OPINIÃO

Caros terroristas

19/11/2015 20:10 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Pois aí está, é oficial, vocês estão em guerra conosco. O frustrante é que vocês não têm uniforme nem insígnia nem distintivos, não podemos reconhecê-los e, portanto, não sabemos contra quem lutar.

Frustração que, espero, não leve à indicação de falsos culpados.

Se cada morto representa sem dúvida uma vitória para vocês, saibam que vocês não estão nem perto de vencer. Na realidade, isso é impossível.

Porque não mudaremos, não importa o que vocês façam.

Aqui na França amamos a vida. E todos os prazeres dela. Para nós, do nascimento até a morte (o mais velho possível), a ideia é trepar, rir, comer, beber, ler, tirar uma sesta, trepar, discutir, comer, argumentar, pintar, trepar, passear, cuidar do jardim, ler, trepar, conversar, discordar, dormir, assistir filmes, coçar o saco, peidar para fazer os amigos darem risada, mas acima de tudo trepar e eventualmente bater uma punhetinha. Somos o país do prazer, antes de sermos o país da moral.

Qualquer dia desses teremos uma praça Monica Lewinsky, e vamos todos gargalhar. Aqui ninguém censura ninguém.

Quanto ao sexo, é verdade que nós franceses fazemos umas coisas que vocês não gostam.

Adoramos lamber o sexo das mulheres. Nem todo mundo, com certeza, mas vários entre nós. E a bunda e o cu também. Igualmente, nem todo mundo gosta, mas enfim. E as mulheres adoram fazer felação.

Chamamos de cachimbo. É muito agradável. De novo, nem todas as mulheres gostam, e não forçamos ninguém, mas rola. Regularmente. E com muito prazer. E também tem os caras que gostam. De fazer felação, de se lamber ou de se penetrar. E as mulheres que gostam de mulheres.

Na verdade, fazemos tudo o que amamos. A ideia é não incomodar ninguém, e detestamos quando alguém vem nos dizer o que podemos ou não podemos fazer. Isso se chama Liberdade.

Prestem atenção nessa palavra, porque no final das contas é disso que vocês não gostam. Não é dos franceses, dos caricaturistas, dos judeus, dos frequentadores de cafés ou dos fãs de rock ou futebol.

É da Liberdade que vocês não gostam.

A segunda coisa é que, matando assim, cegamente, com um objetivo unicamente numérico, vocês se arriscam a matar os franceses mais representativos da França. Matando mais que os judeus ou os cartunistas, os não-judeus que não sabem desenhar poderiam sempre lhes desculpar ou se sentir alheios a esta guerra. Mas agora isso vai ficar cada vez mais difícil.

Porque atingindo uma amostra representativa da França, vocês estão tocando no que realmente somos. E o que somos, realmente? E essa é a beleza daqui, temos vários tipos. Com certeza tem alguns franceses bem franceses.

Mas também tem franceses italianos, franceses espanhóis, franceses árabes, franceses poloneses, franceses chineses, franceses ruandenses, franceses senegaleses, franceses argelinos, bérberes, ucranianos, georgianos, americanos, belgas, portugueses, tunisianos, marroquinos, tchetchenos, marfineses, malianos, sírios, franceses católicos, franceses judeus, franceses muçulmanos, franceses taoístas, franceses budistas, franceses ateus, franceses agnósticos, franceses anticlericais, franceses de esquerda, franceses de direita, franceses de centro, franceses abstencionistas, franceses de extrema direita, de extrema esquerda, até mesmo franceses jihadistas e franceses futuros terroristas que vocês se arriscam a matar. Tem franceses ricos, franceses pobres, franceses simpáticos, franceses antipáticos, franceses amorosos, franceses egoístas, franceses misantropos.

A lista poderia se estender ao infinito, com todas as combinações e grupos possíveis. Existem até mesmo os franceses não-franceses, porque sendo a França tão bela, sempre há uma grande parte de nossa população composta por turistas.

Sem contar os clandestinos, que não podem ser oficialmente franceses, mas, como moram aqui, também correm o risco de ser vítimas de vocês.

Isso se chama Igualdade. Diante da morte, vocês podem mirar em quem quiser, mas nunca acertarão em todos. E vamos entender o que vocês estão atacando. Nossos valores. Simples. Os valores que fazem da nossa vida parecer o que ela é. Imperfeitos, sim, com suas injustiças, mas são os valores que fazem que nós vivamos aqui da maneira mais digna possível.

O país no qual nossos pais, e os pais de nossos pais, e os pais deles também, escolheram viver e pelo qual vários tombaram.

E o que vai acontecer, cedo ou tarde, é que seremos solidários, graças a vocês. Vamos entender que esses valores correm risco. E vamos amá-los e vivê-los com ainda mais força. Juntos.

Isso se chama Fraternidade.

É por isso que vocês serão vitoriosos. Sim, vocês matarão. Mas, aos olhos da história, não serão nada além de sintomas abjetos de uma ideologia do mal.

E nós também não seremos vitoriosos. Muita gente vai morrer por nada. Outros vão apoiar os Le Pen, os Assad ou os Poutine para se livrar de vocês, e talvez isso seja uma derrota em dobro.

Mas vocês não serão vitoriosos.

E aqueles que sobrarem vão continuar trepando, bebendo, jantando juntos, se lembrando das vítimas e trepando.

Este artigo foi originalmente publicado pelo Le HuffPost e traduzido do francês.

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