OPINIÃO

'A Grávida da Cinemateca': Um filme atual e independente

13/12/2016 16:45 BRST | Atualizado 13/12/2016 16:45 BRST

Este ano uma nova produção estreou na TV Cultura e talvez não tenha sido assistida ainda tanto quanto poderia ter sido.

Exibida pela primeira vez, em caráter de estreia inédita na grade da TV Cultura, num sábado, ás 23h59, o filme trouxe um assunto muito contemporâneo sobre o descaso brasileiro quanto à sua própria cultura e até premonitório do que viria acontecer em termos políticos no ano de 2016. Trata-se do média metragem de 52 minutos, A Grávida da Cinemateca. O filme foi dirigido e roteirizado pelo cineasta Christian Saghaard e produzido por Jorge Guedes através da produtora independente Cinegrama Filmes.

O cineasta e diretor é realizador de diversos curtas metragens com grande vivacidade e criatividade artística, ganhador de alguns prêmios em festivais. O produtor é um parceiro de idéias e de proposta inventiva, produtor de vários curtas e alguns longas metragens de cunho artístico. Em 2005 já haviam sido audazes na realização, produção e lançamento em 2008 do longa metragem O Fim da Picada, filme que já tratava da falta de perspectiva humana na classe média brasileira e que falava de um menino de rua transformado em Saci Perêrê. Apesar de terem realizados filmes e lançado comercialmente o longa e o média, não são consagrados pela grande mídia, nem conhecidos do grande público. São sim parceiros na arte e na proposta de fugir ao senso comum e à unanimidade propagada pelos donos de nossas mentes e olhos.

2016-12-11-1481490096-3348937-13427752_1023069121102875_1741885786526881494_n.jpg

Para a realização do projeto, foi firmada uma parceria com o grupo de pesquisa de cinema AP43, que tem trabalho voltado para a pesquisa e produção audiovisual, com eixo no ator. O grupo AP43 é organizado pela atriz e preparadora de elenco Nara Sakarê e pelo roteirista André Collazzi, que também participa como consultor de roteiro deste projeto. O média foi protagonizado pela excelente atriz Juliana Lourenção, e participação de grande elenco, a maioria participantes do grupo. Contou com a participação especial do ator convidado Aldo Bueno que interpreta o diretor da cinemateca.

"A Grávida da Cinemateca" foi selecionado na Semana dos Realizadores no Rio de Janeiro onde foi exibido com debate após a sessão. Nesta exibição, ficou claro através do debate promovido após a sessão, que o filme comunica bem o drama de sua trama ficcional.

O filme mostra uma jovem que trabalha na Cinemateca Brasileira e que no mesmo dia em que descobre que está grávida, recebe a notícia juntamente com toda a equipe de que a instituição será fechada e todos os funcionários serão demitidos. Ocorre que a Cinemateca é o órgão, ligado ao Ministério da Cultura que cuida da preservação da produção audiovisual brasileira. Filmes antigos e novos, de ficção, documentários, jornalísticos, encontram-se guardados e preservados na instituição como um patrimônio da cultura brasileira. A história do Brasil, portanto, passa pela Cinemateca. Se alguém hoje quiser contar e mostrar fatos e imagens registrados ao longo da história, precisa recorrer á Cinemateca. Sendo assim, fechar a Cinemateca e demitir seus funcionários é jogar na escuridão o nosso acervo, nossa cultura e portanto nossa história. A instituição, na vida real, vive dificuldades evidentemente e já foi fechada algumas vezes. No entanto o filme traz uma estória ficcional, divertida e ao mesmo tempo dramática da saga de nossa heroína, neste contexto baseado em alguns acontecimentos reais.

Após a dissolução do conselho da Cinemateca no filme, e demissão de todos os funcionários, apenas a protagonista permanece na instituição pelo fato de estar grávida e não poder ser demitida. O grau de isolamento a que esta personagem se submete vai aumentando, ao mesmo tempo em que uma espécie de loucura vai se apossando misteriosamente dela. E caberá a ela, uma apaixonada pelo cinema, a missão de preservar o acervo e cuidar de nossa cultura... quase como um animal. Assim, o filme vai ganhando contornos fantásticos e torna-se uma denúncia poética e premonitória ao atraso que vivemos hoje e tão defendido pela mídia usurpadora de nossas mentes. E o mais curioso de tudo é que seu argumento e roteiro foram escritos antes dos últimos fatos políticos que ocorreram no País.

Depois de sua estreia na TV, vimos um governo fraco e sem visão dissolvendo o próprio Ministério da Cultura e, logo em seguida, recriando o mesmo.

Abaixo você pode acessar o filme que foi postado on line em sua versão integral e pode ser visto em alta qualidade por qualquer pessoa interessada. É uma forma de difundir o cinema brasileiro sem barreiras. Até porque filmes são feitos para serem vistos. E um filme como esse precisa ser visto. Vida longa à arte sem limites.

LEIA MAIS:

- O despertar para a consciência negra e um convite à reflexão

- Em defesa da sanidade materna

Também no HuffPost Brasil:

Conselhos para cuidar de sua saúde mental