OPINIÃO

É possível ser feliz o tempo todo?

04/11/2015 15:48 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Ser feliz.

Essas duas palavrinhas são tão poderosas, que fica difícil pensar em alguém que não veja nelas um objetivo de vida.

Mas, e você? É feliz?

Hoje o Meetup entrevistou o monge budista Emersom Karma Konchog, que podem ajudar a responder, de certa forma, esta pergunta.

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Ele tem 39 anos, inspira-se em Dalai Lama e segue a linhagem tibetana. Recentemente, iniciou um grupo Meetup sobre felicidade em São Paulo, que é gratuito, sem vínculos religiosos e aberto a pessoas de todas as crenças. Boa leitura!

Meetup:O que é felicidade pra você?

Emersom Karma Konchog: Pessoalmente, para mim, felicidade é poder compartilhar as coisas boas com os outros.

O conceito de felicidade é igual para todos ou varia para cada pessoa?

Ao mesmo tempo que cada pessoa tem um caminho diferente que a leva à sensação de felicidade (por exemplo, futebol ou estar com a família), acho que no final a sensação em si de satisfação, alegria e contentamento é bem parecida para todos, não?

Por que às vezes ser feliz é algo que parece tão difícil, apesar de a felicidade ser um objetivo comum a todos?

O paradoxo da busca da felicidade é que desejá-la demais, na verdade a afasta. Isso é tanto um conceito presente nas religiões ocidentais como o budismo, como também já foi demonstrado em pesquisas ligadas à psicologia positiva. Resumindo, é mais ou menos assim: ao buscar ansiosamente pelo que nos deixa feliz, transformamos a felicidade em um objeto, geralmente lá longe. Mas na verdade a sensação de contentamento e satisfação nao está lá longe e nem é um objeto, é algo inseparável da nossa própria mente. Mas objetificar demais a felicidade cria um círculo como o do cachorro correndo atrás do próprio rabo.

Existe um estado de perfeição, ou seja, alguém 100% feliz? E como é esse estado?

Eu acredito que sim. E não precisa ser o Dalai Lama. Imagine aquele estado de satisfação total, por exemplo, ao chegar em casa após um bom dia no trabalho, tomar um banho, sentar na poltrona e só relaxar. Não há ansiedade, nem angústia, não ansiamos nada. O momento é perfeito. Agora imagine que isso continue assim indefinidamente. Com o treino, é possível cultivar esse estado de espírito para que progressivamente ele dure cada vez mais. Talvez até os 100% mesmo. E não é preciso ficar em uma caverna meditando, e nem mesmo uma religião ou caminho espiritual tradicional, agora que há sistemas para meditar e cultivar valores de forma inteiramente secular.

Você acredita que é preciso se desvincular de valores vigentes no mundo contemporâneo para ser feliz? E de que forma?

Valores vigentes como cobiça, egoísmo e desamor, certamente precisamos nos afastar o mais longe possível disso, cultivando o oposto: generosidade, altruísmo, compaixão... É importante também estar no meio de pessoas com ideais e valores similares. Se não as únicas duas opções são: ficar se sentindo como se fôssemos de outro planeta, alienados; ou se render e fazer igual... Obviamente que não precisamos nos isolar de pessoas que tenham valores opostos aos nossos, pelo contrário: a ideia é ajudar. Se tivermos firmeza, não é tão difícil assim viver entre as pessoas dominadas pelos "valores vigentes".

Uma questão em torno da felicidade é sua manutenção. E como fazer para manter a felicidade?

É preciso conhecer as causas da felicidade e cultivá-las. Pesquisas indicam o seguinte: a causa "externa" número 1 da felicidade são relações sociais positivas, desde as relações bem próximas, até as mais distantes. É preciso cultivar essas relações. Não é um trabalho nada simples, mas demonstradamente leva a uma grande satisfação na vida. A causa "interna" número 1 é boa saúde mental, que também precisa ser cultivada. Por exemplo, cultivar valores positivos. Não é preciso ser nenhum especialista para saber que ficar cultivando sentimentos como raiva, ressentimento, inveja, cobiça etc vai levar a um estado mental muito pobre. Não estou dizendo que as pessoas que sofrem com distúrbios mentais tenham ficado cultivando maus sentimentos -- há diversas fatores envolvidos -- mas sim que cultivar valores humanos contribui para a boa saúde mental.

Você começou a organizar um grupo Meetup de discussão sobre felicidade. Quando surgiu o grupo e por que decidiu iniciá-lo?

O grupo é parte essencial da Ação para Felicidade, movimento surgido na Inglaterra em 2011. É um movimento secular, porém também aberto para pessoas de qualquer religião (ou nenhuma), cujo objetivo é contribuir para a criação de uma sociedade mais feliz e compassiva. Fazemos isso reunindo pessoas com o mesmo ideal, discutindo e agindo. É um movimento do tipo "grassroots", ou seja, descentralizado, vindo mais "de baixo", espontaneamente, mais a partir do interesse das pessoas, do que "de cima", de uma organização coordenando tudo.

E o que o levou a iniciar esse grupo Meetup?

Há tempos que tenho interesse em uma forma de divulgar a importância de valores humanos como altruísmo, solidariedade e compaixão, de uma forma independente de crenças. Por exemplo, não é preciso ser religioso para cultivar a compaixão. Todos podemos fazer isso. E há muitos benefícios. Nisso, fui influenciado principalmente pelo Dalai Lama, que passou a fazer da ética secular sua mensagem principal nos últimos cinco ou dez anos. Quando conheci o movimento Ação para Felicidade, vi que era o que estava procurando, e decidi iniciá-lo no Brasil, como uma forma de contribuir para a sociedade em geral. Apesar de eu ser budista e monge, esse movimento não tem nenhuma ligação com isso. O Dalai Lama é o patrono do movimento, mas a Ação para Felicidade não tem nenhuma afiliação espiritual. A base do conhecimento que é passado são pesquisas científicas, principalmente, ligadas à psicologia.

Quando será o primeiro encontro e quais serão as atividades do grupo Meetup?

O primeiro encontro será marcado em breve em São Paulo. Isso deve acontecer logo, pois muitas pessoas estão se interessando. Há outras pessoas organizando os primeiros grupos também em Florianópolis, Belo Horizonte e Curitiba. A dinâmica é assim: discutimos um tema escolhido para o encontro (por exemplo, a importância do altruísmo para o bem-estar pessoal) e nos comprometemos a tentar aplicar a ideia em nosso dia-a-dia. Nos encontros seguintes, também discutimos como foi nossa experiência na prática. É quase como um grupo de apoio. Basicamente, dois tipos de pessoas são atraídos por esses encontros: buscadores (pessoas que estão buscando mais satisfação e felicidade em suas vidas) e agentes de mudança (pessoas que querem fazer do mundo um lugar melhor). O objetivo é facilitar as coisas para os dois, e nossa visão é a de que esses dois objetivos estão intimamente interligados. Outro aspecto que costuma ser enfatizado no movimento são os benefícios da meditação. Então meditamos por um curto período também.

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