OPINIÃO

Por que morar sozinho é ter mais do que um lar

15/02/2016 16:47 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

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Era janeiro quando eu decidia, de uma vez por todas, esquecer meu relacionamento passado e seguir em frente. Dar uma reviravolta em tudo, tentar preencher o buraco deixado em mim com uma vida nova e que tão-somente me fizesse bem.

Ainda era janeiro quando recebera uma ligação da minha madrinha. Espero que você tenha uma madrinha tão legal quanto a minha, que, num passe de mágica, adivinhara meus anseios dando uma solução prática e pontual para meu coração partido: que tal uma viagem sabática? 1 mês dentro de um carro percorrendo cidadelas, vendo todo tipo de gente, se conectando com qualquer coisa que não fosse um celular.

Parecia bacana. À época não enxerguei o quanto, hoje, tantos quilômetros me fariam tão bem. Honestamente, eu não sei qual é o seu dilema, o que motiva você, se você está feliz assim ou se também tem esse anseio louco pelo novo e pela dúvida. Não sei se sofrer por alguém é motivo suficiente pra deixar tudo pra trás, nem se é um tempo no Nepal, uma meditação no quarto de hóspedes, uma coca gelada ou um passeio com seu cachorro na areia da praia resolveria sua vida em definitivo. Cada um sabe do que precisa e eu, naquele momento, só precisava mudar, esquecer o passado e deixar pra trás tudo aquilo que me desmoronou por inteiro.

Era fevereiro quando eu enxergava uma chance de mudar. A chance de me mudar, que dependia só de mim e daquela senhora loira, muito bem apessoada e sorridente, que me recebia em um galpão antigo de um bairro afastado da cidade.

- Você tem experiência?

- Fiz vários estágios, quero muito aprender e ensinar o que eu sei.

- Você pode começar segunda?

- Dou meu jeito.

A conversa foi mais ou menos essa e, de repente, eu voltava a Florianópolis num sábado à tarde para, no domingo, chegar a Curitiba outra vez. Cidade que, 19 anos depois de deixá-la, em breve chamaria novamente de lar. Nem deu tempo de convencer minha mãe, já tava tudo feito e, com o restinho de coragem conquistado sabe Deus onde, enxuguei as lágrimas, fechei uma mala grande e simplesmente vim.

E aí, meu amigo, só quem já deixou sua casa sabe da dor e da delícia que é estar só. É dormir pensando nas histórias que você não viveu com seus amigos de lá, é acordar pensando no dia em que terá amigos aqui. É almoçar com saudade de reclamar da comida de casa, é jantar nuggets sentindo-se o chef mais independente do planeta. É se sentir mais maduro que qualquer outro amigo que ainda more com os pais e, ao mesmo tempo, se perguntar diariamente por que deixou o colo da mãe.

Morar sozinho é cravar uma batalha constante consigo mesmo e com algo que o perseguirá em durante todo o tempo: a dúvida. No começo, a dúvida cai como uma luva nas discussões fundamentais do cotidiano: quanto ponho de água nesse arroz? Será que consigo trocar sozinho a resistência do chuveiro? Se eu economizar no táxi, sobra um troco pra cerveja? Mais tarde, a dúvida deixa de ser muitas para se tornar uma só: eu fiz certo em renunciar tudo para estar aqui?

Três anos depois, depois de muito me perguntar sobre tudo e sobre o tanto de dias que passei aqui, ainda não tenho a resposta. Foram três anos sem padrinhos - nem madrinhas - oferecendo empregos legais e, por outro lado, três anos criando oportunidades e dando um jeitão único e lapidado a cada uma delas. Foram inúmeras conquistas, inúmeras lágrimas, inúmeras viagens e inúmeras despedidas a cada vez que eu voltava pra casa. Casa aqui, onde eu tô agora, é claro.

Porque morar sozinho é ter mais do que um lar: é ter um lugar pra chamar de seu, com seus talheres, toalhas e endereço próprio; mas nunca se esquecer de que, não importa onde você esteja, sempre haverá um espacinho na casa de quem, todos os dias, faz um exercício inverso ao seu - mas não menos dolorido e, ainda assim, delicioso.

O exercício de fazer você acreditar, incansavelmente, que todas as suas escolhas foram sempre as melhores possíveis, que seus medos serão todos vencidos, que seus sonhos não demorarão tanto para ser reais como você imagina, que a saudade é o sentimento mais agridoce do mundo e, acima de tudo: que, de todas as dúvidas sentidas no dia a dia, você sempre será imune a maior de todas elas. A dúvida de nunca ter tentado.

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