OPINIÃO

Uma homenagem a Anita Malfatti e os 100 anos da primeira mostra de arte moderna

29/01/2017 18:24 -02 | Atualizado 31/01/2017 22:01 -02

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'Tropical' (c. 1916), de Anita Malfatti

Antes da famosa Semana de 1922, a chamada arte moderna teve um primeiro grande marco no Brasil: em 1917, uma exposição com obras de Anita Malfatti (1889-1964) fincou os pés da arte brasileira no que viria a ser chamado de modernismo.

Anita Malfatti: 100 anos de arte moderna, que abre no MAM de São Paulo no dia 7 de fevereiro, celebra o centenário da primeira mostra que rompeu com a dita arte acadêmica. Pintora, desenhista, gravadora e ilustradora, Anita trabalhou em uma extensa obra produzida durante sua passagem pelo exterior, da Alemanha aos Estados Unidos, fruto de seu contato com as mais diferentes vanguardas artísticas da época.

"A exposição de Anita em dezembro de 1917 é considerada o 'estopim do modernismo'. A busca de informação nos grandes centros metropolitanos era consequência do desejo pela renovação formal. A ampliação dos horizontes culturais que a vivência europeia possibilitou levaria ao aguçamento da percepção da nossa realidade local", conta Renata Pedrosa, artista visual e professora dos cursos de História da Arte e Arte Contemporânea do Centro Cultural B_arco.

Na mostra comemorativa, cerca de 70 obras, entre desenhos e pinturas de retratos, nus e paisagens, ilustram três fases da carreira da artista: os anos iniciais que a consagraram como o estopim do modernismo brasileiro, a época de estudos em Paris e a produção naturalista e, por fim, as pinturas com temas populares, que engloba trabalhos realizados nos anos 1930-1940. Fotografias e documentos, como cartas, convites e catálogos, também compõem a mostra, que tem curadoria assinada por Regina Teixeira de Barros.

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'O Farol' (c. 1916), de Anita Malfatti

Considerada o rastilho para a realização da Semana de Arte Moderna de 1922, a individual de Anita ocupou o centro de São Paulo, entre dezembro de 1917 e janeiro de 1918, e exibiu 53 obras, sendo 28 pinturas de paisagem e retratos, 10 gravuras, cinco aquarelas, além de desenhos e caricaturas. Recebida na época com assombro e curiosidade, a mostra chocou a elite paulistana. A intensa visitação e a venda de oito quadros expostos, no entanto, não foram o bastante para superar uma famosa crítica feita pelo consagrado escritor Monteiro Lobato. Boa parte do público concordou com as ideias do autor, fazendo com que cinco obras compradas fossem devolvidas. Para o escritor, Malfatti fazia parte de uma escola de novos artistas com "cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses".

Apesar de avassaladora, a crítica de Lobato falava com uma São Paulo onde pequena parcela da sociedade era letrada. "Ele era uma figura influente. Escrevia com frequência no jornal O Estado de S. Paulo, já tinha publicado alguns livros, portanto era uma autoridade no mundo das letras. As letras que poucos sabiam ler. Uma sociedade formada por valores conservadores, inspirada em modelos europeus de comportamento sociais", ressalta Mirtes de Moraes, professora doutora de História da Arte da Universidade Mackenzie.

Segundo Renata, a cultura brasileira moderna é caracterizada por um duplo movimento simultâneo entre o internacionalismo e o nacionalismo. E talvez tenha faltado a Lobato, como reconhecido pelo escritor Oswald de Andrade anos depois, a visão de que a questão do nacional estava fortemente presente no trabalho de Anita. "Para Monteiro Lobato, ela tinha um projeto de arte moderna que se opunha ao projeto dele, ligado ao naturalismo nacionalista. Assim, Lobato se posiciona contra o projeto de arte moderna que Anita Malfatti apresentava em sua exposição sem perceber que nas pinturas de Anita o nacional já estava presente", diz Renata.

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'O Samba' (c. 1945), de Anita Malfatti

O escândalo gerado pelo artigo teve como consequência, por outro lado, a união de escritores e artistas, que, com o tempo, revelariam um desejo de ruptura com o que se produzia até o momento. "Novas formas de pensar aliada às novas linguagens e conceitos foram as propostas dos artistas engajados em promover o movimento de vanguarda no Brasil, conhecido como modernismo. O modo através do qual Anita revela sua aptidão para pintar está longe de ser um meio convencional, e é com esse mesmo sentido de romper e produzir sensações que a pintora caminhou percorrendo e ampliando o interesse por novas linguagens", conta Mirtes.

Escritores e artistas como Mário de Andrade, Oswald, Menotti Del Picchia e Guilherme de Almeida saíram em defesa da pintora e formaram o grupo que, cinco anos depois, viria a organizar a célebre Semana de Arte Moderna de 1922.

Serviço

Anita Malfatti: 100 Anos de Arte Moderna

De 7 de fevereiro até 30 de abril

Entrada: R$ 6 - gratuita aos sábados

Local: Museu de Arte Moderna de São Paulo

Endereço: Parque Ibirapuera (Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº - Portão 3)

Mais informações: (11) 5085-1300

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