OPINIÃO

A Dinâmica da Espiral

26/11/2014 16:52 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
Gandee Vasan via Getty Images

Você já imaginou como seria se as pessoas tivessem cores, dependendo da sua maneira de pensar, agir e do seu sistema de valores? Você seria um azul, se fosse um advogado conservador, ou um laranja, se fosse um empresário ambicioso; teria momentos de roxo ou vermelho quando torcesse violentamente pelo seu time de futebol, e momentos amarelos quando fizesse aquela aula de yoga. E seria um verde, literalmente, se fosse um envolvido em causas da sustentabilidade e da ecologia, embora preocupado em não ser assaltado no trânsito por um bege, este apenas preocupado com a sobrevivência imediata.

Pois existe uma teoria de desenvolvimento humano que mapeia a nossa complexidade, chamada "Dinâmica da Espiral", que está sendo aplicada em cidades, em empresas, e na complexa relação entre Israel e Palestina, entre a comunidade islâmica e as populações da Dinamarca e da Alemanha, além de ter sido a coluna vertebral da administração Mandela, na África do Sul.

Criada e liderada por pelo cientista social Don Beck há mais de três décadas, a Dinâmica da Espiral é uma inteligente e elegante ferramenta de mudança das pessoas e das organizações, sendo muito empregada hoje, inclusive no Brasil, em seleção, treinamento e diagnóstico da cultura organizacional de uma empresa.

Muito além de um mapeador social extraordinário, Dr. Don Beck mostra o caminho da transformação através da escala geopolítica, oferecendo soluções integradas que são ecológicas, sistêmicas, afirmativas e elegantemente lógicas. Ele teve um papel muito importante, embora discreto, no desenho de gestão do primeiro governo pós apartheid da África do Sul, liderado por Nelson Mandela (como todos sabem, uma inacreditável transição política e social, que surpreendentemente não foi violenta, incluindo o perdão de ambos os lados).

Hoje, com 76 anos de idade, viajando pelo mundo sem parar, além de liderar um time de 26 colaboradores internacionais nos EUA, no Canadá, no Reino Unido, Oriente Médio, África, Alemanha, Dinamarca, Rússia, México e América Latina, colaborando com instituições, empresas e governos, sua pedra no sapato é ajudar a resolver a questão Israel/Palestina, onde no momento ele desempenha um papel muito importante, mapeando uma pesquisa.

Beck é fundador do International Institute of Values and Culture e do The Spiral Dynamics Group. É professor do Adizes Graduate School na Califórnia e do George Gallup Institute em Princeton, e fundador, juntamente com Ken Wilber, do Integral Institute. É também membro da American Psychological Association e da American Society for Training and Development.

Mas afinal, o que é a Dinâmica da Espiral?

Segundo dr. Beck, o conceito básico da Dinâmica da Espiral é que a natureza humana não é fixada quando nascemos; pelo contrário, nós temos a capacidade, devido à natureza da nossa mente/cérebro, de construir novos mundos conceituais.

A Dinâmica da Espiral acredita que nós temos uma inteligência adaptativa e complexa, que se desenvolve em resposta às nossas condições de vida e desafios a enfrentar. Onde está o nosso foco na nossa vida, lá estão, latentes, os mecanismos e a inteligência coletiva, que Dr. Beck chama de mêmes. Esse termo foi cunhado pela primeira vez pelo biologista e filósofo inglês Richard Dawkins.

Como os genes, os vírus e as bactérias, os mêmes respondem ao básico princípio do universo, que é a capacidade de renovação e regeneração. Cada même que se sucede contém um horizonte mais amplo, uma organização mais complexa, com novas prioridades, objetivos e bottom lines. Como um código de DNA, que se replica no corpo, o même tem um DNA bio-psico-social-espiritual, que se espalha pelas culturas, tem um papel em todas as áreas de expressão, formando códigos de sobrevivência, mitos de origem, formas artísticas, modos de vida e sensos de comunidade distintos.

E por que Espiral? Espiral é uma expressão natural da força cósmica, o fractal universal que nos une, e do nosso DNA às galáxias, tudo é na forma espiralada nesse universo em que vivemos. Então a Dinâmica da Espiral postula que a evolução da consciência humana pode ser representada dessa forma: uma estrutura dinâmica, como uma espiral ascendente, que mapeia nosso sistema de pensamento conforme ele atinge cada vez mais altos níveis de complexidade.

As culturas, assim como os países, são formados pela emergência desses mêmes, ou sistemas de valores, que são a cola que mantém aquela comunidade unida, definindo quem eles são como povo e refletindo o lugar que ocupam no planeta.

Foi o professor Clare Graves, amigo de Beck, já falecido, que percebeu que existem padrões profundos na evolução da consciência humana, identificando oito níveis de existência cultural e psicológica, ou valores, que se tornaram a base da Dinâmica da Espiral. Os mesmos princípios se aplicam para uma só pessoa ou para toda a sociedade. Graves envolveu milhares de pessoas em suas pesquisas, que refletiam diferentes ativações da nossa dinâmica neurológica.

