OPINIÃO

A escuta terapêutica ou como a música transforma o seu cérebro

19/10/2015 10:34 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
piccerella via Getty Images
Please tell me more... your voice is like music for my ears

A reeducação auditiva, por meio do ouvido eletrônico, treina a atenção e auxilia no tratamento de diversos transtornos neurológicos - dos distúrbios de aprendizagem à depressão.

Muito antes de qualquer estudo neurocientífico comprovar os efeitos e da música no cérebro, um otorrinolaringologista francês inventou uma terapia que se baseia na reeducação auditiva para treinar a atenção e tratar diversos transtornos de aprendizagem. Na década de 50, quando ainda não se falava em plasticidade cerebral, Alfred Tomatis levantou uma teoria que, mesmo não podendo ser comprovada, sustentou todo o trabalho que ele desenvolveu desde então.

Ele acreditava que muitos problemas neurológicos, auditivos e de aprendizagem eram consequência de uma desintegração sensorial que envolve um dos nossos instrumentos mais primordiais de comunicação com o mundo: nosso ouvido. Autor de diversos livros sobre a importância da escuta terapêutica, o médico francês criou o ouvido eletrônico, um aparelho que filtra determinadas frequências de sons, começando pelas mais graves, e isola outras.

"O aparelho funciona com dois canais que se alternam, permitindo um balanceamento de sons. Isso reeduca o ouvido, como se fosse uma ginástica. É possível inclusive recuperar perdas auditivas", explica a psicóloga Carmem Monteiro, que estudou o método com o próprio criador, na França, e hoje é representante dessa terapia no Brasil, com atendimento em São Paulo. A terapia tem alcançado excelentes resultados no tratamento de sintomas de dislexia, hiperatividade e até depressão.

A seleção musical, dentro de um repertório que se limita a composições de Mozart e cantos gregorianos, é feita com base em um teste de escuta que avalia questões emocionais, limiar auditivo, capacidade de localizar sons no espaço e atenção concentrada.

Na época em que criou a técnica - quando ainda acreditava-se que distúrbios de aprendizagem deveriam ser contornados, pois jamais seriam superados com treinamento - Tomatis, visionário, já afirmava que o cérebro é um órgão maleável e sabia que é possível exercitá-lo por meio da audição. Afinal, o ouvido, segundo dizia, é um "simples atributo externo do córtex cerebral".

Ele defendia que os estímulos que chegam pela audição têm impacto na postura e no tônus de todo o corpo, o que explica a associação universal e instintiva da música com o movimento. Com o treinamento adequado, as pessoas ganham a capacidade não apenas de perceber como de sintonizar determinadas frequências de sons nas quais precisam prestar atenção e ignorar outras - um princípio que explica o impacto desse tratamento na atenção sustentada. Afinal, o que seria a concentração se não a capacidade de ignorar os estímulos irrelevantes?

Segundo o neurologista canadense Norman Doidge, no livro The Brain's Way of Healing (ainda não lançado no Brasil), a terapia com som corrige problemas de atenção estimulando áreas subcorticais do cérebro, já que os sinais acústicos não vão diretamente para os lobos frontais e sim passam por diversas áreas mais primitivas envolvidas no processamento de estímulos externos - como o cerebelo, sistema vestibular, gânglios de base e sistema límbico. O treinamento da atenção, dessa forma, é feito de baixo para cima, numa reorganização que permite que os recursos corticais, superiores, sejam liberados de realizar as funções subcorticais - aquelas que deveriam ser automáticas.

Hoje sabemos que há diversas formas de trabalhar essa reorganização neural e ajuste do timing no cérebro. A música é certamente uma das mais eficazes. O neurologista britânico Oliver Sacksfoi um dos maiores entusiastas de seu uso como tratamento de diferentes transtornos neurológicos. "Enquanto a música afeta todos nós - nos acalmando, nos animando, nos confortando ou nos ajudando a obter organização ou sincronia no trabalho ou no lazer - ela pode ser especialmente poderosa e ter grande potencial terapêutico para pacientes com uma variedade de condições neurológicas", cita, no livro Alucinações Musicais (Cia. Das Letras).

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