OPINIÃO

Machismo: o 'super-vilão 'mais conhecido no mundo nerd

04/01/2016 12:54 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Mike Lacroix/Flickr

Nunca falou-se tanto sobre o feminismo como nos dias de hoje. Uma pesquisa divulgada pelo Think Olga, mostra que os termos "feminismo" e "empoderamento" cresceram 354% em 2015. O assunto pautou blogs, sites e estampou revistas, como vimos recentemente na capa da ELLE.

A tolerância da mulher para ações machistas cotidianas diminuíram na mesma proporção em que o interesse pela luta da equidade de direitos cresceu, por isso, ações que antes não eram percebidas como tal, tiveram suas neblinas contidas e se tornaram mais nítidas. É o caso do machismo no mundo geek, um ambiente em que a empatia deveria ser natural, mas que é tão (ou mais) cheio de injustiça.

Se você for homem, talvez não acredite que exista qualquer tipo de preconceito neste meio, afinal, os "nerds" compõem um grupo que, teoricamente, foram excluídos na pré-adolescência, sofreram com abusos psicológicos (como o bullying, por exemplo) e também se sentem - ou sentiram - rejeitados por uma parcela de pessoas.

A grande ironia é que esse grupo também reproduz atrocidades com mulheres que querem adentrar o universo geek.

Para alguns homens, mulheres no cenário nerd "são carentes de atenção, ou estão procurando namorados", como ressaltou a estudante Jessica "Ketchup" Gomes no AntiCast.

Gostar do conteúdo geek ou curtir um jogo são motivos automaticamente descartados quando o gênero do player é citado, afinal, seguindo a linha de raciocínio deles, é difícil pensar que uma mulher, que foi criada brincando com bonecas e ganhou um mini-fogão de presente de Natal possa, hoje, ser apaixonada por vídeo-game, o primeiro presente relevante de boa parte dos homens.

Para se ter uma ideia do quanto o machismo está enraizado no mundo geek, não só pelos nerds, mas também pelo mercado, basta ler os regulamentos de campeonatos de games promovidos pelas gigantes indústrias de jogos: mesmo que não necessitem de qualquer tipo de força física, as competições são separadas por gênero, insinuando que, mesmo mentalmente, a mulher não tem as mesmas capacidades e habilidades que o homem. Isso é inaceitável por duas razões: a primeira é que em um jogo, o que é usado para o desempenho da atividade é a mente e capacidade de estratégia, a depender da temática do mesmo. A segunda é a mulher ocupar, ainda assim, uma posição inferior, pois não raramente as premiações das competições masculinas são maiores que as femininas. Coincidência?

Objetificação

A objetificação da mulher neste cenário acontece desde sempre. Basta reparar nas roupas usadas por super-heroínas e super-vilãs nos quadrinhos: todas fetichizadas e que ressaltam determinadas partes do corpo. Toda mulher no cenário geek é sensual e hiperssexualizada, já que até então, era um ambiente majoritariamente masculino. Nos jogos não é diferente: são pouquíssimas as personagens mulheres em games de luta e todas objetificadas. Quem nunca ouviu um amigo dizer que pegaria a Chun Li, não é mesmo?

Conversando com uma amiga que joga RPG desde os 14 anos, ela me relatou que sua personagem sempre era abusada, estuprada e objetificada na mesa. "Se não era estuprada, usava o sexo como moeda de troca para favores, sair de lugares ou salvar o grupo", contou.

Essa mesma amiga contou, inclusive, que em jogos online, a mulher não pode ser noob (termo usado para os novatos no game): sua capacidade é constantemente avaliada e, por ser mulher, você não pode errar.

E sabe o que é mais interessante? É que ao mesmo tempo em que a mulher não pode ser amadora, se ela for boa, nunca será boa o bastante. Ganha um doce quem adivinhar o porquê.

Quadrinhos

Não é só nos jogos e campeonatos que os nerds julgam as mulheres como inferiores e incapazes. Para grande parcela deste grupo, mulheres também "não têm o que dizer". Se você for mulher, arrisque-se a comentar sobre quadrinhos em qualquer panelinha de apaixonados pelo assunto. Tratando de um caso empírico: em uma discussão sobre a Guerra Civil, talvez minha saga favorita da Marvel, anularam todas as minhas opiniões e argumentos apenas por eu ser mulher - e assim como foi citado lá em cima, minhas opiniões foram resumidas a uma tentativa de chamar a atenção ou de arrumar um homem.

