OPINIÃO

Que tal um emprego de 15 horas semanais?

17/06/2015 14:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02
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Pelas bandas de cá o frio está começando. Entre alguns mates y bizcochos, caiu em minhas mãos o texto do antropólogo David Graeber "Sobre o fenômeno dos trabalhos idiotas".

A grosso modo, ele faz uma análise de como nos últimos anos, cada vez mais, foram sendo criados trabalhos idiotas, sem sentido, e que não agregam nada de concreto para o funcionamento da sociedade. Sua explicação é que o capitalismo de consumo criou uma máquina que precisa criar empregos para se autossustentar.

Um exemplo interessante para compreender esse inchaço é a medicina privada. Você não tem somente um médico. Você tem um plano de saúde que funciona graças a uma quantidade de cargos administrativos, de gestão, de logística etc.

E esse plano, na realidade, na maioria das vezes, é administrado por uma administradora de planos que, igualmente, possui um bando de gente (call center, na área de administração, de finanças etc) que não agregam nada para o serviço de saúde em si.

Quando você liga, há um sistema automático que responde ao telefone. Pois bem, esse sistema automático foi criado por outra empresa que tem igualmente um bando de gente trabalhando para fornecer esse serviço. E assim funciona em praticamente qualquer área; passe a observar a parafernália criada, a parafernália dita "necessária". E você só precisa que o médico te examine...

Outro jeito fácil de visualizar o inchaço é contando o número de pessoas que atendem você em um call center. Quem já não contou cinco, seis vezes a mesma história para diferentes pessoas que ao final sempre dizem "aguarde um momento, senhora, esse assunto deve ser tratado pelo setor técnico de reclamação, aqui é apenas o setor técnico de recepção" (risos). Eu fico doida!!! E quem não fica?!

Mas, o que me chamou mais a atenção no texto foi a seguinte frase:

"No ano de 1930, o economista John Maynard Keynes previu que até o fim do século a tecnologia teria avançado suficientemente, ao ponto que países como a Inglaterra e os Estados Unidos teriam uma semana de trabalho de 15 horas."

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Com certeza, essa possibilidade, hoje, parece muito mais distante do que parecia em 1930. Ao contrário, estamos cada vez mais longe de conseguirmos um equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal. E a explicação de Graeber é que isso se deve ao consumismo.

Não sei se a explicação entre horas de trabalho e consumismo seria tão direta. Mas, de qualquer forma, o que eu sei é que, hoje em dia, com a tecnologia existente, poderíamos facilmente trabalhar remotamente, trabalhar com mais eficiência e ter uma vida com muito mais flexibilidade.

Ficar oito horas no trabalho, ao meu ver, parece antiprodutivo. Sem contar que são as oito horas mais preciosas do seu dia, são oito horas, muitas vezes, em ambientes em que você não tem comodidade e privacidade.

A partir daí, vou dar um salto maior ainda: essas oito horas são vivenciadas com alegria, respeito e satisfação? A maioria das pessoas executa um trabalho com o qual não se identifica, suportando abusos morais de chefes, colegas, suportando abusos físicos de ambientes despreparados para se ficar tantas horas.

Portanto, não somente estamos passando demasiadas horas no trabalho, como estamos, igualmente, passando demasiadas horas de má qualidade. Nós, seres humanos racionais, inteligentes, estamos "escolhendo" viver as nossas vidas desse jeito.

Você já pensou no impacto que essa relação com o trabalho traz para sua vida pessoal e familiar? A relação com o trabalho afeta profundamente como nos sentimos, nos identificamos, nos relacionamos e nos posicionamos no mundo.

Neste mundo capitalista, do consumo exacerbado, sabe qual é o objeto mais consumido e descartado? As pessoas. Você e eu somos uma delas.

E a cereja no topo do bolo é que te fazem acreditar que, além de ser obrigado a cumprir essa vida louca, você deve agradecer por isso, pois, caso contrário, existem milhares de outras pessoas esperando a "grande oportunidade" de ocupar o seu lugar. Afinal, ninguém é insubstituível.

Qual foi o #%$¨%$% que incutiu na cabeça das pessoas de que elas são facilmente substituíveis e que, por causa disso, têm que dar a vida pelo trabalho, estar em constante formação, fazer milhões de concessões e estar sempre em estado de alerta para não ficar para trás? Que loucura é essa?!

Enfim, se você está lendo este post até aqui, isso é um excelente sinal (risos), você também, como eu, não somente percebe que algo está muito errado como, igualmente, está querendo mudar.

Quando a gente coloca no papel o absurdo deste sistema, fica bem mais fácil perceber que ousar rumo a uma vida mais plena, coerente e equilibrada é moleza perto da barbárie que enfrentamos todos os dias.

Afinal, você tem coragem de enfrentar tudo isso que descrevi acima, mas não tem coragem de tomar uma atitude de mudar de vida? Não faz sentido, né? Compartilhe este post, ponha a boca no trombone. Somos muito mais do que simples elementos de consumo!

Melissa largou tudo, foi morar no Uruguai como o Bruno e o Martin e criou o Blog Vida Borbulhante. Passe lá para conhecer. Curta o Blog no Facebook.


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