OPINIÃO

Enquanto não houver confiança, não haverá maturidade

O medo de ser enganado prejudica os negócios, enfraquece as relações e impossibilita o exercício do civismo e da responsabilidade no Brasil.

03/04/2017 21:14 -03 | Atualizado 19/04/2017 12:53 -03
Getty Images/EyeEm
"O excesso de precaução contra a malandragem pode ser, em um nível psicológico menos evidente, um dos grandes incentivos a esse comportamento egoísta"

Desde a década de 1980, a World Values Services – um network mundial de cientistas sociais – realiza pesquisas ao redor do mundo com a intenção de investigar as diferenças de valores e crenças entre as sociedades e as mudanças nesses traços culturais ao longo das décadas. Um dos índices analisados é o de "confiança nos outros". Segundo os pesquisadores do instituto, esse aspecto é, de forma surpreendente, um dos mais reveladores dentre todos os analisados. Quanto maior a incidência de pessoas que se mostram otimistas com relação à confiabilidade do ser humano, mais igualitária e desenvolvida tende a ser uma nação.

Em uma nação de desconfiados como a nossa, o normal é partir do princípio de que estamos sendo enganados.

No Brasil, acreditar nas boas intenções alheias é ingenuidade. "Ficar esperto" é algo que se aprende cedo. Enquanto em países como Nova Zelândia, Noruega e Suécia entre 60% e 70% das pessoas enxergam os outros como confiáveis, no Brasil este índice ficou em 7% na pesquisa realizada entre 2010 e 2014. Em matéria de desconfiança, pouquíssimas nações nos superam – como é o caso da Colômbia, onde apenas 4% da população resistem à descrença geral e mantêm a fé no caráter de quem os cerca.

Em uma nação de desconfiados como a nossa, o normal é partir do princípio de que estamos sendo enganados. Somos especialistas na prevenção de atos mal intencionados. A falta de confiança no outro torna tudo mais custoso e difícil. Mas contar com o senso ético alheio é arriscado demais no Brasil. Portanto, essa postura descrente é compreensível e facilmente justificável. Quase questão de sobrevivência – especialmente no mundo dos negócios, que envolve desconhecidos com grande chance de estarem entre os espertinhos que não perdem uma oportunidade de agir em benefício próprio.

O excesso de precaução contra a malandragem pode ser, em um nível psicológico menos evidente, um dos grandes incentivos a esse comportamento egoísta.

Empresas não confiam nos consumidores, consumidores não confiam nas empresas, empresários e funcionários tomam todas as precauções possíveis para se proteger das ameaças que um representa para o outro. Pagamos um preço altíssimo por toda essa desconfiança, provocada pela a fama do comportamento moralmente flexível da população brasileira.

Custos com segurança e burocracias tornam muitos negócios inviáveis. O comprometimento, fator fundamental na construção de qualquer parceria bem sucedida, é inevitavelmente abalado na falta da confiança.

Enquanto nossos compatriotas não conseguirem conquistar nossa confiança – e não existe o mínimo sinal de que isso está próximo de acontecer – desmanchar a postura defensiva não parece uma opção razoável. Afinal essa postura surge como uma resposta à decepção, frustração ou medo e logo penetra nas relações e provoca o distanciamento entre as pessoas, gerando mais desconfianças.

O excesso de precaução contra a malandragem pode ser, em um nível psicológico menos evidente, um dos grandes incentivos a esse comportamento egoísta. É mais fácil enganar aquele que não espera nada de nós que provocar a quebra numa relação de confiança. Se isso é verdadeiro nas relações familiares e de amizade, não seria diferente para o comportamento coletivo.

Por conta dessa descrença, os brasileiros não ganham muitas chances de exercitar sua responsabilidade cívica.

Sem o voto de confiança dos pais, crianças também não aprendem a confiar nos outros, não desenvolvem o senso de responsabilidade e não precisam se esforçar para corresponder as expectativas com relação a seu juízo. Tornam-se imaturas e egoístas. Já as que se sentem respeitadas e aprendem a dar valor à independência conquistada sabem o prejuízo que uma quebra de confiança pode trazer. Na infância ou em qualquer época da vida, nada mais dolorido e vergonhoso que decepcionar aqueles que acreditam nós.

Por conta dessa descrença, os brasileiros não ganham muitas chances de exercitar sua responsabilidade cívica. O que é uma pena. Poucos teriam a atitude de uma escola em Curitiba que, para agilizar o atendimento da cantina no intervalo, passou a contar com a honestidade dos alunos em um sistema self service de lanches, com uma caixinha para depositar o dinheiro – sem ninguém para conferir. Pode parecer uma atitude arriscada (e, aos olhos sempre abertos do brasileiros, bastante ingênua), mas é, na verdade, uma verdadeira lição de civismo que compensa o risco – provavelmente seja bem menor que parece.

Quando assumiu a SEMCO, o empresário brasileiro Ricardo Semler, conhecido mundialmente por sua ousadia e práticas inovadoras de gestão, exigiu que fosse abandonada a prática de inspeção de bolsas na saída da empresa. O índice de furtos de peças não baixou em um primeiro momento. Ao invés de retomar o antigo sistema, ele decidiu afrouxar ainda mais as regras e acabou com o controle rígido de inventário, deixando o estoque acessível a todos os colaboradores. O movimento corajoso de confiança em suas equipes fez com que o problema de furtos da empresa diminuísse até desaparecer.

Temos que deixar que a vergonha incomode aqueles que não conseguem corresponder às nossas expectativas – e não os que são enganados

A cantora americana Amanda Palmer estruturou sua carreira com base em uma relação de confiança mútua que ela construiu com seu público. Não se importa em expor sua vulnerabilidade ao atirar-se na plateia, tirar a roupa em público e pedir todas as formas de apoio quando precisa (ela chegou a escrever um livro sobre isso, A Arte de Pedir). Em troca, seus fãs surpreendem comprando seus discos quando poderiam facilmente baixar da internet e apostando em projetos muito antes de serem concretizados. Tendo como garantia apenas a palavra da artista, 25 mil fãs pagaram por um de seus álbuns muito antes do lançamento, sendo que 7 mil lhe confiaram o número do cartão de crédito para patrocinar qualquer projeto que ela tenha em mente.

No Brasil, vários artistas estão seguindo rumo parecido, em uma parceria direta e bem sucedida com os consumidores, baseada na confiança. Como provou Semler, essas iniciativas não devem ficar restrita à arte. O que uma população desconfiada e com fama de pouco confiável precisa é de mais chances de testar a própria maturidade. Temos que deixar que a vergonha incomode aqueles que não conseguem corresponder às nossas expectativas – e não os que são enganados.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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