OPINIÃO

120 minutos no Inferno

03/07/2014 10:49 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Fred de Noyelle via Getty Images

No dia em que a Argentina enfrentou a Suíça, Kennedy resolveu assistir ao jogo com seus amigos, no Inferno.

Entrou no elevador e sempre educado, cumprimentou o ascensorista.

- Bom dia, Ayrton.

- Bom dia, John. Subsolo?

- Isso.

- Hoje vai assistir ao jogo lá embaixo, é?

- Vou. Os meninos me convidaram...mais animado, né? E você?

- Acho que vou ver com o Fangio. Mas ele fica insuportável quando a Argentina ganha.

Kennedy não gosta do Inferno.

Os corpos nus espalhados pelo chão, o cheiro de enxofre, a lama e Wagner tocando a todo volume não são adequados para um homem de sua estirpe.

Não fosse por Marylin, não desceria nunca.

Mas assistir aos jogos decisivos no Paraíso, é um porre. Tudo verde e amarelo, aquela decoração de São João, a aquarela do Brasil tocando no loop.

E ainda tem Deus desfilando com a Canarinho, pega até mal.

Por isso, para assistir campeonatos não tem lugar melhor na Eternidade do que o Inferno, onde derrotas e vitórias são comemoradas com a mesma intensidade.

E quando joga a Argentina, então, o Capeta bota fogo no lugar.

Distribui ninfas para todos, libera o consumo de drogas, até álcool pode ser consumido, desde que longe do fogo.

Então, mesmo não entendendo muito de soccer, JFK decidiu que a perspectiva de ver o Tinhoso sofrer com a eventual desclassificação argentina valia o transtorno.

O teatro onde assistiriam o jogo era magistral.

Colunas com centenas de metros, a luz vermelha, a fumaça, Stravinsky regendo o chill in. Esse Danado sabe criar expectativa, pensou.

Na plateia apenas chefes de estado, exceto Che Guevara, que por ser argentino foi liberado vestindo a camisa do Messi.

Kennedy tirou o convite do bolso do sobretudo e o entregou para a hostess:

- Olá John...

- Olá Maria...espero que o lugar seja bom.

- Para você sempre o melhor, John. - Maria Callas conhecia qualquer teatro como a palma de sua mão.

Os dois caminharam lentamente para o lugar marcado, tantos eram os conhecidos a serem cumprimentados. Churchill ofereceu um charuto, Mao fez uma continência desajeitada, Thatcher cochichou algo em seu ouvido. Roosevelt conversava com Stalin.

Kennedy procurava se enturmar entre Getúlio Vargas, Khomeini e Perón, quando um nanico subiu na cadeira e gritou:

- John! John! Aqui do meu lado! Guardei para você!!

- Ah não...Adolph é um chato, me livra dele Maria - implorou tarde demais.

- É o preço da fama, John - Callas riu e entregou o convidado para o austríaco.

Por ter se refugiado na Argentina depois da guerra, o führer se considerava Argentino por gratidão.

- Sentate acááá Juanito. Hoy vamos a destruir estos quesitos de miércoles!

Vai ser um longo jogo, pensou.

De repente as luzes se apagaram.

Dos falantes, os primeiros acordes de "Eye of the Tiger".

Um holofote no fundo do teatro anunciou a chegada do dono da festa.

Antes, entra sua corte:

Em túnicas vermelhas, Ray Conniff e seu coral, os astrólogos, os autores de livros de auto-ajuda, os políticos corruptos e os militantes radicais.

Sobe a música.

Lúcifer surge, único.

A seus pés, Linda Lovelace, Maria Schneider e Sandra Brea, nuas como num quadro de Frank Frazetta.

Pausa dramática.

Dois telões ao lado do palco revelam sua face num close, cabelos ao vento.

É ele.

Maradona.

O Diabo ergue a mão direita, num soco no ar.

A plateia vai ao delírio.

- Mano de Dios! Mano de Dios! Mano de Dios! - gritam em êxtase.

O Demônio caminha deixando um rastro de fogo até seu lugar.

Abrem as cortinas de veludo e ouro.

Num telão de leds gigantesco, o jogo vai começar.

Fade out.

120 minutos depois.

Fade in.

A porta do elevador abriu, Kennedy entrou, bêbado, abraçado a Marylin e Jackie.

- Desculpe John...mas elas não podem subir. Você conhece as regras.

JFK beijou as duas e se despediu.

As portas se fecharam.

O presidente americano mal consegue se manter em pé.

Ayrton e Kennedy sobem em silêncio.

Os dois já sabem o que os espera.

Hoje Mercedes Sosa não deixa ninguém dormir em paz.

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