃO

Encurralado entre Egito, Qatar e a luta pela imprensa livre

28/07/2015 19:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
HASAN MOHAMED via Getty Images
Al-Jazeera journalist Mohamed Fahmy gives an interview in Cairo on February 14, 2015 after he and his colleague Egyptian producer Baher Mohamed were released from an Egyptian jail on February 12. The ruling came after an appeals court overturned a previous jail sentence of up to 10 years handed down by a lower court that convicted them and their Australian colleague Peter Greste of aiding the banned Muslim Brotherhood. AFP PHOTO / HASAN MOHAMED (Photo credit should read HASAN MOHAMED/AFP/Getty Images)

A decisão sai em 30 de julho - para nós, jornalistas da Al Jazeera, depois de 19 meses de uma experiência atormentadora que mudou para sempre minha vida e a dos meus entes queridos.

Compreensivelmente, o mundo está preocupado com as notícias sobre acordos nucleares, bandidos matando sua própria gente sob a justificativa pervertida da jihad, e com a causa do Islã e da guerra contra o terror, que deixou muitos jornalistas - entre os quais me incluo - sob ameaça constante de governos que nos consideram mero dano colateral.

Entre os 200 jornalistas presos no mundo inteiro somente por fazer seu trabalho, talvez nosso caso seja um dos melhores exemplos de como jornalismo e política se sobrepõem no cenário atual da mídia. Não é segredo que o governo do Qatar, dono da Al Jazeera Media Network, apoie ferrenhamente os fundamentalistas da Irmandade Muçulmana.

Será que fui ambicioso demais quando aceitei o desafio de chefiar a sucursal do canal em inglês da Al Jazeera, meses depois da derrubada da Irmandade, em 2013? Afinal de contas, o governo egípcio proibiu os braços árabes do canal, considerados parciais ao relação grupo islâmico.

Justamente por essa razão, fui crítico do meu trabalho como nunca antes havia sido. Analisei mentalmente cada apuração, estatística, transmissão ao vivo e reportagem produzidas pelo escritório do Cairo. Com toda a humildade, e depois de muita reflexão, considero nosso trabalho impecável - mas ele foi acusado pelo governo egípcio de ser favorável à Irmandade Muçulmana.

Muitos meses depois, essa avaliação foi validada por um comitê técnico de especialistas nomeado pelo juiz. O comitê testemunhou perante o tribunal depois de analisar as chamadas provas em vídeo.

Não tenho como não me lembrar do resultado do nosso primeiro julgamento, aquele horrível 23 de junho de 2014. Chorei na prisão, sabendo que poderia passar sete anos da minha vida preso com combatentes do ISIS e jihadistas numa selva de concreto implacável. Ainda guardo na memória o rosto da minha mãe, por entre as grades da jaula dos prisioneiros, quando o juiz anunciou a sentença. Tento esquecer da cena em que brigo com os policiais que me arrancaram do banco dos réus.

Nas primeiras horas da manhã de 25 de dezembro de 2013, o governo egípcio declarou a Irmandade uma organização terrorista. O momento está gravado na minha mente como se tivesse acontecido ontem. Relatei essa notícia ao vivo. Nessa transmissão, também incluí os detalhes horrendos de um carro-bomba que matou vários policiais, a gota d'água que levou ao banimento da Irmandade. Lembro de passar a palavra ao meu colega Peter Greste, enquanto continuávamos cobrindo os eventos do dia instalados no hotel Marriott do Cairo. Naquele mesmo hotel, seríamos presos quatro dias depois, numa ação policial transmitida pela TV.

Em retrospecto, hoje sei que Greste, meu colega egípcio Baher Mohamed e eu basicamente falávamos de algo que dias depois seria a lei que justificaria nosso processo e nossa prisão por mais de 400 dias.

Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos tinham o objetivo de erradicar de todas as maneiras possíveis a Irmandade Muçulmana como organização e ideologia. Turquia e Qatar, por outro lado, se aliaram e ofereceram um porto seguro para fugitivos da Irmandade, providenciando um guarda-chuva político para o grupo e financiando várias plataformas de mídia para disseminar suas causas antigoverno. Nós três acabamos no meio dessa guerra por procuração.

Nosso julgamento merece ser estudado por juristas, defensores da liberdade de expressão e dos direitos humanos, e políticos que debatem quem são os terroristas e quais coalizões apoiar.

Com a aproximação do novo veredicto, em 30 de julho, não tenho como não me lembrar do resultado do nosso primeiro julgamento, aquele horrível 23 de junho de 2014. Chorei na prisão, sabendo que poderia passar sete anos da minha vida com combatentes do ISIS e jihadistas numa selva de concreto implacável. Ainda guardo na memória o rosto da minha mãe, por entre as grades da jaula dos prisioneiros, quando o juiz anunciou a sentença. Tento esquecer da cena em que brigo com os policiais que me arrancaram do banco dos réus.

Fomos os primeiros jornalistas condenados a sete anos de prisão num caso de terrorismo no Egito. Felizmente, em 1º de janeiro deste ano, a alta corte de apelações derrubou a decisão brutal do primeiro julgamento por "falta de provas". Ainda assim, Baher e eu voltamos para a jaula, para um novo julgamento, que durou seis meses.

Nosso julgamento merece ser estudado por juristas, defensores da liberdade de expressão e dos direitos humanos, e políticos que debatem quem são os terroristas e quais coalizões apoiar.

