OPINIÃO

É a vez delas: Mulheres lideram 'reviravolta' no mundo da tecnologia

07/01/2016 12:13 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Steve Lewis via Getty Images
A switchboard operator at work in east London, circa 1970. (Photo by Steve Lewis/Getty Images)

A cada ano, o número de mulheres que escolhem trabalhar com as tecnologias da informação (TIs) cai em todo o mundo. Mas brasileiras que têm se destacado na área dedicam parte do seu tempo a reverter esse quadro, encontrando outras mulheres e motivando-as a ingressar nesse mercado. As razões para isso vão além de puro sexismo.

A necessidade de estimular as mulheres ao aprendizado em um ambiente seguro e projetar exemplos femininos é o que as motiva. "Há muitas mulheres fundadoras de grandes empresas, mas normalmente o cofundador homem que aparece. Fica difícil para elas verem que podem chegar lá", explica Monique Corrêa, organizadora dos meetups da ONG Girls in Tech no Rio de Janeiro. "Os grupos ajudam mulheres a compartilhar experiências, a apoiar umas às outras e a fazer networking. Assim, não se sentem sozinhas e se fortalecem na vida profissional", acrescenta Nayara Moya, coorganizadora do Girls in Tech de São Paulo.

2016-01-06-1452095444-1880853-23603910922_69820bdaa5_z.jpg

Meetups do Girls In Tech, no Rio, dá destaque a exemplos femininos

No entanto, ainda há um longo trabalho pela frente. Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômicos (OECD), o número de mulheres que escolhem carreiras em tecnologias da informação e comunicação (TIC) diminui anualmente. Estudantes do gênero feminino contabilizaram em 2015 menos de 20% do total de alunos matriculados nestes cursos em todo o mundo - número bem inferior aos 40% dos anos 1980, quando os primeiros cursos de ciência da computação surgiram. Dados da American Association of University Women mostram uma queda de 35% para 26% no número de mulheres ocupando posições de computação nos Estados Unidos.

Universidades brasileiras de ponta também mostram a baixíssima presença das mulheres em matrículas. Segundo dados da Época Negócios, em 2015, houve baixo ingresso de mulheres na Unicamp (10,7%); UFMG (11%); UFRJ (11,8%) e UPFE (15,9%).

O baixo interesse tem origem, como destaca Ana Paula Gomes, organizadora dos meetups do Women Techmakers, do Google Development Group em Belo Horizonte. "Nos anos 80, muitas mulheres trabalhavam nas empresas de telefonia e estavam mais próximas da tecnologia. Houve uma publicidade em massa dizendo que as empresas precisavam de homens e esse quadro se reverteu", explicou. O Women Techmakers oferecem palestras, cursos grátis e eventos sobre temas como Desenvolvimento de Jogos, aplicativos web e aplicativos móveis (mobile) para mulheres. Essa é apenas uma das iniciativas hoje existentes no Brasil para ampliar a presença feminina na tecnologia.

2016-01-06-1452093600-3612802-02_sp_pyladiessp_erika_pat_alini01.jpeg

PyLadies Erika Campos, Pat Simões e Alini Ramos: premiadas por projeto

Como reverter o quadro?

Com a missão de ampliar a presença feminina na tecnologia em 2016, brasileiras resolveram levar a diferentes cidades do país o projeto sem fins lucrativos PyLadies, nascido em Los Angeles. Em setembro último, as amigas Pat Simões e Erika Campos inauguraram o grupo meetup PyLadies São Paulo. "A missão era empreender algo completamente novo em nossas vidas: um grupo só de mulheres reunidas em torno da linguagem de programação Python", conta Pat. O Python é uma linguagem gratuita e de código aberto -- o chamado open source.

O projeto deu tão certo que, recentemente, foi um dos vencedores do Prêmio Mulheres Tech na capital paulista. "Quando completamos um mês de Meetup, tínhamos 458 pessoas cadastradas", conta Érika. Hoje, o grupo tem mais de 600 membros e oferece minicursos gratuitos. Uma nova empreendedora, Alini Ramos, somou-se às duas líderes e tornou-se coorganizadora após a realização do encontro inicial em setembro. "O primeiro curso superou todas as minhas expectativas. Desde então, estou junto, aprendendo e me surpreendendo cada vez mais", comemorou.

A regra da maioria dos encontros é serem abertos para todos os gêneros, mas as palestrantes são apenas mulheres. "É importante mostrar que as meninas também podem ser destaque", justifica Annanda Sousa, uma das organizadoras do grupo meetup PyLadies Rio de Janeiro. Ela organiza os meetups junto com três amigas: Paula Grangeiro, Darlene Medeiros e Thais Viana.

Preconceito

Outra regra é que preconceito não é admitido. Afinal, boa parte das líderes já passou por situações de abuso relacionado ao gênero. "Minha primeira opção para vestibular era computação e desisti ao ser destratada por um professor do curso. Passei anos achando que eu não era capaz", disse Geisa Santos, que organiza o PyLadies Bahia, em Salvador. "Nós ouvimos e vivenciamos muitos casos de meninas subvalorizadas em seus empregos", denuncia.

2016-01-06-1452093789-7901561-02_bh_women_techmakers01.jpeg

Todos podem ir ao meetup Women Techmakers (GDG-BH), mas só elas palestram

Mas a filosofia é sempre manter a cabeça erguida.

"Tenho notado que muitas mulheres abaixam a cabeça e são inseguras, mesmo sendo ótimas profissionais, mas é preciso ter pulso firme", disse Ana Paula Gomes, do GDG-BH. E mesmo não se definindo como feminista militante, ela tem muita experiência para ensinar outras mulheres a não cair em armadilhas pelo caminho profissional. Quando tinha 16 anos, ela foi chamada para coordenar um setor de manutenção de computadores e um dos técnicos lhe disse que "não receberia ordens de uma mulher". Hoje, aos 27, não se deixa abalar quando sofre qualquer tipo de preconceito. "Finjo que aquela pessoa não existe, pergunto se está falando aquilo por machismo, tento ser o mais incrível que posso", diz.

"Estamos muito felizes em ver cada vez mais mulheres brasileiras utilizando o Meetup para desenvolver suas competências em tecnologia", comemora Odile Beniflah, gerente internacional do Meetup.com. "Mais de 40% dos Meetups no Brasil são sobre tecnologia, e muitos são específicos para mulheres, o que permite que elas se empoderem juntas, alcancem objetivos, tornem-se fundadoras de startups e líderes em suas comunidades", conclui.

2016-01-06-1452093897-205601-02_rj_pyladies01.jpeg

Desde o ano passado, o Rio também conta com meetups do projeto PyLadies

LEIA MAIS:

- 'CodeGirl': Documentário quer incentivar meninas a se tornarem programadoras

- 'Só podia ser mulher': A diversidade nas empresas de tecnologia

- Elas romperam os estereótipos e sabem MUITO de tecnologia

Também no HuffPost Brasil:

Mulheres Inspiradoras de 2015, segundo o Think Olga

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: