OPINIÃO

Quando um relacionamento acaba

22/10/2015 19:21 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Steve Coleman via Getty Images
Teenage couple turned away from one another in field

Estamos de volta a Montevidéu, depois de passar dez dias em Brasília. Essa viagem ao Brasil, após seis meses morando fora, não estava inicialmente prevista em nossos planos. Nossa ideia era fecharmos pelo menos um ano fora, antes de cogitar qualquer retorno à terra natal. No entanto, por questões práticas da vida, decidimos fazer essa viagem agora. E, foi uma decisão acertada...

Temos insistido no blog de que a mudança de vida vem em pequenas mudanças que você vai estabelecendo em seu cotidiano. Definitivamente, não é necessário sair viajando pelo mundo. Mas uma coisa precisa ser dita: a viagem te permite enxergar a vida com outros olhos. Não precisa ser uma viagem longa, muito menos uma viagem de avião. Pode ser uma viagem de um final de semana. O que importa é que você saia de sua realidade, viva novas experiências ou reviva experiências antigas sob uma nova perspectiva. Portanto, mesmo retornando a Brasília por alguns dias, um lugar que já vivemos, a viagem nos permitiu tornar mais palpável a mudança de vida que estamos fazendo.

Além de rever amigos, familiares e matar a saudade do açaí, da galinhada, etc, tivemos a possibilidade de sentir nossa antiga cidade. É interessante perceber o lugar onde morávamos com olhos de forasteiro. Sentir o ar que circula respirando fora dele. E, acima de tudo, dar um basta na idealização.

Curioso como a gente tende a idealizar algumas coisas depois que as deixou para trás. Isso é muito comum em términos de relacionamentos. Optamos por encerrar uma relação, mas, depois que se encerra, nos momentos de solidão, temos a tendência de relembrar somente as coisas boas do antigo relacionamento. Esquecendo-se dos verdadeiros motivos que não faziam dar certo. O mesmo vale para mudanças de vida. Depois que você decide fazer a ruptura, é importante ser firme e perseverante. Nos momentos de dificuldade, é comum e natural relembrar a vida anterior com certa nostalgia, relembrando mais os momentos bons do que os ruins. Nessas situações, a idealização ocorre como um mecanismo de fuga. Afinal, tanto no término de um relacionamento, quanto em uma mudança de vida, de emprego, de cidade, você está diante do desconhecido. E o desconhecido assusta, amedronta, desestabiliza, te expõe à incerteza.

Eu vivenciei desde pequena essa experiência da idealização. Com seis anos, fui morar na França com meus pais, e voltei ao Brasil com 12 anos. Voltei falando um português com sotaque e com hábitos muito distintos do local. Recordo minha dificuldade em adaptar-me à escola em que meninas com 12 anos eram mini-mulheres e eu era uma menina-criança. A dificuldade de entender a lógica das provas de múltipla escolha. Sim, porque eu nunca havia feito uma. Eu não entendia por que um professor colocava escolhas de respostas para gerar um erro do aluno e não para medir o seu conhecimento. Eu não entendia o senso de falta de respeito ao professor, e muitas outras coisas. Na França, eu era líder de turma, amiga de todo mundo e reconhecida pelos professores. No Brasil, eu era vista como uma criança com problemas de adaptação, vítima de bullying e com um círculo pequeno de amizades. Passei grande parte de minha adolescência e juventude sonhando com a França, como eu gostava de morar lá e como lá tudo era incrivelmente "perfeito" para mim, como eu me encaixava e era valorizada.

Quando jovem adulta, tive a oportunidade de retornar para fazer um mestrado e adivinhem: cadê aquela realidade maravilhosa que eu recordava como ideal?! Não vou negar que sempre me senti muito bem na França e sempre gostei muito de morar lá. Mas, como adulta, pude perceber muitas questões que não se encaixavam com minha visão de mundo, meus desejos de vida e opções que eu vislumbrava para meu futuro.

Essa minha experiência me fez abrir os olhos, passei a compreender mais claramente como a "idealização" é usada como uma ferramenta de fuga diante de uma dificuldade real no presente. Mas, mesmo assim, apesar de estar atenta, até hoje caio na armadilha da idealização. Confesso que, em alguns momentos aqui no Uruguai, cheguei a pensar com certa nostalgia sobre minha vida antiga (que não mais me satisfazia).

Por isso que idealizar aquilo que você optou por deixar para trás é mais do que natural. Render-se a essa idealização é que não pode. Não pode justamente porque é uma idealização, não é algo fiel à realidade. É um conjunto de sentimentos e lembranças que fazem você reviver de forma mais romântica a realidade que você acaba de deixar para trás. A decisão de mudar de vida é, de certa forma, drástica e você passa a reestruturá-la do zero. Reformatar uma mente viciada em hábitos é muito difícil. Encontrar aliados que te incentivem a ser perseverante é mais difícil ainda. Por isso, diante das dificuldades, fiquem atentos aos momentos de idealização, eles virão com certeza!

Meu jeito de lidar com tudo isso é sempre tentar manter em mente o que me fez querer mudar de vida. Na prática, vale a pena escrever em um papelzinho por que você quer mudar de vida e o que irá acontecer caso você não mude ou desista no meio do caminho. Carregar esse papelzinho no bolso, na carteira, e, sempre que precisar, lê-lo. É como se você carregasse um papelzinho com sua versão lúcida e racional, é você dando uma sacudida em você mesmo e mandando para longe as armadilhas da mente.

No meu papelzinho está escrito o seguinte: "Decidi mudar de vida pois desejo ter mais tempo de qualidade com minha família e desejo ser dona da minha vida. Se eu desistir, terei que voltar a trabalhar para alguém e terei que ficar afastada de meu filho mais de oito horas por dia."

E no seu? O que você escreveria?

Melissa largou tudo, foi morar no Uruguai como o Bruno e o Martin, e criou o Blog Vida Borbulhante. Quer ter uma vida mais plena e interessante? Passe lá para conhecer. Curta o Blog no Facebook.

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