OPINIÃO

Exposição revela obra inédita de artista assassinado por agentes da ditadura militar

06/04/2016 18:37 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

2016-03-31-1459429875-9085411-antoniobenetazzohorizontal.jpg

Retrato Antonio Benetazzo (Divulgação)

Cerca de 90 obras do artista Antonio Benetazzo chegam ao Centro Cultural São Paulo na exposição inédita "Antonio Benetazzo, permanências do sensível". Trata-se da mais completa mostra da desconhecida obra do artista que foi duramente assassinado por agentes da ditadura militar em 1972.

Com curadoria de Reinaldo Cardenuto, a exposição é dividida em seis partes que revelam os eixos temáticos e as variedades estilísticas do autor. O público poderá ver desenhos realizados em 1971, quando Benetazzo esteve na clandestinidade, alguns estudos, além de objetos pessoais e cópias do jornal Imprensa Popular, publicação oficial do Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), redigido pelo militante.

Antonio Benetazzo era um artista plástico e ativista político. Conciliava a luta contra a ditadura militar com suas pinturas e desenhos. No início da década de 1970, foi capturado por agentes do regime, foi morto de forma cruel e sepultado como indigente.

A exposição coroa o projeto desenvolvido desde 2014 pela Coordenação de Direito à Memória e à Verdade da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo. Após quase dois anos de pesquisa, foram identificadas cerca de 200 obras do artista. A mostra conta com apoio do Instituto Vladimir Herzog.

Além da exposição, a pesquisa sobre a obra e vida de Benetazzo deu origem também ao documentário "Entre Imagens - (Intervalos)", filme-ensaio dirigido por André Fratti Costa e pelo curador. O filme foi exibido recentemente na 19ª Mostra de Cinema de Tiradentes.

Autor de um projeto estético singular, a obra de Benetazzo permanecia na clandestinidade até hoje. Muitos dos itens que compõem a exposição estavam espalhados em casas de amigos e familiares. A reparação histórica pode se dar de diferentes formas. Um dos objetivos da exposição é relembrar que a ditadura militar não só impediu a produção e circulação de obras críticas contra o regime, mas atacou e prejudicou a sociedade como um todo. Além de inserir Benetazzo na História da Arte brasileira, "Permanências do sensível" incentiva os visitantes a refletir sobre o regime autoritário como também um golpe contra a cultura.

2016-03-31-1459429962-251719-7464f33c15.jpg

Antonio Benetazzo, Autorretrato X (Divulgação)

O artista e o militante

Uma das fases mais intensas da trajetória artística de Benetazzo ocorreu na segunda metade da década de 1960. Naquele período, professor de Filosofia e de História da Arte no Cursinho Universitário e no Instituto de Arte e Decoração (Iadê), ele compôs mais de 150 obras, com estilos, motivos e técnicas os mais variados.

Dessa época datam autorretratos, retratos de familiares e de amigos, representações do corpo e da sexualidade feminina, abstrações realizadas com cores vibrantes, colagens pop a partir de material publicitário e nanquins, em diálogo com a estética visual dos ideogramas. Benetazzo se dedicou, ainda, à fotografia, incluindo vistas da cidade de Caraguatatuba, detalhes da arquitetura paulistana, cliques de banners espalhados por São Paulo e retratos de populares na rua.

Simultaneamente às atividades artísticas, Benetazzo ampliou o seu engajamento político. De 1965 em diante, rompeu com o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e se aproximou da luta armada contra a ditadura. Primeiro se envolveu com a Dissidência Universitária de São Paulo (DISP) e depois com a Aliança Libertadora Nacional (ALN). Em 1968, Benetazzo ajudou a organizar o 30º congresso da UNE, em Ibiúna (SP).

Ingressando na clandestinidade em 1969, quando militava na ALN, Benetazzo mudou-se para Cuba onde adquiriu treinamento de guerrilha. Ainda em Cuba, ajudou a fundar um novo grupo de esquerda, o Movimento de Libertação Popular (MOLIPO), que a partir de 1971 passou a realizar várias ações revolucionárias em luta contra o regime militar. Paulo era seu codinome.

No decorrer de 1972, já de volta ao Brasil, redigiu praticamente todos os textos do Imprensa popular, jornal oficial do MOLIPO. Capturado por agentes da repressão em outubro de 1972, dois dias depois foi brutalmente assassinado a pedradas, no Sítio 31 de Março, em Parelheiros. O guerrilheiro foi enterrado em vala comum, como indigente, no cemitério de Perus.

Serviço

Em cartaz até 29 de maio de 2016

Local: Centro Cultural São Paulo | Rua Vergueiro, 1.000 - Paraíso

Entrada gratuita

LEIA MAIS:

- Atores fazem show para ajudar a atriz Phedra de Córdoba, estrela da Praça Roosevelt

- Vida e obra do diretor Luiz Sergio Person é tema de exposição em São Paulo