OPINIÃO

Educar é um exercício de criatividade

Educadores devem ser, acima de tudo, bons comunicadores. E bons comunicadores usam todos os recursos necessários, com criatividade e novidades, para manter o público interessado e atento.

11/09/2017 18:04 -03 | Atualizado 11/09/2017 18:04 -03
Paulo Whitaker / Reuters
Manter crianças atentas e motivadas é uma habilidade multifacetada, sem fórmula única a ser seguida.

Após analisar dados referentes a quase 510 mil crianças ao longo de uma década, pesquisadores do Instituto Norueguês de Saúde Pública concluíram que os mais novos da sala têm quase o dobro de chance de serem medicados com estimulantes se forem meninas. E, se forem meninos, a probabilidade aumenta em cerca de 40%.

Resultados semelhantes já foram colhidos em investigações realizadas na Alemanha, Canadá, Espanha e Israel, não deixando dúvidas: uma quantidade alarmante de crianças, no mundo todo, tem sua imaturidade avaliada como transtorno neurológico e tratada com psicotrópicos.

Se as estratégias utilizadas para ensinar as crianças pudessem ser avaliadas com a mesma precisão com que se cruzam dados de calendários e diagnósticos, sem dúvida encontraríamos um fator ainda mais fortemente relacionado aos problemas de atenção.

Os maiores índices de alunos com dificuldades para se concentrar provavelmente proviriam de escolas que não incentivam ações criativas e priorizam a quantidade de conteúdo sobre a forma como são conduzidas as aulas. Muitos esforços são dirigidos para que as crianças se adaptem ao sistema educacional, quando o mais urgente é adaptar o sistema educacional a elas.

Poderíamos colocar em discussão disciplinas, grades horárias, quantidade e teor de conteúdo, arquitetura das escolas, métodos de ensino, sistemas de avaliação e outros tantos fatores que compõem a fórmula imprecisa de uma educação de qualidade.

Encontramos variações de tudo isso com mais ou menos sucesso, sempre dentro de limites traçados por processos legais e burocráticos e, portanto, lentos. Mas se restringirmos a discussão a fatores mais tangíveis e não menos impactantes, dependentes apenas de mudanças de perspectivas e posturas na hora de ensinar, já podemos alcançar grandes resultados em curto prazo.

Os ensinamentos que conseguimos transformar em brincadeira, com a participação ativa das crianças, são aprendidos com atenção e comprometimento, independentemente do nível de maturidade. Todas as obrigações das quais elas escapam diariamente, para desespero dos pais e professores, também são magicamente cumpridas quando transformadas em desafios. Mas para isso precisamos reinventar a forma como costumamos impor tarefas e ensinar.

Muitas vezes, temos que lançar disputas, inverter papéis, estabelecer limites de tempo, contar pontos, lançar adivinhas, criar charadas. Enfim, precisamos rever os hábitos desgastantes e pouco eficientes de exigir atenção a longos discursos verbais e de repetir gritando as ordens desobedecidas. Ao invés disso, podemos inventar novas regras e maneiras de ensinar, de preferência divertidas, num exercício constante de criatividade.

Crianças são naturalmente atraídas pelo inesperado. Adoram ser surpreendidas, são fascinadas pelo incomum e motivadas pela criatividade – que pode ser muito divertida, mas exige atitudes que nos tiram do conforto da rotina e de tudo o que é feito com o mínimo de esforço possível.

Ser criativo implica abandonar velhos conceitos e investir mais energia em tarefas que realizamos automaticamente – mudanças que desafiam o comodismo ao qual nos apegamos na vida adulta e colocam em questão também a necessidade de avaliarmos nossas prioridades. Ou seja, a via para chegar a soluções criativas nunca é a mais fácil. Mas quem disse que educar é fácil?

O ensino não acontece sem uma comunicação eficaz. Bons pais e bons professores são, acima de tudo, bons comunicadores. E todo o bom comunicador é necessariamente criativo: sempre vai procurar fugir do óbvio em seu discurso. Afinal, sua intenção é, acima de tudo, é manter a atenção do ouvinte e, para isso, sabe que deve surpreendê-lo constantemente.

Um bom comunicador deve se instigar a identificação emocional de seu ouvinte com o conteúdo e a interação com as informações. Se um meio de comunicação não consegue manter a atenção do leitor ou do espectador, nem consegue informá-lo de forma clara, certamente vai buscar novas maneiras de narrar os fatos. Culpar o público e insistir no formato que não foi aceito não irá evitar o fracasso do veículo. A educação não deveria funcionar de maneira diferente. Nem em casa, nem na escola.

Como tudo o que depende de criatividade, manter crianças atentas e motivadas é uma habilidade multifacetada, sem fórmula única a ser seguida. Mas muitas das estratégias usadas pelos meios de comunicação podem nos servir como inspiração: adequar o vocabulário ao nível de conhecimento do leitor ou ouvinte; usar infográficos, imagens, ilustrações; retomar o assunto desde o começo para situar o público no tempo, espaço e contexto; ouvir os dois lados; permitir questionamentos, discussões, diálogos; buscar, na vida e na literatura, personagens e histórias que ilustrem o assunto; promover polêmicas e questionamentos.

Pensamento crítico e criatividade não costumam ser produtos da leitura restrita a livros didáticos e apostilas. Muito mais provável que se desenvolvam nos momentos em que os livros são fechados e as longas explicações – destinadas a serem esquecidas – trocadas por atividades que envolvem o engajamento das crianças.

Quando nos comprometemos em estabelecer uma comunicação eficaz com as crianças, a imaturidade que impede muitos de sentarem quietos para ouvir passivamente deixa de ser considerada um problema e transforma-se em um desafio saudável à nossa criatividade.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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