OPINIÃO

Querida Blogueira Fitness

10/11/2015 12:06 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Esta é uma carta de uma mulher que já te seguiu em todas as suas redes sociais, antes de você ter um milhão de seguidores e ser quem você é hoje. Sabe, não somos os mesmos de ontem, nem seremos os mesmos amanhã, e quem eu segui foi uma mulher de muito tempo atrás.

O seu Instagram com fotos muito bem feitas, o seu blog com dicas de cardápio para "secar", as séries de musculação que deixavam a "bunda na nuca" eram simplesmente incríveis.

Claro que não mais incríveis do que a promessa de ser magra que o pacote todo trazia, porque isso sim era o que eu esperava ter depois de aprender cada coisa que você tinha pra ensinar com suas postagens.

Pra que passar no médico, pra que fazer acompanhamento, pra que me conhecer e saber qual o limite do meu corpo? Estava tudo muito acessível, a alguns cliques de distância. Era como estar assinando "de graça" às melhores dicas que eu poderia ter para conquistar o corpo "dos sonhos" que as revistas e a mídia mostram.

Mas as coisas não vêm de mão beijada assim, e o preço às vezes é bem mais caro do que pensamos.

Tirando todos os anos de ódio ao meu corpo - que é o que geralmente acontece quando se é mulher - o preço que eu paguei também envolveu muito chá da moda, muita semente que prometeu secar gordura, proteína isolada, treinos constantes, dietas malucas, refeições puladas e muita culpabilização por carboidratos ingeridos.

No fim das contas, o grande prejuízo é emocional, além de uma carência nutricional de quem nem sempre se alimenta "bem". É o emocional que mais fica debilitado pela carência de amor, cuidado, carinho e respeito com o meu corpo, com quem eu sou.

Meu corpo é a minha história, e o exercício para entender isso é diário.

Mas, sabe, isso tudo aconteceu não por sua culpa, mas porque eu me identifiquei com você.

Eu me identifiquei com a sua busca por um corpo padronizado e aceito, eu me identifiquei por você ser mulher, me identifiquei com a sua aparente força de vontade, que por um sistema de "meritocracia", por meio do seu próprio esforço (e literalmente suor diário), fez que você fosse essa mulher magra, loira e rica. No pain, no gain - ou "sem dor, sem ganho", como dizem, não é mesmo?

Você é o exemplo de que com esforço tudo é possível, e por isso consegue milhões de fãs, assim como eu fui uma um dia.

Mas ao mesmo tempo, acaba se tornando uma espécie de personificação das coisas que tanto nos atormentam.

Padrões atormentam mulheres. Pode parecer que não, mas somos cobradas o tempo todo para estarmos dentro de um - muito específico, diga-se de passagem.

Se estivermos atendendo a ele, seremos mulheres desejadas, sensuais, bonitas, bem-sucedidas na carreira e no amor.

A mídia nos vende isso o tempo todo, é o pacote completo. O que mais podemos pedir, não é mesmo?

Mas eu realmente não acho que isso tudo seja tão simples. Você é uma mulher linda, bem-sucedida, rica, namora, mas não sei se eu almejo isso tudo como um dia já almejei para me sentir aceita.

Não sei se quero ser lembrada pelo meu físico, ou por atender a um padrão que condena meu gênero e nos faz reféns. Que me resume a "quão gostosa eu sou" ou "quão atraente as pessoas me acham" e assim me classificar como uma mulher merecedora de algo na vida ou não.

Você pode achar que eu estou exagerando, mas sei que é assim que muitas mulheres se sentem, e estou aqui dividindo isso com você. Não sei se você vai se lembrar disso pela mulher que você um dia foi, nem sempre tão magra, nem sempre tão rica, nem sempre tão presente na academia.

Seu corpo também é a sua história, lembre-se disso.

Viver assim, pra mim, é estar se alimentando literalmente das migalhas que o patriarcado dá e não ter noção do quão objetificador isso acaba sendo.

Eu realmente acho que todas as mulheres são vítimas disso, e não dá pra fugir. Nossa relação com o nosso corpo desde pequenas é bem complicada.

Certamente, quanto menos padronizada, mais difícil é se sentir aceita num mundo que exige isso de você todos os dias, seja da forma mais ou menos sutil possível.

Sempre nos cobramos e somos cobradas pra estar dentro desse padrão e nos culpamos se estamos fora dele. Assim, somos socialmente mais aceitas, e isso nos traz um sentimento de "liberdade".

Afinal, liberdade é poder usar aquele biquíni no verão sem culpa, ou poder tirar a roupa na frente dos outros de luz acesa, né? Não. Não existe muito glamour nisso.

Liberdade é muito mais do que isso, amiga. A sociedade machista e misógina explora, humilha e violenta os corpos e mentes das mulheres desde que o mundo é mundo. E liberdade está longe de ser isso.

Se eu tivesse visto um vídeo de vaza nudes ou de qualquer tipo de "estímulo" para "seguir na dieta" há algum tempo, eu talvez não tivesse visto problema. Mas eu vi porque acho que essa relação que criamos com a comida de recompensa e castigo só piora uma série de problemas que envolvem distúrbios alimentares e que servem como combustível para continuar engrandecendo essa indústria que vê valor no nosso corpo como objeto de consumo.

Minha relação com a comida não é boa, e imagino que a de muitas mulheres também não seja.

E outra: seu corpo nunca deveria ser motivo de vergonha, ou de constrangimento. Aliar isso a um vazamento forçado com punição por ter comido o que você queria num determinado momento é um fator com certeza agravante nisso tudo.

É horrível viver temendo o julgamento do outro sobre o nosso corpo, sobre a nossa intimidade, sobre a nossa vida.

Ninguém precisa ver um nude meu pra atestar o que é bom ou não, digno ou não. Temos que melhorar a NOSSA relação com o nosso corpo.

Reforçar que as pessoas de fora precisam nos aprovar de alguma forma e nos desejar ou reprovar por nudes é mais uma vez colocar a aprovação externa de uma sociedade que já nos vê como objetos e determina nosso valor por quão padronizadas nos encontramos. Porque você sabe que juventude, beleza e magreza não são pra sempre, certo?

Essa cultura não nos empodera, mas nos aprisiona ainda mais dentro de uma caixinha.

Não é fácil, mas problematizar isso e trazer à tona esses questionamentos é uma forma de resistência, se não total, parcial quanto ao entendimento de que precisamos rever alguns conceitos.

Ir contra isso tem um nome: resistência. Resistência a um sistema que não nos quer livre dessas imposições, nem livre dos julgamentos, nem livre dessa incansável busca pela beleza e pelo corpo perfeito para sempre - porque envelhecer, assim como estar fora do padrão magra-gostosa-sarada, também não é permitido.

Querida blogueira, você também é vítima de um sistema que massacra constantemente a autoestima das mulheres.

Ser magra nunca foi, nem nunca será crime, mas fica aqui o convite a entender a responsabilidade que falar tantas coisas para mulheres e meninas jovens pode trazer.

E elas vão seguir seus conselhos, porque acreditam em você. E porque querem ser como você, assim como eu, quando te segui no Instagram muitos anos atrás, quis.

A sua liberdade é a minha, e a de muitas outras mulheres. E algumas, do outro lado, resistem. Resistimos.

MAIS MULHERES NO HUFFPOST BRASIL:

Empoderar-te: Ensaio com mulheres gordas

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: