OPINIÃO

#somostodosbananas

28/04/2014 18:27 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
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Ah é, o Daniel Alves foi mais uma vez ofendido nos campos na Europa. Jogaram bananas, o jeito mais europeu de se ofender um negro. Aí agora #somostodosmacacos. Jura? Eu não. Eu não sou macaco não. Infelizmente, porque macaco que é macaco reconhece a sua espécie sem precisar de hashtag.

#somostodoshumanos?

Ontem vi a cena do Daniel Alves na TV e pensei: de novo esse lance de banana? Que bom que ele comeu. Depois começaram as hashtags, aí já vi a pá virando pro lado do capeta da ignorância.

As hashtags que unem pessoas em posts e tuitaços deixam de lado qualquer espaço de reflexão genuína. #somostodosguaranikaiowa #somostodosclaudia #somostodosmacacos. Em 140 caracteres só dá tempo de exclamar "Que absurdo!" e já correr para o próximo post de "mais amor por favor".

Eu vejo um paralelismo bem ruim entre esses três casos. Violências contra a mulher, contra índios e negros estão longe de ser uma novidade em nosso país, praticamente fazem parte da nossa identidade nacional. Então de onde vem essa onda de solidariedade em cápsula, meodeos? Será a prova que agora atingimos o ponto ideal de evolução humana capaz de aceitarmos uns aos outros? Hm, acho que ainda não.

Ao mesmo tempo em que breves, essas manifestações virtuais têm outro ponto importante e perigoso: o terapêutico. Elas livram a nossa consciência de qualquer culpa e, assim como a confissão católica, nos deixam livres para os próximos pecadinhos. Opiniões partidárias solidificam posições éticas como leis de conduta e deixam de lado a escolha pessoal e o raciocínio. Seguimos, ou não, as leis por medo da punição e não necessariamente por concordar, humanisticamente, com o enunciado da lei. Aí, nessa falta de processo reflexivo, ao assumir as leis sem questionamento, que está o problema.

Será que alguém que se diz "não racista" sabe responder por quê? O que faz do racismo um crime? Chamar alguém de negro é ser racista? Macaco, um animal tão fofo, ofende alguém? Quarto de empregada é racismo? E se ela usar uniforme, é racismo? Brigar contra o racismo no esporte significa o quê?

Ao se assumir "não racista" muitas pessoas cometem absurdos exatamente porque não prestam atenção nas atitudes racistas embutidas na sua conduta diária. Não sou racista, até tenho amigos que... Não sou racista, só acho feio. Não sou racista, só não quero ter netos sarará. Não sou racista, mas pretos não são confiáveis. Não sou racista, mas tem um negro vindo ali e vou esconder minha bolsa. Quantas afirmações/atitudes assim você já ouviu/presenciou?

As provocações aos jogadores em campos europeus são sim racistas e fazem parte de um contexto local dos campos. Porém, estão dentro de um espectro muito diferente da vida real. Lá, a torcida que queria ofender não fez questão de se esconder, mostrou no campo a sua arma, a banana, o ofendido revidou e as TV mundiais transmitiram tudo. Tipo um vale tudo da barbárie, naquela paixão cega que é o futebol, se vale xingar a mãe de puta não vale xingar o preto de preto? (pausa para reflexão).

O Daniel Alves, que tem todo o direito de se sentir ofendido, faz parte da ínfima minoria em que o racismo, que infelizmente existe, não fere, não exclui, não mata. O racismo de opinião, de ofensa, desculpe-me, esse não me preocupa. E eu, pessoalmente, acredito que só virou uma comoção, esse meme todo, porque ele reagiu. Se não tivesse reagido, como as muitas vezes anteriores, a solidariedade virtual não viria? Seria menos racismo ou menos espetáculo para o grande público?

O que realmete me espanta é que ainda não vi nenhuma hashtag do tipo #somostodoshaitianos. Vocês, que gostam de defender os fracos e as minorias (aqueles seres distantes da sua realidade) estão vendo o que está acontecendo com eles, aqui no nosso país hospitaleiro? Também não vi nada sobre #somostodosdg ou #somostodosodançarinodoesquenta porque ele, como várias outras vítimas negras da violência urbana, nem nome tem. O DG não teve tempo de dar resposta. Ele não foi o negro de raça que responde a ofensa e marca o gol. Ele, figurante de global ainda sem estrela morreu, como milhares de outros jovens negros morrem todos os dias vítimas da violência e, em especial, da violência policial. Policiais também negros, na sua maioria. E aí, cadê o racismo? Cadê hashtag? Como resolver isso? Quem fica indignado com isso? O que você faz diariamente sobre isso? Complexo, né?

Por isso a hashtag, seja ela generosa com quem for, me incomoda muito. Olha, você, branco e bem nascido, tem o direito de se ofender com tudo isso também. Mas, se quiser fazer isso verdadeiramente, não achate a discussão. Não entre na briguinha de torcida. O que a gente menos precisa nestes casos é de frases de efeito. De unha branca pintada pela paz. A gente precisa de prática mas, antes dela, de consciência humana ou humanista. Olhe em volta, não vão faltar ocasiões para você provar, na prática, que não é racista e nem nenhum outro "_ista" do mal. Sem hashtag e na vida real (que é onde as pessoas morrem e se machucam de verdade).