OPINIÃO

Eis o que todos os teens, LGBTQ ou não, precisam aprender sobre sexo anal

É preciso ensinar aos adolescentes e jovens que o sexo anal é normal, saudável e que não há nada de que se envergonhar.

16/08/2017 16:16 -03 | Atualizado 17/08/2017 13:44 -03
JGI/Jamie Grill via Getty Images
"Estamos todos tentando fazer o possível para proteger nossos filhos da imoralidade e da hiperssexualização presentes em nossa sociedade".

A publicação recente da Teen Vogue entitulada "A Guide to Anal Sex" suscitou as críticas costumeiras de conservadores religiosos de direita e anti-LGBTQ que estão provocando uma reação contra a revista nos Estados Unidos.

O radialista e comentarista da Fox News Todd Starnes, uma das mais estranhas vozes bitoladas e anti-LGBTQ na rádio e televisão, focou esse assunto esta semana quando chamou para seu programa Elizabeth Johnston, também conhecida como "Mamãe Ativista".

Johnston é uma vlogger conservadora que vive no Ohio, tem dez filhos e ganhou notoriedade e um número enorme de seguidores devido às suas campanhas contra pessoas LGBTQ. No ano passado ela atacou a política da Target Corporation de deixar que empregados e consumidores usem os banheiros do gênero com o qual se identificam. Um vídeo que ela postou em sua página no Facebook em 20016 era intitulado: "LGBTQQIAAPP? Assexual? Não binário? Balela! Insanidade de gênero! Essa história está passando dos limites!😡 "

Como se poderia prever, Johnston está liderando os ataques à Teen Vogue com um vídeo que a mostra queimando exemplares da revista. Ela disse a Starnes:

Fiquei realmente estarrecida. Não deveriam estar ensinando nossos filhos a praticar sodomia. ... Estamos todos tentando fazer o possível para proteger nossos filhos da imoralidade e da hiperssexualização presentes em nossa sociedade. Então chega este artigo perturbador em que a sodomia é normalizada, nem sequer é desaconselhada... até os Centros de Controle de Doenças dizem que a sodomia é o comportamento sexual de maior risco para o contágio e a transmissão de HIV, para homens e mulheres.

É por isso que é tão importante conversar com todos os adolescentes, héteros ou LGBTQ, sobre sexo anal e como praticá-lo com segurança. Mas é igualmente importante ensiná-los que o sexo anal é normal, natural e saudável – isso mesmo, saudável – e que não é motivo para ninguém se envergonhar nem para estigmatizar outras pessoas. Dizer a jovens, como diz Johnston, que a "sodomia" é "perturbadora", faz parte da "imoralidade" de nossa sociedade e não deve ser "normalizada" equivale e incentivar o bullying, a violência e a discriminação contra pessoas LGBTQ.

Afinal, o sexo anal é a forma predominante de intimidade entre homens que fazem sexo com homens e entre muitos homens e mulheres transgêneros, e a mensagem que Elizabeth Johnston transmite é que as pessoas LGBTQ são imorais. Não há como fugir disso, se bem que Johnston tenha dito a Todd Starnes, respondendo aos comentários do diretor editorial da Teen Vogue, Phillip Picardi, quando ele descreveu a reação como reflexo da homofobia: "Não odiamos ninguém. Amamos as crianças e os adolescentes deste país."

(A reação contrária a este artigo tem suas raízes na homofobia. Além disso, encerra uma ilusão ultrapassada sobre o que é ser um jovem hoje.)

Se isso é verdade, Johnston deve querer proteger todos os adolescentes contra a estigmatização e também contra as DSTs. Suas alegações sobre os riscos do sexo anal e do HIV são precisamente a razão por que a Teen Vogue deve, sim, ensinar os jovens sobre sexo seguro de todos os tipos. Johnston e outros de sua laia na realidade usam o risco de contrair HIV para acobertar sua mensagem implícita: a de que ninguém deve praticar o sexo anal, nunca, por causa do HIV. E eles vêm fazendo isso desde o início da epidemia de Aids.

Seguindo essa lógica, porém, as mulheres nunca deveriam fazer sexo vaginal, devido ao risco de serem contaminadas pelo HPV –que é muito mais facilmente transmissível que o HIV, incluindo em relacionamentos monogâmicos de casais heterossexuais casados, e que podem resultar em câncer cervical.

Portanto, o medo real de Johnston não é de doenças, senão ela estaria falando na prevenção das doenças sexualmente transmissíveis e na prática de sexo seguro. Condenando o sexo anal, ela pede a abstinência da atividade sexual praticada por teens héteros e homossexuais –e isso não funciona, simplesmente. As pessoas vão continuar a fazer, mas sem dispor de informações corretas sobre como fazer com segurança. Johnston põe todos os jovens em risco e ainda de quebra estigmatiza as pessoas LGBTQ.

John Paul Brammer escreveu um artigo sobre essa polêmica na NBC Out que todos deveriam ler, já que o texto também fala da falta de educação sexual nas escolas de nosso país e de como, quando existe algum tipo de educação sexual, ela frequentemente exclui qualquer discussão da sexualidade LGBTQ, e às vezes essa exclusão se deve a leis estaduais.

Brammer conversou com o Dr. Michael Newcomb, do Instituto de Saúde e Bem-Estar Sexual e de Minorias de Gênero, da Northwestern University. Eles falaram de como os homens, tanto héteros quanto LGBTQ, acham que não estão recebendo educação sexual adequada nas escolas e também do fato de o sexo anal ser uma atividade praticada por muitos jovens heterossexuais, e sobre a qual, portanto, eles precisam ser mais bem informados.

Pensamos nisso com uma questão LGBTQ, mas pesquisas mostram que o sexo anal é, em parte, uma questão de poder e credibilidade para os jovens heterossexuais, com os rapazes querendo dizer que já o fizeram com meninas. As informações sobre sexo anal não estão chegando aos jovens através das escolas.

A Teen Vogue e todos os veículos de mídia, incluindo a Queer Voices, que já discutiram o sexo anal e a sexualidade LGBTQ de modo aberto e franco estão servindo como fórum vital para os jovens acessarem informações e abrirem um diálogo. É muito diferente do que fazem a "Mamãe Ativista" e seus seguidores, colocando todos os jovens em risco ao promoverem a abstinência e incentivar a discriminação contra os americanos LGBTQ.

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*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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