OPINIÃO

30 anos sem Carlos Drummond de Andrade

Não sei precisar o que entendo com ele. Só sei que ele é eterno.

22/08/2017 10:39 -03 | Atualizado 22/08/2017 10:40 -03
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Quando iniciei o meu caminho literário, Drummond era fácil, amigável, inteligível e um poeta das palavras e construções convidativas.

Passados os anos, percebo que a presença de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) em minha vida não é nada circunstancial. Quando iniciei o meu caminho literário, Drummond era fácil, amigável, inteligível e um poeta das palavras e construções convidativas – ali ele figurava ao lado de Mario Quintana, meu grande companheiro da pré-adolescência.

Quando Clarice Lispector tomou conta do que seria um dos primeiros momentos de introspecção feminina – a poucos passos da paixão -, o poeta mineiro continuou ali, revelando-me que o amor poderia ser algo simples, doce e vivaz (1). Sendo o contrapeso de tudo o que consumia na época: da própria Clarice às penosas referências do romantismo no teatro.

Por outro lado, houve um longo instante, entre o colégio e a faculdade, em que ele se fez pura rosa do povo, flor e náusea. E só dialogava comigo para tratar de sentimentos que fossem do mundo (2).

Quando me danei no amor (3), Drummond mostrou-me outra faceta: a cólera e a irritação dos desiludidos, que são capazes de dançar um samba violento sobre a tumba de quem os machucou (4).

Quando me distanciei de sua poesia, pois julgava que já lhe conhecia um tantão, ele seguiu ao meu lado como um observador no escritório (5), com suas crônicas inspiradoras para qualquer jornalista. Carlos Drummond de Andrade, eu percebendo ou não, já havia se tornado meu signo de troca, de afetividade, de correspondência e parâmetro. Ele virou parte de relação.

A vida vai cobrando na maturação. Passei dos poemas e das crônicas às cartas, para perceber um escritor essencialmente humilde e atencioso, aberto às críticas e aos aprendizados da lida, que nem sempre é respirável, mas é habitada enfim (6).

Quando Drummond casou, ele falava de Brasil com Mário de Andrade. E eu estava ali, vasculhando seus momentos, enquanto fazia pesquisa na pós-graduação.

Já hoje, por essas semanas, nosso contato assumiu voz baixa de conversa íntima: tratávamos de existência, de falta e do que ainda será (7). Tudo na terra é sozinho (8), Drummond quase se fez o português Fernando Pessoa.

Meu livro de cabeceira é uma coletânea de 23 publicações deste cara, que é um dos gigantes de nossa literatura. Percebi que estou com ele – com esta edição, minha segunda antologia sua – há mais de ano.

Já variei na leitura: com afinco, de pupilas fatigadas, marcando os melhores, escolhendo por índice, por nome, por trecho, descansando, repetindo os prediletos, procurando respostas, saltando e fazendo perguntas.

Se são 30 anos sem ele, posso reconhecer que boa parte da minha vida até aqui se deu apenas com seus dizeres. Com Drummond, eu aprendi que amar se aprende amando (9), que é necessário ir até o âmago das coisas (10), mas que às vezes é importante deitar fora a um tempo os olhos e os óculos (11) e que viver é sempre uma saudade prévia (12).

Não sei precisar o que entendo com ele. Só sei que ele é eterno. E como mesmo tratou de definir a eternidade, deixo o que é Drummond aqui:

Uma precisão urgente de ser eterno, que boia como uma esponja no caos, e entre oceanos de nada, gera um ritmo (13).

Obrigada, meu amigo Carlos.

(1) 'Não se mate', em 'Brejo das almas', de 1934

(2) Poemas de 'Sentimento do Mundo' e 'A rosa do povo', livros publicados em 1940 e 1945

(3) 'Ainda que mal', em 'As impurezas do branco', de 1973

(4) 'Necrológio dos desiludidos do amor', em 'Brejo das Almas', de 1934

(5) 'O Observador no Escritório', livro publicado em 1985

(6) 'Poema-orelha', em 'A vida passada a limpo', de 1958

(7) 'A suposta em existência', em 'A Paixão Medida', de 1980

(8) 'Estrada', em 'Boitempo I', de 1968

(9) 'Amar se aprende amando', livro publicado em 1985

(10) 'A Luis Mauricio, Infante', em 'Fazendeiro do Ar', de 1954

(11) 'Rola mundo', em 'A rosa do povo', livro publicado em 1945

(12) 'Memória prévia', em 'Boitempo II', de 1973

(13) 'Eterno', em 'Fazendeiro do Ar', de 1954

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