O primeiro nível da espiral, segundo Graves, era a subsistência, formada por seis básicos subníveis. O segundo nível da espiral é a existência em si, quando os problemas de subsistência já estão resolvidos e nos lançamos num processo de individuação. Graves e Beck consideram que a partir disso, a espiral é infinita, e existem níveis de consciência que ainda estariam por vir, no futuro da humanidade.

Nós subimos ou descemos nessa espiral da consciência dependendo das nossas crises pessoais, ou das crises sociais que podem assolar nossa cultura ou nosso país; podemos, no primeiro nível de subsistência, ser beges (instintivos, preocupados apenas com a sobrevivência), roxos (mágicos animistas, tribais), vermelhos (impulsivos, egocêntricos, violentos), azuis (autoritários e conservadores, fundamentalistas), laranjas (envolvidos na aquisição, na estratégia, na manipulação, materialistas), verdes (comunitários, igualitários, humanistas e ecológicos); num segundo nível, o de existência, amarelos (integrativos, individualizados, visão do todo, orientados de dentro) e finalmente turquesas (holísticos, compassionados, mente coletiva). Ou podemos ser um verde que subitamente vira vermelho se precisa defender a segurança de sua família, ou um azul que insatisfeito com seu emprego resolve partir para uma carreira solo, subindo para laranja. De qualquer forma, as melhores secretárias sempre serão as azuis, e os melhores managers os laranjas; os publicitários amarelos serão muito criativos, e aquele motoqueiro barulhento que passa pela rua sem dúvida é um vermelho.

Aplicação

Muitos dos consultores que estão aplicando a Dinâmica da Espiral nas empresas que trabalham falam dos resultados precisos em termos de diagnóstico em todos os níveis da organização. Por exemplo, quando uma empresa tem ideais e missão verdes mas no seu dia a dia é inteiramente laranja, ou quando acontecem conflitos internos, e as pessoas imediatamente percebem, pelas cores e emoções que estão sentindo, que estão se comportando como roxas ou vermelhas. No Brasil, segundo Dr. Beck, é muito importante agora que criemos empregos azuis, e que tenhamos uma visão laranja, para o desenvolvimento, sem perder de vista a visão verde.

Mudança

Como mudar o sistema de valores e a consciência? Beck alerta que não adianta tentar mudar nada. Ninguém muda porque quer, mas quando está pronto para a mudança; a espiral tem a ver com a compreensão e apreensão da complexidade da vida, dos sistemas. Quando você vai trabalhar um azul ou um laranja, não adianta tentar mudá-los; há que fazê-los crescer no seu nível, a ponto dele ficar insatisfatório e acontecer naturalmente um salto para o nível seguinte. E isso não acontece sem as dores do parto. Geralmente acontecem crises pessoais, depressões, separações, doenças. Tudo isso é sinal que a mudança está começando, que existe uma angústia com o modo de vida presente, uma insatisfação, uma vontade de saber mais, sem se saber o quê. Beck relembra que teve uma grande discussão com o famoso escritor Andrew Cohen, seu grande amigo e diretor da revista What's Enlightment, sobre se a meditação resolvia os problemas, e sua resposta peremptória e objetiva é não, a meditação não resolve os problemas. A meditação só funciona num contexto seletivo, segundo ele. Essa mudança dos níveis de consciência e apreensão maior da realidade pode ser ajudada pela meditação, mas existe um componente prático inerente à mudança. Como ele diz: As pessoas mudam? "Sim!" Podemos mudar as pessoas? "Não!" Mas podemos criar um ambiente propício?"Sim!"

Em situações desesperadoras, como num contexto educacional em Dallas, onde os meninos iam armados para as escolas de nível médio, por causa das gangues, Dr. Beck apelou para o roxo e o vermelho. Ele ajudou a criar uma aura azul/laranja nas escolas, com a criação de uma ordem do anel, usando um sistema roxo da dignidade tribal, e conseguiu que a Motorola ajudasse a comunidade, para que cada estudante de Dallas tivesse uma experiência positiva com esportes.

Os mêmes

Bege - Arcaico, sobrevivência instintiva em primeiro lugar. Busca por água, comida, abrigo. Físico.

Roxo - Tribal, lealdade ao clâ, coletivo. Obediente, pensamento mágico. Símbolos.

Vermelho - Guerreiro, valores individuais, hedonista; agressivo/impulsivo, dominante. Herói, hieraldica.

Azul - Valores tradicionais, lei e ordem; organização e propósito; etnocêntrico; certo/errado, bom ou mau, segue hierarquia.

Laranja - Moderno, auto-orientado; racional, científico, competitivo. Motivado pelo sucesso.

Verde - Pós-moderno, orientado pelo mundo, empatia e sensibilidade; justiça, paz, preocupação ecológica. Emoção.

Amarelo - Sistema de valores integrais; vê o todo, reconhece o valor de cada um dos sistemas anteriores; orientado de dentro para fora, não segue hierarquia. Interativo, criativo.

Turquesa - Mente coletiva; individualizado mas integrado no Todo. Insight. Além de nacionalidades e partidos. Experiências high tech e high touch.

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