Logo depois de nosso recurso ser acatado, o presidente egípcio, Abdel Fattah el-Sisi, implementou um decreto que lhe dá o poder de deportar estrangeiros, para que eles sejam julgados ou cumpram suas penas em seus próprios países. As autoridades de segurança nacional que me visitaram durante meu encarceramento tinham uma mensagem clara: "Renuncie à sua cidadania - você e Greste serão chutados pra fora [do país] e poupados de um novo julgamento, ou coisa pior".

De fato, foi a primeira vez na história do Egito que um estrangeiro (Greste) foi deportado durante um julgamento, e a primeira vez que um egípcio-canadense (eu) teve a chance de renunciar à cidadania para sair da cadeia. Mas, num lance kafkiano, meu colega Greste foi deportado para a Austrália, e minha deportação para o Canadá foi bloqueada. Fiquei para trás, lutando com nosso colega Baher Mohamed, que tem apenas passaporte egípcio.

Sou grato ao governo canadense por seus esforços de me tirar do Egito, apesar de não haver garantias de sucesso.

Mas, depois de ser libertado sob fiança em fevereiro deste ano, o governo canadense me deixou sem passaporte por dois meses. As autoridades egípcias tinham perdido meu passaporte, que fora confiscado quando fui detido. A amistosa equipe de aconselhamento do governo canadense no Egito me informou que era a primeira vez que Ottawa se recusava a dar um novo passaporte a um cidadão fora do país, apesar do fato de eu estar impedido de sair do Egito. Esse conservadorismo diplomático veio justamente na hora em que precisava do passaporte para me casar, fazer transações bancárias e provar minha identidade nos checkpoints da hiperparanoica polícia egípcia.

Felizmente, numa rara demonstração de união, a mídia e os partidos de oposição canadenses defenderam esse meu direito básico. Uma sessão de questionamento do primeiro-ministro Stephen Harper no Parlamento, transmitida pela TV, culminou com uma vitória para mim: recebi o passaporte dois meses depois.

Continuo genuinamente inspirado pelo apoio global sem precedentes que recebemos enquanto estávamos presos. Saber que tantos defensores da liberdade de expressão - dezenas de milhares - estavam lutando por nós foi o que nos manteve vivos dentro das cruéis paredes de concreto da prisão. Esse apoio à nossa causa foi o que me fez criar a Fahmy Foundation, uma organização sem fins lucrativos baseada em Vancouver que defende jornalistas atrás das grades.

Os ponteiros do relógio estão se mexendo. A hora se aproxima. Quando vier o dia da decisão, tenho medo de me tornar mais uma estatística, uma hashtag do Twitter, definhando atrás das grades e sabendo que o resultado do julgamento pode não ter nada a ver com as provas, mas sim com um acerto de contas entre Qatar e Egito.

Sendo realista, sei que a verdadeira liberdade de expressão não existe, mas também acredito que temos de lutar por reformas. Sinto repugnância ao saber que a Austrália aprovou leis para acessar históricos telefônicos e de internet, sem nenhuma proteção aparente para os jornalistas. O mesmo vale para a nova lei C-51, do Canadá, que não apenas limita o direito de livre expressão como também ameaça liberdades civis básicas consagradas na Constituição. É verdade que o tsunami de terrorismo sem precedentes exige medidas excepcionais para garantir a segurança nacional, mas não à custa do oxigênio que vem com nossas liberdades civis. Os terroristas com quem convivi por um ano na prisão literalmente comemoraram a aprovação dessas leis - não podemos deixá-los declarar vitória! Some-se a esse pesadelo uma nova lei, a C-24, que permite que ministros revoguem a cidadania canadense de um suspeito que tenha dupla cidadania e seja "condenado" por terrorismo, como eu. A lei é simplesmente perigosa, pois nega aos cidadãos os direitos básicos do procedimento judicial padrão.

Há uma epidemia global de ataques à liberdade de expressão. Egito e Qatar são dois dos piores exemplos. Um dos casos defendidos por minha fundação é do poeta catariano Mohammed Al Ajami. Ele cumpre pena de 15 anos de prisão porque um de seus versos critica o emir do Qatar - o mesmo que defende a liberdade de expressão nas Nações Unidas. Pelo menos meia dúzia de jornalistas e escritores catarianos tiveram suas cidadanias revogadas por criticar a família Al-Thani, que governa o país, e dezenas de outros são assediados pelo aparato de segurança do Qatar.

Você não vai encontrar muitas informações sobre o poeta catariano romântico nos vários canais da Al Jazeera. Em resposta à sua prisão, Al Ajami comentou: "Não dá para ter a Al Jazeera neste país e me colocar na prisão por ser poeta".

Outra vítima dos ataques à liberdade de expressão é o jornalista americano Jason Rezaian, que está detido numa prisão iraniana há mais de um ano por falsas acusações de espionagem. Minha fundação também apoia Rezaian, e mantemos contato regular com sua família.

Os ponteiros do relógio estão se mexendo. A hora se aproxima. Quando vier o dia da decisão, tenho medo de me tornar mais uma estatística, uma hashtag do Twitter, definhando atrás das grades e sabendo que o resultado do julgamento pode não ter nada a ver com as provas, mas sim com um acerto de contas entre Qatar e Egito. O que sei com certeza é que nossa família de jornalistas vai continuar lutando por Baher Mohamed e por mim, caso sejamos condenados.

Felizmente o governo de Ottawa está mais envolvido com meu caso. O governo Harper continua a cooperar com minha advogada, Amal Clooney, preparando-se para o pior: vamos lutar pela minha extradição caso o juiz decida punir meu empregado dúbio, a Al Jazeera, me silenciando.

Vai ser muito mais difícil ser preso por um crime que não cometi depois de saborear a liberdade.

Este artigo foi originalmente publicado pelo The World Post e traduzido do inglês.

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