OPINIÃO

Eu não aguento mais ter medo de comida

Depois de anos em guerra, percebi que não adianta fazer apenas reeducação alimentar, é preciso reeducar a nossa relação com a comida.

11/12/2017 18:05 -02 | Atualizado 11/12/2017 18:05 -02
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Quando vamos falar sobre comida saudável sem terrorismo nutricional?

Sim, você leu o título deste texto corretamente. Depois de meses em jejum literário (com o perdão da associação), eu finalmente cheguei ao meu limite - e acredito que todas nós precisamos muito falar sobre isso. Acumulando anos e mais anos com verdadeiro pânico por simplesmente pensar em comida, eu digo de boca cheia que eu não aguento mais fugir dos alimentos com tanta veemência.

Eu não aguento mais investir tanto tempo e energia pensando nisso porque, durante muito tempo, a comida foi o centro da minha vida e dominou 100% do meu tempo. Eu me odiei mais todas as vezes que comi coisas que eu achava que não deveria comer e me considerei fraca, inútil. Tive raiva e usei palavras ofensivas em relação a mim mesma e ao meu corpo, me culpando por estar naquele lugar.

Hoje, eu vejo que, para o desespero geral da população, eu não estava sozinha nessa. Os números de obesidade só aumentam segundo as pesquisas, ao mesmo tempo que cresce o nosso acesso à informação em relação a dietas e alimentação. Por que a conta não fecha? Falhamos.

Eu me lembro da primeira vez que fui ao nutricionista, aos 12 anos de idade, acreditando que eu estava gorda. Não me lembro exatamente quando a preocupação com o meu corpo começou, mas provavelmente foi quando fui deixando de ser criança e passei a ser cobrada para atender ao padrão físico que era esperado de mim enquanto mulher.

A gordofobia já é um problema enraizado na nossa sociedade, mas as mulheres especificamente são cobradas para não portarem nenhuma porcentagem de gordura no corpo - e nos fazem acreditar que isso é possível e natural. Contabilizo 14 anos fazendo todas as dietas possíveis e imagináveis nutrindo uma relação completamente tóxica com a alimentação, o que me faz pensar que eu perdi mais da metade da minha vida pensando nisso, se considerarmos meus atuais e recém completados 26 anos.

Como bem disse Naomi Wolf em O Mito da Beleza:

"Uma cultura obcecada por magreza feminina não é obcecada pela beleza da mulher, mas sim pela obediência feminina. A dieta é o sedativo político mais potente na história da mulher, uma população levemente louca é uma população dócil".

Eu sinto como se tivesse despertado de um sono profundo depois de muitos anos vivendo um absoluto pesadelo em relação à alimentação e posso dizer que me a palavra que melhor define o que eu sinto agora é "cansaço". Estou absolutamente exausta, exaurida, cheia, cansada. Parece que eu vivi anos sedada buscando um corpo que eu não poderia alcançar ou acreditando que este era (ou deveria ser) meu objetivo de vida antes que eu pudesse atingir alguma espécie de felicidade, ser amada, ou para que eu pudesse ser alguém na vida.

Essas ideias logo me fazem pensar que uma mulher que foca tanto tempo e energia em emagrecer, não tem energia mental e física para focar em mais nada, seja em sua carreira, em seus sonhos, ou até mesmo em ser mais ativa socialmente e politicamente na sociedade. Fomos sedadas.

Olhando para trás, eu gostaria de ter conversado mais comigo mesma e entendido melhor o que eu compreendo e vejo hoje. Acredito que depois de tantos anos de terrorismo alimentar com o mundo te dizendo o que comer ou não (e te fazendo se sentir culpada por pensar nos alimentos considerados "vilões"), o que eu acumulei foi uma relação doentia com a comida.

Nessa luta diária com vilões e mocinhos, você acaba se tornando mera coadjuvante da sua própria vida. Com o acúmulo de diversos fatores, desenvolvi ao longo dos anos o comer transtornado, que às vezes se manifesta na forma de comer por estar triste e ansiosa, ou comer com culpa, ou simplesmente não comer como maneira punitiva ou com o intuito de restringir calorias ao corpo.

Me privei, me puni, vivi uma vida baseada no medo e na culpa. Toda essa pressão faz que esqueçamos que a função basal do alimento é prover energia para viver, para nutrir nossos órgãos e nos proporcionar um meio para que executemos tarefas básicas - como respirar, por exemplo.

Privar-se de alimentos, a não ser que você viva em um quarto fechado sem acesso ao mundo exterior, é privar-se de passar momentos com os seus amigos porque você tem medo do que vai comer em determinado restaurante ou evento. É deixar de investir tempo e energia em coisas que seriam produtivas para focar em paranoias nada construtivas à respeito do seu corpo ou da comida no geral.

Privar-se de comer é submeter o seu corpo a um nível de stress desnecessário que vai afetar não apenas a sua biologia, mas principalmente o seu psicológico. Quando a comida passa a ser o mote central da sua vida que define todo o resto das suas atitudes e escolhas, você passa a ser controlado por ela - e desenvolve o medo. Viver com medo que vai estar presente à sua volta o tempo todo não faz bem.

Eu não aguento mais ter medo da comida ao ponto de que carboidratos viraram meus maiores inimigos de vida. Eu não quero mais ter medo de comer aveia ou banana. Minto, eu quero poder comer qualquer coisa sem culpa. Hoje vejo que as restrições que me impus foram as causas dos meus quadros compulsivos.

Aonde foi que eu cheguei? Quando vamos falar sobre comida saudável sem terrorismo nutricional? Você pode querer mudar ou melhorar a sua saúde e o seu corpo, mas como a punição e o ódio vão ajudar nesse processo? É preciso amar-se antes de qualquer coisa aceitando o que você tem hoje - e não esperando atingir um objetivo para então começar a gostar de si.

Fato: não dá para cuidar daquilo que a gente odeia, e hoje eu vejo isso. Eu precisei chegar ao limite da exaustão para conseguir falar sobre isso e então descobri que muitas outras mulheres passavam pelo mesmo. Precisamos recuperar uma boa relação com o alimento com urgência, antes que nos afundemos cada vez mais em números absurdos de mulheres que desenvolvem distúrbios alimentares (e que os escondem durante anos sofrendo em silêncio).

Eu sofri em silêncio, mas eu não aguento mais. Depois de anos em guerra, percebi que não adianta fazer apenas reeducação alimentar, é preciso reeducar a nossa relação com a comida. Eu levanto a bandeira e me rendo, e quero recomeçar e reaprender a alimentação. Certamente, 14 anos de má relação não vão se curar do dia para a noite e vejo um caminho longo e diário pela frente, mas sinto que é preciso começar em algum momento e fazer isso por mim mesma.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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