A blogueira Marina Laterza Paiva contou que, na faculdade, sempre estranham quando a veem lendo alguma HQ. "Ainda associam quadrinhos aos homens. Alguns me perguntam como gosto de algo tão masculino e ainda me dizem que eu não tenho nada a ver com o universo".

Como se não bastasse termos que lutar diariamente para provar que podemos ganhar o mesmo salário que os homens, que conseguimos desempenhar as mesmas funções, que não merecemos ser cantadas, estupradas e etc, também precisamos provar que sabemos a importância da frase "No more mutants" (Não queremos mutantes, em tradução livre) e da importância de adquirir um mouse Mamba.

É preciso passar por uma espécie de vestibular para provar que podemos conversar sobre A Piada Mortal e que também podemos venerar Frank Miller. Precisamos mostrar que somos capazes de entender e gostar da cultura nerd, mas sem discordar do consenso que o grupo chegou. Se eles acharam a adaptação de Kick Ass para o cinema horrível, jamais ouse em discordar. Acha exagero? Então você não é mulher.

Discussão aberta

A hashtag #AntiMachismoNerd movimentou o Twitter em setembro de 2015 e foi criada a partir do pertinente podcast AntiCast 198 - Machismo no Mundo Nerd. O idealizador Ivan Mizanzuk convidou mulheres geeks e gamers para discutirem o assunto.

"O nosso programa chamou a atenção para um problema que era óbvio pra muita gente, no caso as mulheres, e que faltava alguém de dentro citar. E isso é a parte triste: teve que vir um podcast feito por homens para ouvirem mulheres. Isso é um problema muito sério, que mostra o quão atrasados estamos em questão de representatividade e empoderamento feminino no meio nerd", comenta Mizanzuk.

Os tópicos variaram e foram desde a hiperssexualização das mulheres no cenário a casos em que mulheres foram punidas apenas por terem opiniões divergentes do senso comum daquele grupo. A empatia gerada pelo podcast foi tão grande que, a partir dali, várias mulheres compartilharam suas experiências nas redes sociais.

O barulho foi tão grande que chegou até mesmo aos homens que não percebiam o que estavam reproduzindo. "Recebi e-mails de gente jovem, adolescentes, falando que nunca tinham notado como certos pensamentos e atitudes eram machistas, por estarem tão naturalizadas", conta o host.

As coisas estão mudando. Lentamente, mas estão

O cinema já percebeu que a parcela de mulheres nerds está crescendo e precisamos de representação, de personagens fortes, independentes e que não façam a linha clichê de mocinhas indefesas. Fomos presenteadas com a Viúva Negra e, mesmo que ela não tenha protagonizado um filme solo, sempre foi considerada uma personagem extremamente forte.

Em Guardiões da Galáxia, tivemos a Gamora, uma assassina fria e mais forte, talvez, que o próprio herói do filme. Nos próximos anos teremos a Vespa, já temos a Feiticeira Escarlate e teremos filmes solos da Capitã Marvel e da Mulher Maravilha. Isso sem contar a série Supergirl e a recém-lançada Jessica Jones, que tem um elenco composto por um número de mulheres bem superior ao de homens e com um enredo que ressalta o Girl Power.

Com a força de super-heroínas, as mulheres estão mudando esse cenário que, até então, era homogêneo.

Blogs estão sendo criados por garotas que apostam no bom conteúdo e os segmentam por gênero para que se tornem espécies de safe place, onde seja possível discursar sobre o quanto adoraram a série do Demolidor ou sobre o quanto acharam Avengers: Age of Ultron fraco, sem medo de repressões.

Ainda não é possível integrar grupos mistos e ter o mesmo respeito e se isentar da avaliação sobre conhecimentos em quadrinhos e habilidades em jogos, mas as coisas estão mudando - e estamos aqui para mostrar que mulheres maravilhas existem e não usam, necessariamente, braceletes de ouro.

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